“Um espelho nunca mente, fiel como ninguém”, pensou a princesa Margarida, mirando-se de alto a baixo. Ganhou então coragem e perguntou em bicos de pés e num fio de voz: “Espelho meu, espelho meu, diz-me tu se a solidão faz o amor ver melhor na escuridão?”. Ao que o espelho respondeu: “Quando o visado não se olha a si próprio e não se revê nos gestos que tem e nas palavras que diz falta-me o poder de o elucidar. O meu reflexo, nesses casos, é apenas vaidade.”
A princesa Margarida não desarmou e insistiu: “Espelho meu, espelho meu, diz-me tu onde estão os braços dele e os meus passos para onde vão?”. Ao que o espelho, de prontíssima resposta proferiu: “Pequena princesa… suspiras por braços que nunca te abraçaram e se o fizeram foi numa mediocridade afectiva e no mais falso dos ambientes. Porque anseias por uns braços assim, quando as tuas lindas pernas podem trilhar caminhos inicialmente penosos mas levar-te-ão à PAZ merecida? Acredita nos teus passos. Hoje vacilantes, amanhã linda e segura. Não tenhas medo de arriscar. O que assusta é a estagnação. É ficar por medo do desconhecido.”
Afastando uma lágrima por a resposta não ter sido do seu agrado, a princesa confessou: “Espelho meu, espelho meu, mas sinto-me como um barco vazio, pelas margens do rio. Não há anjo mais triste e o meu canto é breve e cansado. Queria que alguém me levasse mas dorme o meu pequeno mundo.”
“Trata e guarda o que é teu afinal”, respondeu-lhe o espelho e prosseguiu: “Em ti, vive a arte de ser parte de um mundo melhor. Sobe ao cimo de ti e no alto rasga as voltas que des-te. Fica em silêncio e paz.”
“Pois é… mas por amor vejo agora a minha vida meio perdida neste beco sem saída… Apetece-me soltar as feras e fazer magia, desapertar os sentidos e ser Deus por um dia”, desejou para si própria.
Depois, apanhou o cabelo louro, viu o reflexo dos seus olhos verde-esmeralda e voltou a questioná-lo: “Espelho meu, espelho meu, de que me adianta ter agora os olhos bem abertos? Deixa-me vazia e só. Ironias. Não gosto de viajar sem saber para onde vou. Ir sem bagagem, nem direcção. Sair sem destino.”
O espelho tossiu incomodado: “Mas tu, princesa Margarida, sabes de cor o melhor e o pior, sabes mais do que querias. Não me ponhas a adivinhar. Não digas que o louco sou eu. És senhora do tempo sem fim. Minha jóia de luz, oiço só o que disseres e diz tudo o que quiseres. Só para te distraíres eu faço dançar a lua.”
A princesa soltou um risinho e inclinou a cabeça para trás numa eterna coqueterie feminina. Uma brisa despenteou-a, ágil, e os seus olhos brilharam de vida, acendidos: “Espelho meu, espelho meu, na verdade tu és a soma de tudo, claridade, o outro lado das coisas que não entendo. Chega mais ao pé de mim e repete por favor as palavras que me faltam, diz-me assim: há sempre lugares onde o céu é de todas as cores e o mar é como o fizeres.”
“Digo-te que tenho visto castelos, princesas, muralhas de papelão, dúvidas, certezas, deuses sem coração. Ganha quem souber calar, ganha quem souber esquecer. Esquece a dor que agora sentes que ela há-de passar e essas feridas abertas do amor também hão-de sarar.”
A princesa olhou para o seu reflexo muito séria e repreendeu-o: “Vasculhaste os meus segredos e eu deixei sem reservas ou pudor. Agora, lava de mim todas as sombras do medo, sombras que andam pelo ar em segredo. Quem atrás dos panos se esconde afinal? Floresta de enganos, meu vaso de cristal, já cansei de fugir, de tentar me enganar, volto sempre, sempre aqui, ao fundo de mim… É como se fosse uma força estranha, um canto frio de sereia chamando do fundo do mar. Guarda o que resta de mim… junto ao peito.”
E o espelho viu-a, leve, senhora do vagar dela, livre de partir ou de ficar. Serena como a noite. E soube que um dia seria resgatada. Mas não lho disse e seguiu apenas os gestos dela de LUZ.
Adoro a voz de PAULO GONZO. É máscula e viril, sofrida e sentida, bêbeda e louca, mágica e sedutora, numa palavra diria, POESIA. Bem haja por a partilhar com todos nós.
A princesa Margarida não desarmou e insistiu: “Espelho meu, espelho meu, diz-me tu onde estão os braços dele e os meus passos para onde vão?”. Ao que o espelho, de prontíssima resposta proferiu: “Pequena princesa… suspiras por braços que nunca te abraçaram e se o fizeram foi numa mediocridade afectiva e no mais falso dos ambientes. Porque anseias por uns braços assim, quando as tuas lindas pernas podem trilhar caminhos inicialmente penosos mas levar-te-ão à PAZ merecida? Acredita nos teus passos. Hoje vacilantes, amanhã linda e segura. Não tenhas medo de arriscar. O que assusta é a estagnação. É ficar por medo do desconhecido.”
Afastando uma lágrima por a resposta não ter sido do seu agrado, a princesa confessou: “Espelho meu, espelho meu, mas sinto-me como um barco vazio, pelas margens do rio. Não há anjo mais triste e o meu canto é breve e cansado. Queria que alguém me levasse mas dorme o meu pequeno mundo.”
“Trata e guarda o que é teu afinal”, respondeu-lhe o espelho e prosseguiu: “Em ti, vive a arte de ser parte de um mundo melhor. Sobe ao cimo de ti e no alto rasga as voltas que des-te. Fica em silêncio e paz.”
“Pois é… mas por amor vejo agora a minha vida meio perdida neste beco sem saída… Apetece-me soltar as feras e fazer magia, desapertar os sentidos e ser Deus por um dia”, desejou para si própria.
Depois, apanhou o cabelo louro, viu o reflexo dos seus olhos verde-esmeralda e voltou a questioná-lo: “Espelho meu, espelho meu, de que me adianta ter agora os olhos bem abertos? Deixa-me vazia e só. Ironias. Não gosto de viajar sem saber para onde vou. Ir sem bagagem, nem direcção. Sair sem destino.”
O espelho tossiu incomodado: “Mas tu, princesa Margarida, sabes de cor o melhor e o pior, sabes mais do que querias. Não me ponhas a adivinhar. Não digas que o louco sou eu. És senhora do tempo sem fim. Minha jóia de luz, oiço só o que disseres e diz tudo o que quiseres. Só para te distraíres eu faço dançar a lua.”
A princesa soltou um risinho e inclinou a cabeça para trás numa eterna coqueterie feminina. Uma brisa despenteou-a, ágil, e os seus olhos brilharam de vida, acendidos: “Espelho meu, espelho meu, na verdade tu és a soma de tudo, claridade, o outro lado das coisas que não entendo. Chega mais ao pé de mim e repete por favor as palavras que me faltam, diz-me assim: há sempre lugares onde o céu é de todas as cores e o mar é como o fizeres.”
“Digo-te que tenho visto castelos, princesas, muralhas de papelão, dúvidas, certezas, deuses sem coração. Ganha quem souber calar, ganha quem souber esquecer. Esquece a dor que agora sentes que ela há-de passar e essas feridas abertas do amor também hão-de sarar.”
A princesa olhou para o seu reflexo muito séria e repreendeu-o: “Vasculhaste os meus segredos e eu deixei sem reservas ou pudor. Agora, lava de mim todas as sombras do medo, sombras que andam pelo ar em segredo. Quem atrás dos panos se esconde afinal? Floresta de enganos, meu vaso de cristal, já cansei de fugir, de tentar me enganar, volto sempre, sempre aqui, ao fundo de mim… É como se fosse uma força estranha, um canto frio de sereia chamando do fundo do mar. Guarda o que resta de mim… junto ao peito.”
E o espelho viu-a, leve, senhora do vagar dela, livre de partir ou de ficar. Serena como a noite. E soube que um dia seria resgatada. Mas não lho disse e seguiu apenas os gestos dela de LUZ.
Adoro a voz de PAULO GONZO. É máscula e viril, sofrida e sentida, bêbeda e louca, mágica e sedutora, numa palavra diria, POESIA. Bem haja por a partilhar com todos nós.
