terça-feira, 6 de maio de 2008

Acabou a tua agonia, Papá



Fevereiro, Março e Abril são meses para esquecer. Vivi os dias mais negros e tristes da minha vida. No dia 29 de Abril partiste, papá. A tua dor acabou. Foi horrível ver-te em agonia e o meu único consolo é saber que já não agitas os braços numa tentativa de arrancares tubos, já não tens dificuldade em respirar, já não tens a ansiedade, a garganta seca e o desespero que te tomaram por inteiro e te asfixiaram por fim.
Partiste, papá e eu sinto-me mais só do que nunca e tão triste e com tanta dor física e um aperto mental tão grande que sempre que me lembro que não te tenho é como se sofresse choque eléctrico após choque eléctrico.
A dor é constante e a saudade eterna. Não por teres sido apenas meu pai mas por teres sido um pai meigo, querido, amigo, que gostava de dar e receber miminhos, a pessoa mais terna e doce que conheci até hoje. Dói-me mais por te ter sido predilecta e tratada com tanto amor e ternura por ti. As minhas mãos encerram os mil beijos que me deste, o meu coração é ocupado por ti, a minha memória nunca te esquecerá e eu sou quem sou graças a ti.
Gosto de te imaginar no Céu entre os nossos entes queridos que também já partiram, em particular os avós, o tio e os primos. Gosto de pensar que o teu espírito deixou este invólucro terreno e agora corre solto por dimensões alegres e boas. Dizem que é assim, que as pessoas boas quando morrem vão para o Céu. E assusta-me imaginar-te perdido ou sozinho preso num desses pesadelos horríveis que às vezes tínhamos.
Sabes, papá, nunca mais consegui sonhar contigo e isso mata-me. Eu que sonho tanto e milhares de vezes sonhei contigo agora estou bloqueada e nem aí me é permitido ver-te. Durmo abraçada à tua almofada e só assim durmo.
Eu sei que vou encontrar-te. Sempre fui óptima a descobrir-te as coisas: papéis desaparecidos, objectos perdidos, tudo o que me pedisses para encontrar na bagunça do teu escritório eu achava-te. E vou reconhecer-te no Céu e correr para os teus braços. PROMETO-TE. Sinto-te em mim, dentro deste coração que ainda bate e sei, do fundo do meu ser, que um dia, vou vasculhar esse Céu à tua procura e nem que passe por oceanos e oceanos de espíritos eu saberei quem tu és e não descansarei até te reencontrar.
Tenho recebido muitos beijos e palavras de conforto. Às vezes penso se também terás sido recebido com uma chuva de beijos. Eu sei que tiveste tanto medo mas agora quero acreditar que estás bem. Intercede por mim e pela bebé e nós oramos por ti. Um dia vamos estar juntos e tu daí, do Céu, vais ver a bebé transformar-se numa bela mulher. No dia do teu funeral, 1 de Maio, a querida deu os seus primeiros oito passos seguidos. Já deve ter sido o teu espírito a segredar-lhe para não ter medo de andar. Se calhar deste-lhe a mão e ajudaste-a e ninguém te viu.
Prometo-te papá que viverás sempre através de mim e que a única neta que chegaste a ver saberá quem foi o avô e amará e respeitará a tua memória, assim como eu amo e respeito a dos meus avós que pouco ou nada conheci.
A vida é dura e é uma graça. Disse o senhor padre na tua homília: “Ninguém pede para nascer, a vida é uma graça de Deus, um dom que Ele nos dá.” Mas também ninguém pede para morrer ou para sofrer a dor provocada pela perda de quem amamos. A vida é assim um presente envenenado. É dada mas retirada. A morte é um mistério. A vida é uma graça e a morte um mistério. Nunca gostei muito destas definições religiosas. Não sei o que é a morte mas agora tenho-lhe menos medo. Ganhou um novo atractivo: o poder abraçar-te de novo. Espera por mim, papá.

Stop all the clocks

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.


W.H. Auden