De todas as princesas Disney, aquela que sempre menos me inspirou foi a Pochaontas. Por nada em particular… Achava o desenho dela demasiado estilizado. Depois, no Grande Livro das Princesas – uma obra espectacular com ilustrações lindas de morrer de uma Sara Ruano – li para a Constança a estória desta princesa índia. E aí, sim, a minha opinião mudou por completo e rendi-me aos encantos da verdadeira índia norte-americana, filha de um chefe tribal.
E para completar a minha formação no assunto de forma decisiva vi “The New World” (2005) com o Colin Farrell a fazer de John Smith e a Q’orianka Kilcher a interpretar a Pochaontas.
O que mais me comoveu foi a paixão e o deslumbramento da princesa índia pelo mundo colonial britânico. E a transformação dela para o integrar. A aprendizagem da língua e dos costumes. Dos gestos: desde os da beleza diária aos de pura diplomacia. A Pochaontas no final seria aprovadíssima pela Bobone em toda a sua etiqueta. Viajou até Londres e foi recebida pela rainha. O máximo. Mas depois morreu porque terá apanhado um vírus qualquer e os índios não eram vacinados. Suspeito que qualquer pessoa saudável morreria na Londres de outrora, basta ver os filmes de época, estilo Oliver Twist, para ficarmos cheios de tosse e comichão. E esta jovem até era bem anterior, séc. XVI, para sermos exactos.
Temos, então, uma princesa índia que era, obviamente, muito bela e vivia em comunhão com a Mãe Natureza, falando com os espíritos e dotada de uma inteligência e sensibilidade invulgares. Um dia, impede o pai de decapitar o capitão John Smith, pelo qual, se irá apaixonar. Salvar-lhe-á a vida uma segunda vez, avisando-o de uma cilada. Em troca, o belo capitão dá-lhe todo o seu amor. Tornam-se amantes. No filme, onde abundam frases belas e inesquecíveis, a Princesa dir-lhe-á: “Estás em mim. Corres nas minhas veias. Como um rio.”
A princesa abraça um mundo novo e diferente porque é o mundo do homem que ama. Ela quer ser linda aos olhos dele, de acordo com os padrões de beleza aí cultivados. São as cedências dos amantes, o limar de arestas para que tudo corra na perfeição. Mas… John Smith quer desbravar o mundo e descobrir Índias e afins, consagrar-se na cartografia. Como tal, um belo dia desaparece e pede a um amigo para, volvidos dois meses, comunicar a morte dele à princesa.
A dor. O desgosto da perda. A loucura. Século XVI ou século XXI é tudo igual… O mesmo desatino perante o fim do amor, acrescido do sofrimento por o julgar morto. No filme, a aia britânica da princesa incita-a com uma frase maravilhosa: “Tu és uma árvore. Às vezes, há ramos que se quebram mas mesmo danificadas, vê como elas não morrem. Continuam a crescer em direcção à luz, ao sol. Não deixes que um desgosto te roube a alegria da vida.”
E a princesa de mártir louca passa a ser uma sombra silenciosa mas… bela. Um dia, o dono de uma plantação de tabaco apaixona-se por ela e pede-a em casamento. Pochaontas passa a ser Rebecca Rolfe, já fala inglês fluentemente e dá à luz – ela que quase sucumbira nas trevas – um lindo rapaz, Tomás Rolfe.
O testemunho político de Pochaontas na altura foi aproveitado para demonstrar como os índios não eram assim tão selvagens. Ela era a prova viva. Fora “civilizada”. Por isso, ficou famosa. Mais importante do que isso: ficou um mito.
No filme, o marido que a adorava proporciona-lhe um encontro em Londres com Smith. É um jogo perigoso e arriscado. Mas ele decide combater a ilusão da cabeça dela e expulsar o rival de uma vez por todas. Podia ter falhado. A chama podia ter-se reacendido que isto do amor é muito complicado. Mas a princesa fala com o homem que lhe despedaçara o coração e percebe que o verdadeiro amor é aquele que está à espera dela – sem saber se ela regressará ou não – e que cuida do filho de ambos. Rebecca, ex-Pochaontas, desprezada como carga excessiva pelo capitão Smith, pergunta-lhe com um sorriso deslumbrante: “Encontraste as Índias, John?”. Perante a negativa, encoraja-o: “Mas hás-de encontrar.” E não se deixa enternecer com frases do género “Julgava que o que tínhamos vivido nos bosques era um sonho mas agora sei que é a minha única realidade”. Azar, Smith… A vida continua.


Sem comentários:
Enviar um comentário