quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Todos os Patinhos


Com a sua personalidade a delinear-se a bebé já tem também gosto musical. Existem músicas que despreza, outras que suporta e, uma em particular, que adora com paixão: a dos patinhos! Mal entra no carro começa a pedir: “patos!”, “patos!” e, assim que esta termina pedincha encores intermináveis. Ou seja, todo o percurso automobilístico passa a ter como música de fundo a brevidade de uma faixa elevada à eternidade on the road
E eu apercebo-me que deixei de ouvir música. Antes, ouvia em casa, quando escrevia ou arrumava coisas. Também escutava no ginásio ou sempre que conduzia o carro. Mas desde o dia da morte do meu pai – e já na doença dele – fui cortando com a música. É engraçado constatar isso porque, na realidade, é ainda uma forma de luto. Sinto-me demasiado inadaptada para abanar a cabeça ou cantarolar, nessa onda de boa disposição e alegria que a música nos proporciona.
Mas a bebé, alheia aos dramas da vida exige os patinhos e, a eles tem todo o direito. Sinto-me, como mãe, responsável pela felicidade da minha filha. E nada do que me possa afectar a mim deve afectá-la a ela. Separo o coração do cérebro e sigo com as nossas vidas…
Outro prazer da bebé foi a descoberta dos lápis de cor. Risca folhas brancas – porque ainda a consigo impedir de pintar as paredes cá em casa – e diverte-se com os desenhos que lhe faço e que o meu marido diz que são cópias das ilustrações dos livros dela. E daí? O que interessa é que ambas nos divertimos imenso.
Quando ela acorda fá-lo sempre com uma tremenda boa disposição. Sinceramente, acho isso fantástico. Para ela, cada dia é mais um dia de brincadeiras, onde tudo vai correr bem, terá os seus brinquedos para jogar, é inundada de beijinhos, transportada ao colo ou no seu carrinho de princesa, todos lhe ligam e sorriem e ninguém a atraiçoa ou lhe faz mal. A bebé não sofre a não ser que uma constipação lhe entupa o nariz ou uma cólica lhe faça dores de barriga. E neste mundo de bebés onde tudo é uma perfeição tecida na tranquilidade e segurança nós, os pais que vivemos no mundo real, mais cedo ou mais tarde começamos a temer que algo de sinistro trave a felicidade dos nossos filhos.
Um dia, um colega meu confessou-me que nunca iria ter filhos porque não lhes queria dar o nosso mundo louco por herança. Pensei que tal teoria não tinha qualquer fundamento, e que se todos pensássemos assim, então ninguém procriava. Porém, agora que a bebé está cá fora e faz parte da humanidade também eu me inquieto e muito. Basta ver um noticiário para termos a nossa dose de crime e violência. E se ela, um dia, for uma vítima? Quem me garante que a minha filha – que é o meu maior diamante – está a salvo da selvajaria dos assaltantes e violadores? Ou da fatalidade de um acidente de automóvel? Ou da desgraça de uma doença incurável?
Começamos a viver com estes medos e a recear a escuridão que possa vir dos outros. As pessoas boas não andam com uma estrela na testa, caso contrário seria fácil seguir o caminho certo, sem falhar nas escolhas. Porém, é neste mundo tão maravilhoso quanto cruel e sanguinário que nós vivemos. E uma vez que somos pais compete-nos a mais tremenda das tarefas: somos responsáveis pela felicidade dos nossos filhos. Temos de lhes oferecer segurança e cuidar para que nada lhes falte. Fomos nós que decidimos que eles iam nascer e somos nós que velamos por eles até à idade adulta e, quantas vezes, depois dela. Ser pai e mãe não é uma obrigação com princípio, meio e fim mas antes algo que nos transforma até à morte em anjos tutelares e que nos faz questionar se a paciência é ou não é genética :-)
Todo o ouro do mundo não paga os sacrifícios diários que os pais fazem pelos filhos para que estes possam voar mais alto e mais longe. É esse o orgulho de quem é pai ou mãe: tentar proporcionar o melhor do mundo para os seus patinhos. E assim, quando estes baterem asas e procurarem, por sua vez, nidificar, alguma coisa terão aprendido com os seus progenitores. O amor gera o amor.


Todos os Patinhos Versão I

Todos os patinhos acabam de brincar, acabam de brincar,
Os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar,
Os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar.

É que esta hora, é hora de dormir, é hora de ir dormir,
Mas ainda é tempo para uma história ouvir,
Mas ainda é tempo para uma história ouvir.

Pais, mães ou avós à cama lhes vão dar, à cama lhes vão dar
Um beijo de boa noite e a luz apagar e a luz apagar

Todos os Patinhos Versão II

Todos os patinhos
sabem bem nadar (bis)
cabeça para baixo
rabinho para o ar

Quando estão cansados
da água vão sair (bis)
depois em grande fila
p'ró ninho querem ir

Na hora da papa
todos querem comer (bis)
atrás da mamã pata
vão todos a correr











quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Onde estás?

Com pouco mais de 18 meses, a bebé já tem um vocabulário cirúrgico. As deixas mais correntes são: “onde estás?”, “luz/ escuro”, “papa”, “bebezinhos”, “bola”, “almofada”, “jardim”, “meninos”, “cão”, “gato” e por aí fora, com muitas das palavras a terminarem em inhos por acréscimo próprio. Assim, o papá ficou pai e, depois, evoluiu para paizinho. Já eu sou mamã e mãe e ponto final. Hum….
O número de birras tem acompanhado os centímetros, ou seja, está maior e mais birrenta do que nunca. É bem disposta mas quando contrariada contorce-se e grita de tal maneira que só me apetece fugir. E está a ficar egoísta como todos os filhos únicos. Tudo é dela e é impensável emprestar roupas e brinquedos seja a quem for. Às vezes, até nos tenta expulsar dos sofás ou da cama: “sai!”, exige, toda autoritária. É de uma pessoa pensar que talvez tenha criado um pequeno monstro… mas de repente sorri e dá beijos inesperados a torto e a direito e com os bracinhos envolve-nos o pescoço e deixa-nos com um xiiiii-coração que nos derrete por inteiro.
Embora rendida ao charme dela ainda guardo na memória os lamentos do meu primo neste Verão. Dizia-me ele que a filha de seis anos o tinha ameaçado: “Se não te portas bem ponho-te num lar”… Fiquei siderada com a tenra pertinácia. Esta nova geração promete enlouquecer-nos.
Foi também no Verão que descobri que a bebé detesta a cor amarela arrancando toda a roupa dessa família que eu lhe vestisse: canário, torrado e tal. Tudo puxado como se lhe queimasse a pele. Não sabia que era possível já ter um gosto assim apurado tão cedo. A minha mulher-a-dias não acreditava e armou-se em campeã, estilo: “comigo ela veste o amarelo e não refila.” Porém, só faltou sair do quarto com um braço ao peito, tal foi a barulheira que se ouviu. Lá concluiu: “Nossa, essa minina já sabe bem o que quer!”.
Às vezes, quando vou a conduzir e a levo atrás sinto choverem-me objectos e lembro-me dos Gremelins transformados numa sala de cinema a atirarem com pipocas e copos de coca-cola, tudo num caos tremendo orquestrado por gargalhadinhas sinistras. É a evolução: não se pode ser um bebé deliciosamente lindo e tranquilo para sempre. Agora, assistimos ao despertar da fera.
Durante o Verão, a bebé passeou o seu balde e pá pela areia molhada, entrou corajosamente nas ondas e mostrou que é de fibra e viciada em água. Fico orgulhosa com esta sua apetência aquática dado que eu também assim era como testemunham as minhas fotos de nadadora precoce.
O seu delírio maior foram os animais que conheceu e os quais, a partir de agora, já é capaz de identificar quando os vê em livros e desenhos animados ou filmes. Animais como as ovelhas, vacas, porcos, galinhas, golfinhos, focas, leões-marinhos, macacos, iguanas e saguins, dando esta lista também uma ideia das férias dela, do campo à praia nada faltou.
Como não podia deixar de ser, eu e o pai dela trouxemos de Espanha o seu novo guarda-roupa de Inverno, tal como no ano passado. Isto por a aldeia do meu sogro ser a 10 minutos da fronteira. Tenho que reconhecer que os espanhóis adoram crianças e sabem tratá-las como autênticas princesas. Têm uma loja imperdível, a “Nanos”. Mas mesmo as mais acessíveis são belíssimas nas peças das suas colecções que não se vêem por cá. O preço anda ela por ela é mesmo uma questão de bom gosto.
E assim envaideço e dou cabo da minha filha que já escolhe, grita e exige. Gostava de a educar o melhor possível e emociono-me muitíssimo quando ela me chama querida. Estamos em pleno processo de educação e, até eles serem maiores há que dobrá-los mas... tudo com muito carinho.