sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Café de maldosos

A bebé adoeceu e ficou uma semana a Brufen e Zyrtec comigo a aspirar-lhe a ranhoca num boca/ nariz que só os pais modernos sabem, uns tubinhos revolucionários que nos lixam a garganta mas aliviam imenso os bebés. É, alías, a única forma de os assoarmos e quem teve essa idéia está de parabéns. No meio da doença da bebé - o meu irmão acha sempre um exagero que a designe assim mas uma constipação num bebé tão tenro é uma doença chata sim senhor - apanha-me a porta da varanda aberta e zás! escorrega no chão acabado de lavar e bate com a carinha na pedra do parapeito. Reultado: um olho negro de efeito quase imediato, embora no dia seguinte fosse bem mais penoso olhar para a cara daquele anjinho....
Enfim, feito o mal tenta-se salvar a coisa o melhor possível e vai logo de pôr thrombocid e tal. Ao terceiro dia e porque também estava aparentemente melhor da doença/constipação fui com ela ao centro comercial ao lado da minha casa e a dois cafés. Fui olhada com muitissima desconfiança. Por quem me conhecia e desconhecia. Expliquei perante as perguntas do "Oh, coitadinha! O que aconteceu à bebé?" que ela era traquina e tinha caído na varanda porque escorregara. E a prova da traquinice é que já andava a falar com uns e outros pelas mesas e a esconder-se atrás dos estores. Quando a repreendi e a chamei para perto de mim olharam-me de novo daquela maneira. Como se olha quando não se acredita. E eu senti-me uma forasteira numa terra de gente estranha. Senti que duvidavam da minha explicação e que na cabeça deles deviam estar a pensar: "Pois... bateram-lhe e agora andas para aí a dizer que ela caiu. És tu e a PJ cá do sítio." Porra e não gostei. E o bom de ter um blogue é que aqui posso mandar todas aquelas pessoas maldosas À MERDA!!!!! A minha filha caiu sim e acidentes acontecem DE VERDADE!!!!!!!!!!!!!!!

Tenho medo da caminha...

A bebé está quase a fazer dois anos. O tempo passa tão célere como me recorda o desvairado ponteiro dos segundos do novo relógio da cozinha. Até dá azia olhar para aquela frenética agulha... Ainda ontem a bebé me mirava em silêncio e hoje é uma perseguidora feroz de todos os meus passos e gestos. Agarra-me na mão e puxa-me, quer-me ali e acolá, não posso sair sem a sua autorização ou esquivar-me para um cigarro discreto... É uma pequena melga. Claro que é amorosa e querida e eu também acho o máximo ela adorar-me assim e tal mas quando chega ao ponto de eu não poder estar a tomar um duche porque ela me puxa a cortina da banheira e berra COLINHO a plenos pulmões... começa a ser SUFOCANTE.
E, se durante o dia a bebé é uma exigência permanente à noite tornou-se outra. Desde um fim-de-semana fora de portas em que partilhámos a mesma cama nunca mais abdicou da doce sensação do quente da mamã. Isto aliado ao facto de numa das suas birras ter SALTADO a cama de grades e aterrado num lindo chão de madeira... Resultado: o medo da caminha...
Já tentei tudo: explicar-lhe que a cama não tem nada de assustador mas que não deve praticar saltos acrobáticos por cima de edredons a fazerem de trampolim... Aqueço-lhe os lençóis com um saco de água quente, meto-lhe a temperatura do quarto em regime tropical e a pequena piranha nem assim lá fica. Perante os seus gritos, choro e inclusive vómitos tenho de a levar comigo e encaixá-la entre nós os dois. Não é fácil mas a bebé tornou-se uma pedinchona da cama grande ao pé da mamã e do papá e isto está a dar comigo em DOIDA.
Medos infantis... Aos dois anos é o medo de perder os pais assim rezam todos os sites da matéria. Ela para o pai está a borrifar-se mas a mamã é que não pode faltar. Ele às vezes tenta com maior ou menor sucesso SER PAI. Tem as preocupações dele e pouca paciência. As mães são abençoadas e as que ficam em casa MASSACRADAS. Muito mais se devia escrever sobre as mulheres que sacrificando mais ou menos a carreira delas se tornam FULL TIME MUMS. E nós já decidimos que até aos TRÊS ANOS não há infantário para a bebé doa a quem doer. Mas é só a mim que dói e eu espero que por causa deste meu mega esforço ela nunca me mande à merda numa fase tresloucada da adolescência. É que isto custa MUITO. E eu sinto-me SOZINHA.
Medo dos monstros é só a partir dos três anos. Ou seja, a bebé é precoce porque já foge deles por toda a casa. Excesso de desenhos animados? Claro que filtro a bonecada, eu própria já sei de cor o que interessa ou não e rio-me com as expressões dela aprendidas por lá: "Oh Céus!", "E agora o que fazemos?", "Não é justo!", "Está bem mamã", e por aí fora.
Medo do escuro nunca teve. Quer sempre as luzes todas apagadas. Depois é uma hora e meia ou duas na alegre palhaçada de saltos e cavaqueira do que aprendeu nesse dia... só então adormece, encostada a mim, a segurar-me na mão, após ter dado e recebido milhares de beijinhos... É assim a doce vida dos bebés. Agora a mãe é que tem MEDO. De não aguentar a barra. I'm loosing it, como dizem nos filmes.

For your eyes only

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
- «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...»

- «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...

Nicolau Tolentino