Foi assim de repente, de repente como tudo acontece. Havia sido diagnosticado há já vários anos um cancro na próstata ao meu pai. Em consequência foi seguido, medicado e os níveis de PSA sempre vigiados. Os médicos diziam que um homem na idade do meu pai podia morrer de muita coisa mas não do cancro em si. O meu pai tem 86 anos e inúmeras vezes – para seu desagrado – era tomado por meu avô. Casou tarde com uma brasa vinte anos mais nova. E nascemos três, sendo eu a primogénita e única menina.
Não suporto que me digam que o meu pai já viveu muito. Uma avó de uma amiga minha tem 93 anos e ainda anda aí para as curvas. Para além disso sabemos que idade nunca foi critério para morrer. E não existe ninguém neste mundo que em seu perfeito juízo deseje morrer. Mais: apesar de sabermos que toda a vida é uma espécie de presente envenenado porque a morte nos espera não imaginamos que a nossa seja uma realidade inevitável. Isto é, não imaginamos o pesadelo que é ser um paciente com uma doença terminal preso a uma cama. Preferimos pensar que o nosso momento será rápido e indolor.
Os amigos não sabem o que fazer ou dizer. Muitos não querem atrapalhar. Outros têm os seus próprios medos. A verdade é que a conversa da morte não é um tema interessante. Ela torna-se a palavra proibida da própria vida e esquecemos esse assunto para podermos seguir em frente e achar que tudo vale a pena. E vale. Porque se aproveitarmos a vida, se a vivermos em pleno partimos de papo cheio e tranquilizamos os que ficam, os nossos queridos, aqueles que irão sofrer e chorar a perda.
Intimida a morte. Na universidade fiz uma tese intitulada “Sexo, Sida e Morte”. Quando a finalizei a minha sensibilidade era tal que chorava por tudo e por nada e a minha mãe teve de se impor e não me deixar contactar com mais doentes.
Hoje, o doente moribundo é a pessoa que mais me vai custar perder. Aquela que eu dava a própria vida para não ver partir. Nada me vale o meu posicionamento aberto ao longo dos anos, o da aceitação da ordem natural das coisas, o existencialismo que tanto me apaixonou, todas as ideias e credos. Na verdade, estou apavorada. O medo da morte tomou-me de assalto e eu adorava ser mexicana para pensar de um modo diferente mas não tenho o sangue sul-americano que faz do dia dos mortos uma festa memorável.
Na minha cultura a morte é tabu. É o fim absoluto. Não se fazem oferendas de açúcar. Chora-se e esquece-se. Por isso, os nossos cemitérios estão vazios de vivos e os jazigos abandonados…
Recomecei a rezar há uns quatro anos atrás quando o meu pai foi internado com um edema da glota e a minha mãe apareceu vinda de um corredor hospitalar com toda a roupa dele e pertences num saco de plástico. Supliquei a Deus para não o levar. E o meu pai salvou-se. Mas hoje é diferente. Sei que não há oração que o traga de volta e já o tenho como uma espécie de clone do que era. Porém, não me consigo revoltar contra Deus. Pelo contrário. Desde que recomecei a falar com Ele que lhe agradeço todos os dias as inúmeras graças que me concede: pais maravilhosos, uma vida boa, saúde, criatividade e tudo o mais que tenho. Em especial, não me canso de lhe agradecer ter-me dado um marido que, apesar de já termos passado por vários e graves problemas é um homem que eu amo muito, me apoia e é super carinhoso. Sem ele, creio que já tinha endoidado de vez. E através dele eu tive a bebé, o meu amor que me sustém. Por eles convenço-me de que não posso ir abaixo e desistir. E pela minha mãe também.
E assim, a bebé e o meu pai são o Alfa e o Ômega. O princípio e o fim. Quando ajudo a minha mãe a trocar a fralda do meu pai, quando tento que o meu pai coma a sopa de legumes triturada que lhe dou lentamente com uma colher, quando o limpamos com toalhetes e o beijamos muito muito eu penso que é tudo igual ao que eu faço com a bebé. Surpreende-me este ciclo onde tudo termina como começa completando a famosa roda da vida de que as pessoas dadas à espiritualidade tanto falam.
Sempre que estou com o meu pai faço-o rir e brinco com ele. Soam-me duras as palavras da médica: “O seu pai tem menos de um mês de vida.” Ela é fria porque já perdeu ambos os pais com cancro. Diz as coisas mesmo assim: “Ele está a fazer uma compressão medular e vai ficar paralisado da cintura para baixo”, ou “um edema pulmonar era o melhor que lhe podia acontecer.” Às vezes, apetece-me dar-lhe um tiro...
Só Deus sabe o tempo que o meu pai tem. Só Deus. E por isso eu agora rezo diferente e peço só para que não o faça sofrer e ele reencontre os nossos no céu porque o meu pai detesta estar sozinho e desde criança tem medo do escuro.
Esse meu pai que está acamado e cheio de dores, que já delirou com morfina e se queixou de sentir que estava partido pela espinha hoje despediu-se de mim assim: “Eu sei, querida, que agora tens a tua casa, o teu marido e a tua filha mas sempre que me vens visitar é um raio de luz que entra nesta casa.” E eu que nunca choro à frente do meu pai quase quebrei. Guardei as minhas lágrimas para a noite e pensei que também eu tinha a minha luzinha, a única neta que o meu pai ainda viu e que quando o visita é um anjo irrequieto à cabeceira dele mas fá-lo feliz.

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