terça-feira, 8 de abril de 2008

Um raio de luz



Foi assim de repente, de repente como tudo acontece. Havia sido diagnosticado há já vários anos um cancro na próstata ao meu pai. Em consequência foi seguido, medicado e os níveis de PSA sempre vigiados. Os médicos diziam que um homem na idade do meu pai podia morrer de muita coisa mas não do cancro em si. O meu pai tem 86 anos e inúmeras vezes – para seu desagrado – era tomado por meu avô. Casou tarde com uma brasa vinte anos mais nova. E nascemos três, sendo eu a primogénita e única menina.
Não suporto que me digam que o meu pai já viveu muito. Uma avó de uma amiga minha tem 93 anos e ainda anda aí para as curvas. Para além disso sabemos que idade nunca foi critério para morrer. E não existe ninguém neste mundo que em seu perfeito juízo deseje morrer. Mais: apesar de sabermos que toda a vida é uma espécie de presente envenenado porque a morte nos espera não imaginamos que a nossa seja uma realidade inevitável. Isto é, não imaginamos o pesadelo que é ser um paciente com uma doença terminal preso a uma cama. Preferimos pensar que o nosso momento será rápido e indolor.
Os amigos não sabem o que fazer ou dizer. Muitos não querem atrapalhar. Outros têm os seus próprios medos. A verdade é que a conversa da morte não é um tema interessante. Ela torna-se a palavra proibida da própria vida e esquecemos esse assunto para podermos seguir em frente e achar que tudo vale a pena. E vale. Porque se aproveitarmos a vida, se a vivermos em pleno partimos de papo cheio e tranquilizamos os que ficam, os nossos queridos, aqueles que irão sofrer e chorar a perda.
Intimida a morte. Na universidade fiz uma tese intitulada “Sexo, Sida e Morte”. Quando a finalizei a minha sensibilidade era tal que chorava por tudo e por nada e a minha mãe teve de se impor e não me deixar contactar com mais doentes.
Hoje, o doente moribundo é a pessoa que mais me vai custar perder. Aquela que eu dava a própria vida para não ver partir. Nada me vale o meu posicionamento aberto ao longo dos anos, o da aceitação da ordem natural das coisas, o existencialismo que tanto me apaixonou, todas as ideias e credos. Na verdade, estou apavorada. O medo da morte tomou-me de assalto e eu adorava ser mexicana para pensar de um modo diferente mas não tenho o sangue sul-americano que faz do dia dos mortos uma festa memorável.
Na minha cultura a morte é tabu. É o fim absoluto. Não se fazem oferendas de açúcar. Chora-se e esquece-se. Por isso, os nossos cemitérios estão vazios de vivos e os jazigos abandonados…
Recomecei a rezar há uns quatro anos atrás quando o meu pai foi internado com um edema da glota e a minha mãe apareceu vinda de um corredor hospitalar com toda a roupa dele e pertences num saco de plástico. Supliquei a Deus para não o levar. E o meu pai salvou-se. Mas hoje é diferente. Sei que não há oração que o traga de volta e já o tenho como uma espécie de clone do que era. Porém, não me consigo revoltar contra Deus. Pelo contrário. Desde que recomecei a falar com Ele que lhe agradeço todos os dias as inúmeras graças que me concede: pais maravilhosos, uma vida boa, saúde, criatividade e tudo o mais que tenho. Em especial, não me canso de lhe agradecer ter-me dado um marido que, apesar de já termos passado por vários e graves problemas é um homem que eu amo muito, me apoia e é super carinhoso. Sem ele, creio que já tinha endoidado de vez. E através dele eu tive a bebé, o meu amor que me sustém. Por eles convenço-me de que não posso ir abaixo e desistir. E pela minha mãe também.
E assim, a bebé e o meu pai são o Alfa e o Ômega. O princípio e o fim. Quando ajudo a minha mãe a trocar a fralda do meu pai, quando tento que o meu pai coma a sopa de legumes triturada que lhe dou lentamente com uma colher, quando o limpamos com toalhetes e o beijamos muito muito eu penso que é tudo igual ao que eu faço com a bebé. Surpreende-me este ciclo onde tudo termina como começa completando a famosa roda da vida de que as pessoas dadas à espiritualidade tanto falam.
Sempre que estou com o meu pai faço-o rir e brinco com ele. Soam-me duras as palavras da médica: “O seu pai tem menos de um mês de vida.” Ela é fria porque já perdeu ambos os pais com cancro. Diz as coisas mesmo assim: “Ele está a fazer uma compressão medular e vai ficar paralisado da cintura para baixo”, ou “um edema pulmonar era o melhor que lhe podia acontecer.” Às vezes, apetece-me dar-lhe um tiro...
Só Deus sabe o tempo que o meu pai tem. Só Deus. E por isso eu agora rezo diferente e peço só para que não o faça sofrer e ele reencontre os nossos no céu porque o meu pai detesta estar sozinho e desde criança tem medo do escuro.
Esse meu pai que está acamado e cheio de dores, que já delirou com morfina e se queixou de sentir que estava partido pela espinha hoje despediu-se de mim assim: “Eu sei, querida, que agora tens a tua casa, o teu marido e a tua filha mas sempre que me vens visitar é um raio de luz que entra nesta casa.” E eu que nunca choro à frente do meu pai quase quebrei. Guardei as minhas lágrimas para a noite e pensei que também eu tinha a minha luzinha, a única neta que o meu pai ainda viu e que quando o visita é um anjo irrequieto à cabeceira dele mas fá-lo feliz.

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