“Mamã, mamã/ Onde estás tu mamã? / Nós sem ti não sabemos, mamã / libertar-nos do mal.” Embora a bebé nunca tenha ouvido a Canção de Lisboa ela entoa alegremente a palavra MAMÃ, a sua primeira palavra, o que muito naturalmente me enche de ORGULHO.
Quando é que a bebé diz mamã? Sempre que me vê, é certo, em alturas de grande aflição, também, quando lhe faço mimos e, se pensar bem, em momentos incertos, vários vezes ao dia, quase em tom de campanha eleitoral: Mamã, mamã, mamã. Assim, repetidas vezes como se eu fosse a votos. É um amor este bebé.
Aos catorze meses, para além de mamã, diz também algo que soa a “já está” e quanto a reportório falado ficamos por aqui.
Tem a boca cheia de dentes como refere, babada, a minha mulher-a-dias e baby-sitter involuntária. À frente, atrás, é um delírio de dentição. E quando ri mostra aqueles dentinhos doces e brancos, tão pequeninos, dentes de leite que um dia uma fada virá reclamar.
Quando olho para a bebé e me derreto penso que se eu sou o mundo dela ela é o meu. Respiro nela, alimento-me nela, rejuvenesço nela e nesses mergulhos totais faço por esquecer a angústia que é saber que em breve não terei mais o meu pai.
Ontem massajei-lhe as pernas que já acusam muita dormência e inventei uma série de exercícios. Ele disse-me que eu podia ser uma boa fisioterapeuta e, nesse momento, estava contente. Depois, chegou um cadeirão, daqueles com comando e mil posições. Esteve lá sentado pouco mais de meia hora. Queixou-se de dores e voltou para a cama/cela. Depois, com as lágrimas nos olhos confidenciou-me: “Só hoje tive a certeza de que estou um farrapo humano, um verdadeiro trapo e que vou ser assim para o resto da minha vida que espero seja curta.” Repreendi-o como se faz a uma criança. Disse-lhe que não o queria ouvir falar assim mas também eu já tinha a voz embargada e tive de sair do quarto com a desculpa de ir buscar água.
Para o meu pai, o tempo é vagaroso e custa muito a passar. Está sempre a olhar para o relógio. Desconfia dos dias. Acha que o enganamos. Para ficar mais tranquilo deixei-lhe na mesa-de-cabeceira o seu querido Borda d’Água, uma velha publicação que sempre comprou e apreciou. Acho que vai passar a marcar os dias com uma esferográfica.
Custa-me muito vê-lo assim, como uma candeia que todos os dias se apaga um pouco mais. Lamento a minha mãe que tanto se esforça por minimizar-lhe a dor e que emagrece de desgosto. Às vezes, o meu pai é agressivo com ela e faz mais birras. Penso que é uma questão de proximidade.
O olhar do meu pai é uma novidade para mim. É alegre e triste ao mesmo tempo. Ausente e presente. É um olhar novo que veio com a doença. Tudo começou com uma dor, dor essa que nunca mais o abandonou e que só quando está na posição de deitado o deixa mais em paz. Ele também já me disse que percebeu que essa dor nunca mais o iria largar. Se essa dor tivesse forma eu dava-lhe dois sopapos.
Como tudo na vida aquilo que mais nos magoa é o que não conseguimos ver mas só sentir. Estilo o filme de terror clássico: nada se vê, todo o horror se depreende, invade-nos o calafrio, percorre-nos o arrepio na nuca mas não está ali nada. Aborrece-me que o medo não tenha cara para lhe cuspir em cima.
Quando é que a bebé diz mamã? Sempre que me vê, é certo, em alturas de grande aflição, também, quando lhe faço mimos e, se pensar bem, em momentos incertos, vários vezes ao dia, quase em tom de campanha eleitoral: Mamã, mamã, mamã. Assim, repetidas vezes como se eu fosse a votos. É um amor este bebé.
Aos catorze meses, para além de mamã, diz também algo que soa a “já está” e quanto a reportório falado ficamos por aqui.
Tem a boca cheia de dentes como refere, babada, a minha mulher-a-dias e baby-sitter involuntária. À frente, atrás, é um delírio de dentição. E quando ri mostra aqueles dentinhos doces e brancos, tão pequeninos, dentes de leite que um dia uma fada virá reclamar.
Quando olho para a bebé e me derreto penso que se eu sou o mundo dela ela é o meu. Respiro nela, alimento-me nela, rejuvenesço nela e nesses mergulhos totais faço por esquecer a angústia que é saber que em breve não terei mais o meu pai.
Ontem massajei-lhe as pernas que já acusam muita dormência e inventei uma série de exercícios. Ele disse-me que eu podia ser uma boa fisioterapeuta e, nesse momento, estava contente. Depois, chegou um cadeirão, daqueles com comando e mil posições. Esteve lá sentado pouco mais de meia hora. Queixou-se de dores e voltou para a cama/cela. Depois, com as lágrimas nos olhos confidenciou-me: “Só hoje tive a certeza de que estou um farrapo humano, um verdadeiro trapo e que vou ser assim para o resto da minha vida que espero seja curta.” Repreendi-o como se faz a uma criança. Disse-lhe que não o queria ouvir falar assim mas também eu já tinha a voz embargada e tive de sair do quarto com a desculpa de ir buscar água.
Para o meu pai, o tempo é vagaroso e custa muito a passar. Está sempre a olhar para o relógio. Desconfia dos dias. Acha que o enganamos. Para ficar mais tranquilo deixei-lhe na mesa-de-cabeceira o seu querido Borda d’Água, uma velha publicação que sempre comprou e apreciou. Acho que vai passar a marcar os dias com uma esferográfica.
Custa-me muito vê-lo assim, como uma candeia que todos os dias se apaga um pouco mais. Lamento a minha mãe que tanto se esforça por minimizar-lhe a dor e que emagrece de desgosto. Às vezes, o meu pai é agressivo com ela e faz mais birras. Penso que é uma questão de proximidade.
O olhar do meu pai é uma novidade para mim. É alegre e triste ao mesmo tempo. Ausente e presente. É um olhar novo que veio com a doença. Tudo começou com uma dor, dor essa que nunca mais o abandonou e que só quando está na posição de deitado o deixa mais em paz. Ele também já me disse que percebeu que essa dor nunca mais o iria largar. Se essa dor tivesse forma eu dava-lhe dois sopapos.
Como tudo na vida aquilo que mais nos magoa é o que não conseguimos ver mas só sentir. Estilo o filme de terror clássico: nada se vê, todo o horror se depreende, invade-nos o calafrio, percorre-nos o arrepio na nuca mas não está ali nada. Aborrece-me que o medo não tenha cara para lhe cuspir em cima.

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