quinta-feira, 28 de outubro de 2010

42 minutos




Há pessoas para as quais estacionamos não umas horas, mas, dias, semanas, meses, ou até mesmo, anos. Estacionamos, isto é, paramos com a nossa vida e reformulamo-la em função de uma simpática coexistência. Ou de uma coexistência que desejamos simpática. A nossa personalidade lima aqui e acolá, cedemos um ponto e outro, toleramos, aceitamos e exigimos porque também damos. A vida a dois é feita de cedências, sabemos. Assistimos à partida de alguns amigos que provocam ciúme e torcemos o nariz às amigas que suspeitamos terem sido algo mais do que isso. Tudo se modifica na fusão a dois. Habituamo-nos. Aprendemos novos horários, rotinas e afazeres. Surgem novas obrigações e deveres a par com algumas compensações. Sentimos saudades da liberdade perdida. Nauseamos com a vida controlada, as justificações para os pequenos atrasos ou as demoras daquilo que de nós é esperado. Sofremos. Em silêncio, recolhemos lágrimas amargas por nada correr como sonhámos ou planeámos um dia. Culpamo-nos. A nós e ao outro. Acusamos, discutimos, guerreamos. Tudo é intenso e os dias passam a ser escarlates. Esses dias que passam a semanas e a meses e a anos. Tornamo-nos a dor e o cansaço. A exaustão. Perdemos a paciência, o desejo, a quimera. Somos um anjo partido. Fragmentado. Deixamos de acreditar. Vemo-nos no espelho da insegurança do outro. Alimentamo-nos de mentiras, traições e insultos. A capacidade de limite do ser humano é tão extraordinária quanto única. Os mais racionais encontrarão sempre uma justificação mesmo quando ela não existe, mesmo quando nos dizem ah estás a tapar o sol com uma peneira. Tudo se tapa, encobre, esconde. Principalmente, a desilusão. Porque ao assumirmos algo tão dramático e intenso estamos a um passo do falhanço. E isso é algo que desde pequeninos somos educados a evitar. Temos de vencer sempre, ficar por cima, dos fracos não reza a História…

A nossa imobilidade torna-se invisível. Mais do que um espírito que paira numa casa é a casa que paira em nós, que nos absorve, que exige o nosso sangue. Tudo tem de estar impecável. Mesmo que nós já não habitemos ali. O que se deita na nossa cama é o medo e o cansaço. Do que nos dizem… do que nos fazem… da tortura de vivermos uma farsa. Somos uma second life quando devíamos ser a única life and… wife. E, um dia, salta-nos a tampa e exigimos a verdade. Mesmo que essa verdade seja o fim de algo e o princípio de outra coisa qualquer. É preciso coragem para viver. Para todos os dias nos levantarmos e cuidarmos do que é nosso afinal. Os filhos.

Tropeço em pais e mães divorciados todos os dias. Hoje é coisa banal. Não é algo que encoraje ou apoie. Acredito que quando se ama tudo é possível. Até mesmo o perdão. Sobretudo o perdão. As mulheres tendem a perdoar e os homens – alguns – a repetirem os erros. Os homens também perdoam e as mulheres – algumas – voltam a decepcionar. Anda meio mundo desencantado com outro meio mundo. E desencontrado. Mas para todos os que acreditam neles próprios e no valor deles enquanto seres humanos há sempre uma luz ao fundo do túnel.

Acredito que a pior dor é sobrevivermos aos nossos filhos. Nunca vi desespero maior do que o daqueles pais que assistem impotentes à morte de um filho menor, seja por acidente ou doença. Os amores? Vão e vêm. O trabalho? Pode ser melhor ou pior. A doença fatal não tem volta a dar.

E pode ser que um dia, no meio de uma rotina de doidos, se encontre um ser humano que nos olhe de uma forma absolutamente singular. Alguém que nos oiça, para o qual mais do que visíveis sejamos vistosas, alguém que nos atropele as palavras e nos suspenda os gestos e que nos sussurre numa doce impaciência: “Já estás aqui há quarenta e dois minutos.” Alguém que nos apresse a viver, a amar, a não desperdiçar os preciosos minutos, dias, semanas, meses, ou até mesmo, anos, da nossa existência.

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