sexta-feira, 18 de abril de 2008

Mamã, mamã

“Mamã, mamã/ Onde estás tu mamã? / Nós sem ti não sabemos, mamã / libertar-nos do mal.” Embora a bebé nunca tenha ouvido a Canção de Lisboa ela entoa alegremente a palavra MAMÃ, a sua primeira palavra, o que muito naturalmente me enche de ORGULHO.
Quando é que a bebé diz mamã? Sempre que me vê, é certo, em alturas de grande aflição, também, quando lhe faço mimos e, se pensar bem, em momentos incertos, vários vezes ao dia, quase em tom de campanha eleitoral: Mamã, mamã, mamã. Assim, repetidas vezes como se eu fosse a votos. É um amor este bebé.
Aos catorze meses, para além de mamã, diz também algo que soa a “já está” e quanto a reportório falado ficamos por aqui.
Tem a boca cheia de dentes como refere, babada, a minha mulher-a-dias e baby-sitter involuntária. À frente, atrás, é um delírio de dentição. E quando ri mostra aqueles dentinhos doces e brancos, tão pequeninos, dentes de leite que um dia uma fada virá reclamar.
Quando olho para a bebé e me derreto penso que se eu sou o mundo dela ela é o meu. Respiro nela, alimento-me nela, rejuvenesço nela e nesses mergulhos totais faço por esquecer a angústia que é saber que em breve não terei mais o meu pai.
Ontem massajei-lhe as pernas que já acusam muita dormência e inventei uma série de exercícios. Ele disse-me que eu podia ser uma boa fisioterapeuta e, nesse momento, estava contente. Depois, chegou um cadeirão, daqueles com comando e mil posições. Esteve lá sentado pouco mais de meia hora. Queixou-se de dores e voltou para a cama/cela. Depois, com as lágrimas nos olhos confidenciou-me: “Só hoje tive a certeza de que estou um farrapo humano, um verdadeiro trapo e que vou ser assim para o resto da minha vida que espero seja curta.” Repreendi-o como se faz a uma criança. Disse-lhe que não o queria ouvir falar assim mas também eu já tinha a voz embargada e tive de sair do quarto com a desculpa de ir buscar água.
Para o meu pai, o tempo é vagaroso e custa muito a passar. Está sempre a olhar para o relógio. Desconfia dos dias. Acha que o enganamos. Para ficar mais tranquilo deixei-lhe na mesa-de-cabeceira o seu querido Borda d’Água, uma velha publicação que sempre comprou e apreciou. Acho que vai passar a marcar os dias com uma esferográfica.
Custa-me muito vê-lo assim, como uma candeia que todos os dias se apaga um pouco mais. Lamento a minha mãe que tanto se esforça por minimizar-lhe a dor e que emagrece de desgosto. Às vezes, o meu pai é agressivo com ela e faz mais birras. Penso que é uma questão de proximidade.
O olhar do meu pai é uma novidade para mim. É alegre e triste ao mesmo tempo. Ausente e presente. É um olhar novo que veio com a doença. Tudo começou com uma dor, dor essa que nunca mais o abandonou e que só quando está na posição de deitado o deixa mais em paz. Ele também já me disse que percebeu que essa dor nunca mais o iria largar. Se essa dor tivesse forma eu dava-lhe dois sopapos.
Como tudo na vida aquilo que mais nos magoa é o que não conseguimos ver mas só sentir. Estilo o filme de terror clássico: nada se vê, todo o horror se depreende, invade-nos o calafrio, percorre-nos o arrepio na nuca mas não está ali nada. Aborrece-me que o medo não tenha cara para lhe cuspir em cima.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Um raio de luz



Foi assim de repente, de repente como tudo acontece. Havia sido diagnosticado há já vários anos um cancro na próstata ao meu pai. Em consequência foi seguido, medicado e os níveis de PSA sempre vigiados. Os médicos diziam que um homem na idade do meu pai podia morrer de muita coisa mas não do cancro em si. O meu pai tem 86 anos e inúmeras vezes – para seu desagrado – era tomado por meu avô. Casou tarde com uma brasa vinte anos mais nova. E nascemos três, sendo eu a primogénita e única menina.
Não suporto que me digam que o meu pai já viveu muito. Uma avó de uma amiga minha tem 93 anos e ainda anda aí para as curvas. Para além disso sabemos que idade nunca foi critério para morrer. E não existe ninguém neste mundo que em seu perfeito juízo deseje morrer. Mais: apesar de sabermos que toda a vida é uma espécie de presente envenenado porque a morte nos espera não imaginamos que a nossa seja uma realidade inevitável. Isto é, não imaginamos o pesadelo que é ser um paciente com uma doença terminal preso a uma cama. Preferimos pensar que o nosso momento será rápido e indolor.
Os amigos não sabem o que fazer ou dizer. Muitos não querem atrapalhar. Outros têm os seus próprios medos. A verdade é que a conversa da morte não é um tema interessante. Ela torna-se a palavra proibida da própria vida e esquecemos esse assunto para podermos seguir em frente e achar que tudo vale a pena. E vale. Porque se aproveitarmos a vida, se a vivermos em pleno partimos de papo cheio e tranquilizamos os que ficam, os nossos queridos, aqueles que irão sofrer e chorar a perda.
Intimida a morte. Na universidade fiz uma tese intitulada “Sexo, Sida e Morte”. Quando a finalizei a minha sensibilidade era tal que chorava por tudo e por nada e a minha mãe teve de se impor e não me deixar contactar com mais doentes.
Hoje, o doente moribundo é a pessoa que mais me vai custar perder. Aquela que eu dava a própria vida para não ver partir. Nada me vale o meu posicionamento aberto ao longo dos anos, o da aceitação da ordem natural das coisas, o existencialismo que tanto me apaixonou, todas as ideias e credos. Na verdade, estou apavorada. O medo da morte tomou-me de assalto e eu adorava ser mexicana para pensar de um modo diferente mas não tenho o sangue sul-americano que faz do dia dos mortos uma festa memorável.
Na minha cultura a morte é tabu. É o fim absoluto. Não se fazem oferendas de açúcar. Chora-se e esquece-se. Por isso, os nossos cemitérios estão vazios de vivos e os jazigos abandonados…
Recomecei a rezar há uns quatro anos atrás quando o meu pai foi internado com um edema da glota e a minha mãe apareceu vinda de um corredor hospitalar com toda a roupa dele e pertences num saco de plástico. Supliquei a Deus para não o levar. E o meu pai salvou-se. Mas hoje é diferente. Sei que não há oração que o traga de volta e já o tenho como uma espécie de clone do que era. Porém, não me consigo revoltar contra Deus. Pelo contrário. Desde que recomecei a falar com Ele que lhe agradeço todos os dias as inúmeras graças que me concede: pais maravilhosos, uma vida boa, saúde, criatividade e tudo o mais que tenho. Em especial, não me canso de lhe agradecer ter-me dado um marido que, apesar de já termos passado por vários e graves problemas é um homem que eu amo muito, me apoia e é super carinhoso. Sem ele, creio que já tinha endoidado de vez. E através dele eu tive a bebé, o meu amor que me sustém. Por eles convenço-me de que não posso ir abaixo e desistir. E pela minha mãe também.
E assim, a bebé e o meu pai são o Alfa e o Ômega. O princípio e o fim. Quando ajudo a minha mãe a trocar a fralda do meu pai, quando tento que o meu pai coma a sopa de legumes triturada que lhe dou lentamente com uma colher, quando o limpamos com toalhetes e o beijamos muito muito eu penso que é tudo igual ao que eu faço com a bebé. Surpreende-me este ciclo onde tudo termina como começa completando a famosa roda da vida de que as pessoas dadas à espiritualidade tanto falam.
Sempre que estou com o meu pai faço-o rir e brinco com ele. Soam-me duras as palavras da médica: “O seu pai tem menos de um mês de vida.” Ela é fria porque já perdeu ambos os pais com cancro. Diz as coisas mesmo assim: “Ele está a fazer uma compressão medular e vai ficar paralisado da cintura para baixo”, ou “um edema pulmonar era o melhor que lhe podia acontecer.” Às vezes, apetece-me dar-lhe um tiro...
Só Deus sabe o tempo que o meu pai tem. Só Deus. E por isso eu agora rezo diferente e peço só para que não o faça sofrer e ele reencontre os nossos no céu porque o meu pai detesta estar sozinho e desde criança tem medo do escuro.
Esse meu pai que está acamado e cheio de dores, que já delirou com morfina e se queixou de sentir que estava partido pela espinha hoje despediu-se de mim assim: “Eu sei, querida, que agora tens a tua casa, o teu marido e a tua filha mas sempre que me vens visitar é um raio de luz que entra nesta casa.” E eu que nunca choro à frente do meu pai quase quebrei. Guardei as minhas lágrimas para a noite e pensei que também eu tinha a minha luzinha, a única neta que o meu pai ainda viu e que quando o visita é um anjo irrequieto à cabeceira dele mas fá-lo feliz.