quarta-feira, 27 de maio de 2009

Os brilharetes da bebé

Aos dois anos e três meses a bebé é um amor a crescer e a surpreender com as suas fabulosas tiradas. Recentemente fomos a uma médica alergologista para tirar a limpo as alergias da Constança. Hum… parece-me que é a primeira vez que escrevo o nome dela talvez por a começar a ver mais como uma menina e menos como uma bebé.
Assim que entrou disse à médica: “Doutora, a Constança tem tosse.” E eu e a médica entreolhámo-nos espantadas e divertidas. “Muito bem! Mas que comunicativa!”, terá incentivado. E, depois, venho a saber por quem tal estudou que, nesta idade, este tipo de frases revelam uma criança sobredotada. Fiquei babada, claro.
O dom da Constança é justamente o da linguagem. Expressa-se com imensa nitidez, fala e dialoga quando a maior parte dos miúdos da turminha dela poucas palavras dizem ou limitam-se a emitir sons como o pobre Tyler de quem nunca ouvi uma palavra. Tem uma enorme facilidade de aprendizagem e é incrível como absorve tudo o que ouve e vê. Por exemplo, há coisas que ela sabe que eu nem sequer sabia que ela já sabia. E não me refiro a canções no infantário. Mas noções mais profundas que lhe ficaram alfinetadas na memória desde bebezinha. Por exemplo, uma destas noites brincava com ela na cama e chamava-lhe meu amor, és o grande e único amor da mamã e essas coisas que nós dizemos quando adoramos os rebentos. E vai a bebé, olha para mim e diz-me: “Não mamã. O amor grande da mamã é o papá Manel.” Escusado será dizer que não sabia se felicitá-la ou ignorar o comentário mas lá acabei por fazer o errado e fingir de conta que nada ouvira. O que foi injusto porque desde bebé, sempre que a embalava lhe dizia: “A mamã tem dois amores. O papá é o grande e tu o pequenino.” E sinceramente estes brilharetes da Constança deixam-se estarrecida. Como é que ela se vai lembrar de uma resposta destas?
Por exemplo, séries e desenhos animados. Identifica o nome de todas as personagens e bonecos de que gosta. Memoriza os diálogos e repete-os quando visiona os mesmos filmes, rindo-se ou não, conforme a situação, mas senhora do seu texto, qual actriz de nariz empinado… Só vendo é que dá para acreditar. Faz-me lembrar a memória brutal do meu pai que, desde poema épicos aos diálogos do Ribeirinho e Vasco Santana, nada lhe escapava.
Fascina-me toda a destreza mental e facilidade de aprendizagem da bebé e não consigo deixar de estar super orgulhosa com a minha petite Mme de Staël. Embora os salões há muito tenham desaparecido espero que ela encontre sempre interlocutores à sua altura e tenha uma felicidade que graças a Deus é e será comum às mentes fortes e criativas.
Por isso, paciência. Lá vou ter de enfrentar os seus piores inimigos – pó, ácaro e pólen, de acordo com os testes da especialista – e afastá-la de cães e gatos, sacrificar os meus adorados tapetes persas, almofadas e todas as coisas inúteis que também se têm em casa para vivermos num ambiente minimalista mas saudável para a bebé.
A Constança também gosta de pintar – partilhamos um caderno de aguarelas – e adora ajudar-me na nossa colecção de bonecas. Já as distingue e alegra-se por as poder lavar e vestir juntamente com a mamã. Escolhe a cor dos sapatos e não gosta de ver nenhuma despida porque, segundo ela, têm frio.
Já fez tentativas de maquilhagem e assaltos (ainda que sem segundas intenções) ao meu quarto de roupa. Basicamente adora esconder-se entre as peças.
E como seria de esperar já começa a expressar-se também em inglês uma vez que o infantário é bilingue: Good Morning Friends foi a primeira frase que aprendeu. Já canta Happy Birthday To You e despede-se com um alegre bye-bye. Entre outras coisas que eu vou descobrindo.
Gosta de cantar e de dançar. Já distingue esquerda e direita. Sei lá. É o máximo esta criança mas quando lhe chamo geniozinho repreende-me: Não, mamã. Constança bebé querido e mais lindo do Mundo.” Oh, my God!!!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Da cegueira

No outro dia estava a ver um filme que até achei piada. Chamava-se “Salsa e Diamantes”. Às tantas – e esta é uma cena insignificante no enredo do filme – está a família à mesa, a almoçar, mãe, pai, miúdo e avô. Rebenta uma discussão e o pai dá uma estalada à mãe e levanta-se da mesa. Depois dirige-se para a porta e ela vai atrás dele a suplicar-lhe para ficar. O miúdo será educado pela mãe e avô até partir rumo ao seu destino. Mas o que interessa salientar é que mesmo depois de agredida por uma cena menor – o miúdo queria ou não comer já não me recordo em detalhe – a mãe vai atrás do agressor e pede-lhe: “Não te vás embora.”
Outra situação: há poucas semanas interessei-me por um transplante facial pioneiro numa mulher cuja cara tinha sido rebentada à caçadeira pelo marido “acidentalmente”. Ele está preso mas ama-a e considera que a desgraçada está muito bonita. Quer voltar para ela. A mulher que também é mãe dos filhos dele está pronta a perdoá-lo e a recebe-lo de volta.
Nestes dois casos apresentados parece conclusivo numa primeira leitura que ambos os homens, maridos e pais são umas bestas inclassificáveis dignos do maior desprezo. No entanto, as vítimas maiores são as que os perdoam e aceitam de volta. Todos nós podemos ter a nossa opinião sobre a matéria mas a delas é que vai vigorar. Parece-me estranho e altamente misterioso que o coração – tal como Pascal apurou – tenha razões que a própria razão desconhece…
Mães… abram os olhos!!!!