quarta-feira, 22 de julho de 2009

O Espelho de Margarida

“Um espelho nunca mente, fiel como ninguém”, pensou a princesa Margarida, mirando-se de alto a baixo. Ganhou então coragem e perguntou em bicos de pés e num fio de voz: “Espelho meu, espelho meu, diz-me tu se a solidão faz o amor ver melhor na escuridão?”. Ao que o espelho respondeu: “Quando o visado não se olha a si próprio e não se revê nos gestos que tem e nas palavras que diz falta-me o poder de o elucidar. O meu reflexo, nesses casos, é apenas vaidade.”
A princesa Margarida não desarmou e insistiu: “Espelho meu, espelho meu, diz-me tu onde estão os braços dele e os meus passos para onde vão?”. Ao que o espelho, de prontíssima resposta proferiu: “Pequena princesa… suspiras por braços que nunca te abraçaram e se o fizeram foi numa mediocridade afectiva e no mais falso dos ambientes. Porque anseias por uns braços assim, quando as tuas lindas pernas podem trilhar caminhos inicialmente penosos mas levar-te-ão à PAZ merecida? Acredita nos teus passos. Hoje vacilantes, amanhã linda e segura. Não tenhas medo de arriscar. O que assusta é a estagnação. É ficar por medo do desconhecido.”
Afastando uma lágrima por a resposta não ter sido do seu agrado, a princesa confessou: “Espelho meu, espelho meu, mas sinto-me como um barco vazio, pelas margens do rio. Não há anjo mais triste e o meu canto é breve e cansado. Queria que alguém me levasse mas dorme o meu pequeno mundo.”
“Trata e guarda o que é teu afinal”, respondeu-lhe o espelho e prosseguiu: “Em ti, vive a arte de ser parte de um mundo melhor. Sobe ao cimo de ti e no alto rasga as voltas que des-te. Fica em silêncio e paz.”
“Pois é… mas por amor vejo agora a minha vida meio perdida neste beco sem saída… Apetece-me soltar as feras e fazer magia, desapertar os sentidos e ser Deus por um dia”, desejou para si própria.
Depois, apanhou o cabelo louro, viu o reflexo dos seus olhos verde-esmeralda e voltou a questioná-lo: “Espelho meu, espelho meu, de que me adianta ter agora os olhos bem abertos? Deixa-me vazia e só. Ironias. Não gosto de viajar sem saber para onde vou. Ir sem bagagem, nem direcção. Sair sem destino.”
O espelho tossiu incomodado: “Mas tu, princesa Margarida, sabes de cor o melhor e o pior, sabes mais do que querias. Não me ponhas a adivinhar. Não digas que o louco sou eu. És senhora do tempo sem fim. Minha jóia de luz, oiço só o que disseres e diz tudo o que quiseres. Só para te distraíres eu faço dançar a lua.”
A princesa soltou um risinho e inclinou a cabeça para trás numa eterna coqueterie feminina. Uma brisa despenteou-a, ágil, e os seus olhos brilharam de vida, acendidos: “Espelho meu, espelho meu, na verdade tu és a soma de tudo, claridade, o outro lado das coisas que não entendo. Chega mais ao pé de mim e repete por favor as palavras que me faltam, diz-me assim: há sempre lugares onde o céu é de todas as cores e o mar é como o fizeres.”
“Digo-te que tenho visto castelos, princesas, muralhas de papelão, dúvidas, certezas, deuses sem coração. Ganha quem souber calar, ganha quem souber esquecer. Esquece a dor que agora sentes que ela há-de passar e essas feridas abertas do amor também hão-de sarar.”
A princesa olhou para o seu reflexo muito séria e repreendeu-o: “Vasculhaste os meus segredos e eu deixei sem reservas ou pudor. Agora, lava de mim todas as sombras do medo, sombras que andam pelo ar em segredo. Quem atrás dos panos se esconde afinal? Floresta de enganos, meu vaso de cristal, já cansei de fugir, de tentar me enganar, volto sempre, sempre aqui, ao fundo de mim… É como se fosse uma força estranha, um canto frio de sereia chamando do fundo do mar. Guarda o que resta de mim… junto ao peito.”
E o espelho viu-a, leve, senhora do vagar dela, livre de partir ou de ficar. Serena como a noite. E soube que um dia seria resgatada. Mas não lho disse e seguiu apenas os gestos dela de LUZ.

Adoro a voz de PAULO GONZO. É máscula e viril, sofrida e sentida, bêbeda e louca, mágica e sedutora, numa palavra diria, POESIA. Bem haja por a partilhar com todos nós.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Casa de Mulheres


Já há muito tempo que as respostas de uma entrevistada não me faziam sorrir numa velada cumplicidade. Por isso, transcrevo os parágrafos que mais me tocaram:

“Quando se parte para um casamento, parte-se para um projecto de vida e para a vida. Foi assim que encarei o meu casamento e, quando as coisas não correm como nós queremos, toda a nossa vida fica em causa e nós próprios ficamos em causa. Existiu, nesse momento, um balanço enorme que foi preciso fazer e decidir se a vida deveria continuar naqueles moldes ou se era possível viver uma vida diferente, mais fácil, mais inteligente e mais bonita. Foi esse o trabalho que fiz, grande parte dentro do casamento, até chegar aqui. Sinto que cresci muito. Acho que consegui fazer uma mudança inteligente na minha vida. Hoje as coisas estão arrumadas, o tsunami passou.”

“Quando de repente uma vida deixa de ser a três e ficamos duas, eu e a Joana, o nível de responsabilidade é muito maior, porque ao meu lado está uma pessoa que tenho de ajudar a crescer estruturada e forte. Nesse momento, olhei para mim e percebi que era a única responsável pela casa, pelo carro, pelo emprego, pela minha filha e perguntei-me se seria capaz. A verdade é que estou a ser, e de uma forma muito tranquila, desatando muito nós que tinha para desatar e reerguendo-me.”

“É uma casa de mulheres, uma república feminina garantidamente muito divertida e muito bem habitada.”

“Obviamente que quando acabamos uma relação é na perspectiva de se ser mais feliz do que se era nessa relação.”

“Foi para ser feliz que me dei ao trabalho de me divorciar. É isso que mais quero: ser feliz com a minha filha. Só quero continuar o meu caminho e, um dia destes, virar a esquina e encontrar o que me falta.”

As respostas são da jornalista Ana Lourenço à revista Caras nº726, edição 11 de Julho 2009

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Summer School


Durante este mês, o infantário da Constança transforma-se numa animada Summer School. Assim, ontem, iniciaram todo um percurso de refrescantes actividades com uma ida ao teatro “Tom and Hulk”, no Jardim Botânico, em Lisboa, seguida de um alegre pic-nic. Hoje, vai à praia e, pela primeira vez, entrou no infantário a cantar alegremente! Já ontem – devido ao melodioso percurso de autocarro – não parou de cantar noite adentro: Fui ao jardim da Celeste giroflé, giroflá, fui ao jardim da Celeste giroflé, flé, flá / Lá em cima está o tiro-liro-liro, cá em baixo está o tiro-liro-ló! Juntaram-se os dois à esquina a tocar a concertina e a dançar do solidó / Na quinta do Tio Manel i-a-i-a-ô há vaquinhas a granel, etc…
Eu própria tive de refrescar as minhas memórias para a poder acompanhar nas cantorias a que ela é muito chegada como admitiu o pai, orgulhoso da veia lírica do rebento. E amanhã a bebé vai estrear-se num atelier de pintura.
Alguns amigos meus acham estranho que continue a designá-la por bebé. Mas a Constança com os seus dois anos e, a fazer em breve os dois e meio, ainda é muito bebezinha mesmo. E só apetece enche-la de mimos, beijos, presentes e surpresas a toda a hora.
Para a semana, o relvado da escola vai estar repleto de pequenas piscinas para a malta pequena chapinhar e brincar e têm planeada uma visita a uma quinta pedagógica, muitos jogos tradicionais, mais idas à praia e ateliers de várias técnicas, incluindo modelagem em barro. Também durante este mês irão ao Museu do Brinquedo e ao Jardim Zoológico, à Baía dos Golfinhos.
Para a Constança, o infantário adquiriu um novo brilho. Deixou de ser uma “prisão” para passar a ser algo espectacular, repleto de surpresas e animação!!! À noite dorme que nem uma pedra… E eu descanso também.
Não há nada mais encantador na vida do que assistir ao espectacular desabrochar de um ser humano. Cada dia é mais uma pétala que rebenta, uma frase nova que surge, uma vitória no conseguir sozinha, um avanço e uma progressão velozes. Como me sinto privilegiada por assistir na primeira bancada à one-child-show que é a minha filha.
Ontem, por exemplo, falei ao telefone com alguém que ela não via desde muito bebé e a Constança identificou perfeitamente a interlocutora e expressou-se de forma perfeita. Fiquei arrepiada… Assombrada… Às vezes, não parece deste mundo.
Sei bem que todos os pais enaltecem os seus filhos, muitas vezes, até, imerecidamente mas fazem-no por ignorância. No entanto, esta criança fala por si e só quem a vê pode presenciar e sentir uma alegria tamanha.
No fundo, as crianças são e serão sempre a nossa esperança para um mundo melhor. Como pequenas sementes, se forem bem tratadas irão crescer e fazer a diferença. Por isso, os grandes pensadores tiveram sempre uma mensagem sobre elas para nós, os adultos, meditarmos. Aqui ficam algumas:

“Deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino dos céus” Jesus Cristo

“O melhor do mundo são as crianças” Fernando Pessoa

“As crianças não têm passado, nem futuro, e coisa que nunca nos acontece, gozam o presente” Jean de La Bruyère

“Não há crianças ilegítimas – só pais ilegítimos” Léon R. Yankwich

“O correr das águas, a passagem das nuvens, a brincadeira das crianças, o sangue nas veias. Esta é a música de Deus” Hermann Hesse

“A melhor maneira de tornar as crianças boas é fazê-las felizes” Oscar Wilde

“As crianças têm mais necessidade de modelos do que de críticas” Joseph Joubert

“Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que NADA justifica tal sofrimento” Albert Camus

“De todos os presentes da Natureza para a raça humana o que é mais doce do que as crianças?” Ernest Hemingway

“As crianças são o ornamento da vida neste mundo” Textos Islâmicos

“Crianças mortas mundo que escreve mal por linhas tortas” Carlos Seabra

“Os escritos são a descendência da alma assim como as crianças o são do corpo” Clemente Alexandria

“A RUA é a mãe de muitas crianças, o LIXO é o berço de muitos bebés, a nossa indiferença é o INFANTICÍDIO” David Saleeby