terça-feira, 20 de outubro de 2009

Conta-me outra vez

- Conta-me, outra vez, como é que eu nasci, mamã – pediu, sentada na sua cadeira, num restaurante que a atormentava por ser tão exíguo.


Carlota suspirou resignada. Ainda bem que não se podia fumar ali dentro. Há anos que lutava contra aquele vício sem sucesso. Apenas deixara de fumar quando engravidara mas todos os dias pensava desistir. Talvez um dia conseguisse.

Barrou a tosta com manteiga de laranja e sorriu para a filha:

- Um belo dia, eu e o teu papá fomos lanchar a Belém e ver uma exposição de antiguidades. De acordo com o teu pai, sempre que íamos a um local de doces típicos tínhamos de ingerir uns tantos porque nunca saberíamos quando voltaríamos a esse sítio novamente.

- O papá era guloso…

- Não o vamos classificar, querida. Caso contrário, nunca mais apanho o fio à história.

- Está bem. Continua.

- Nessa tarde, comi bastantes pastéis. O próprio empregado de mesa estava surpreendido com a nossa alarvidade. E depois quando fomos ver as velharias senti-me bem disposta, embora tenha percorrido longos corredores. Quando me deitei, à noite, doíam-me as pernas. Foi então que os pastéis começaram a dançar na minha barriga já ocupadíssima por ti.

- Adoro essa parte! Eles empilhavam-se e distribuíam-se e depois voltavam a empilhar-se e tu, coitada, às voltas na cama, agarrada à tua barriga!

- Sim, querida. Come esta tosta. Na verdade, a dança dos pastéis quase que podia ser visualizada porque as formas deles recortavam-se na minha pele esticada, como naqueles filmes em que os extraterrestres estão dentro de ti.

- Ai, que nojo! – exclamou, deleitada.

- Ultimamente dizes muito isso. Vocês só aprendem o que não devem. Enfim. Os pastéis começaram a imaginar que estavam de volta à sua antiga casa e, como tal, viviam um frenesim indescritível.

- E o papá dormia?

- Ainda não. Mas já tinha apagado a luz. Foi então que tu começaste a ficar muito zangada por te terem acordado. Executaste uma cambalhota perfeita e ficaste de pés, muito juntinhos, a apontar para baixo, antevendo a saída possível.

- E tu ouviste-me falar…

- Claro! Ouvi-te dizer muito claramente: “Mamã, ou os pastéis ou eu, mas aqui dentro não há espaço para todos.”

- E o papá ouviu?

- Não querida. Ele nunca te sentiu dentro da minha barriga. Foi uma gravidez muito unilateral.

- Estou a ver – disse, com ar entendido.

- Não tive tempo de te responder porque, como sabes, és muito rápida. Antes que pudesse dizer ou fazer algo sou abalada por um violento tremor, seguido de uma explosão de nata caramelizada. E, quando me consegui erguer, vi um bebé lindo, muito pequenino, nascido antes do tempo mas perfeitinho. Esse bebé tinha ficado de barriga para cima, a esfregar a nata da cara, como as lontras do Oceanário gostam de se posicionar. Sorriu para mim e piscou-me o olho. Nesse momento, nasceu um brilhante no céu que não tem nada a ver com as estrelas mas que, de alguma maneira difícil de explicar, está ligado ao teu nascimento.

- É por isso que as lontras me fixam tanto…

- Não sei querida. Só te posso dizer que, desde que nasceste és um autêntico doce e que muitas vezes tenho de me controlar para não te comer com beijinhos.

- Oh, Mamã! És tão querida!

- Tu é que és.

- E tu também.

- Pronto. Somos as duas.

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