sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Meu pequeno dragão



Deste mês de Agosto vou recordar o teu riso feliz, a exuberância das tuas corridas, o olhar de puro êxtase com o qual brindavas a tua prima pouco mais velha do que tu. Vou guardar para sempre na memória o teu corpinho pequeno de pernas apetitosas, braços mordíveis e barriguinha saliente, tão trigueiro e lindo, movendo-se à beira-mar ou no descanso sereno na chaise-longue. Vou lembrar-me de me banhar contigo no meu colo, de percorremos a praia de mão dada, da tua alegria aos saltos nas piscinas de areia que fiz para ti. Sempre que estiver triste pensarei nas tuas gargalhadas enquanto perseguias a Bi e fingias ser um dragão ou na forma implacável como saltavas para cima dela só para lhe cravar um beijo, tu que és tão beijoqueira e dada aos saltos e pulos de toda a espécie.
Quando a angústia me bater à porta vou evocar as tuas perguntas tão maravilhosas e inocentes como tu: “Mamã, quando encontrarmos o Mickey posso brincar às escondidas com ele?”. Ou a tua lógica desarmante: “Tu gostas de cenouras. És um cavalinho.”
E se todos os meus gestos diários ao longo do ano são para ti, os deste mês marcam-me mais por serem bem tranquilos, polvilhados de sol, salpicados de água e embalados pela tua felicidade. Gosto de te ver crescer. Todas as tuas frases. A tua educação que já começa a ser polida. Os teus medos que me fazem sorrir secretamente… medo do Edgar que leva os gatinhos, medo do sapo que assusta a Marie, medo de dragões mas como tu os imaginas, isto é, sem os associares aos dragões mitológicos, o que é o máximo. E neste terror, em particular, associas-te, sem saber, aos antigos cartógrafos que quando exploravam os territórios e chegavam a zonas dúbias que temiam, ao invés de se aventurarem, apenas escreviam nos seus mapas: daqui para diante há dragões. É engraçado como o teu medo faz parte deste pavor secular e inconsciente.
Como me posso esquecer dos teus gritinhos ao entrares nos quartos minúsculos do Convento dos Capuchos, em Sintra? Divisões à tua medida, de dois anos e meio. E a expressão radiante da Bi quando descobriu as moedas na fonte do pátio: “Madrinha, é verdade o que tu disseste! Estão moedas lá dentro! A sério que não as podes ver? De verdade que só nós, as crianças, as podemos ver? Tu não as vês, pois não? Pois não?”.
Não há nada neste mundo que pague um momento destes. São retalhos de magia, bocados cintilantes a iluminarem um mundo sombrio e feio. E é por isso que não deveria ser difícil fazer as crianças felizes. Só por impaciência ou maldade nos podemos esquecer de dar o melhor a quem o merece.
Vocês irão crescer e tudo irá mudar. As pessoas partem, adoecem e morrem. E o que fica é um punhado de recordações. Não sei se no futuro, quando vocês forem mais crescidas, ainda sentirão a loucura desmedida que nutrem agora uma pela outra. No fundo, espero que sim e que sejam sempre boas amigas e primas amorosas.
A mamã teve azar e a prima preferida dela morreu tragicamente no Verão de 1979. É uma data difícil de esquecer. Ficaram outras primas mas os episódios da minha infância que ainda hoje me fazem rir e chorar foram ao lado da Mafaldinha. Talvez um dia te possa contar uma ou outra peripécia. Mas agora o palco é teu. A mamã já teve a sua infância dourada e agora a vez é tua, meu amor pequenino.
Desejo fazer-te o mais feliz possível e, quando o meu dia começa com essa vozinha ensonada a dizer bom dia, mamã sei que estamos no bom caminho. Eu e tu. Mosqueteiras para a vida.

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