quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Mais um parto

Não te assustes bebé... Não tens nenhum irmão a caminho. Respira fundo e dá-me os parabéns, assim como tu fazes, a esticar os braços para mim e a distribuir-me beijos na boca. A mamã acaba de parir mais um livro, o seu terceiro romance publicado. Os contos também circulam mas um romance é um filho e um conto um estado de alma. Sei que vou escrever muito sobre ti, bebé, quer gostes ou não. Mas nada temas. Não com a impudência de uma Allende. Amo-te muito filha minha e talvez um dia nós possamos ter uma editora nossa. Como a Woolf. Talvez o bicho das letras esteja em ti também. Vamos esperar para ver se o meu bebé é uma plumazinha como a mamã!!! És a minha maior alegria e serás sempre.


«Let’s start a publishing house
to hell with small literature
we want something redblooded
lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene
but really clean
get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious
something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet
graced with guts and gutted
with grace»
squeeze your nuts and open your face
[e.e. cummings, no thanks, 1935, adaptado por Diogo Madre Deus]

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Café de maldosos

A bebé adoeceu e ficou uma semana a Brufen e Zyrtec comigo a aspirar-lhe a ranhoca num boca/ nariz que só os pais modernos sabem, uns tubinhos revolucionários que nos lixam a garganta mas aliviam imenso os bebés. É, alías, a única forma de os assoarmos e quem teve essa idéia está de parabéns. No meio da doença da bebé - o meu irmão acha sempre um exagero que a designe assim mas uma constipação num bebé tão tenro é uma doença chata sim senhor - apanha-me a porta da varanda aberta e zás! escorrega no chão acabado de lavar e bate com a carinha na pedra do parapeito. Reultado: um olho negro de efeito quase imediato, embora no dia seguinte fosse bem mais penoso olhar para a cara daquele anjinho....
Enfim, feito o mal tenta-se salvar a coisa o melhor possível e vai logo de pôr thrombocid e tal. Ao terceiro dia e porque também estava aparentemente melhor da doença/constipação fui com ela ao centro comercial ao lado da minha casa e a dois cafés. Fui olhada com muitissima desconfiança. Por quem me conhecia e desconhecia. Expliquei perante as perguntas do "Oh, coitadinha! O que aconteceu à bebé?" que ela era traquina e tinha caído na varanda porque escorregara. E a prova da traquinice é que já andava a falar com uns e outros pelas mesas e a esconder-se atrás dos estores. Quando a repreendi e a chamei para perto de mim olharam-me de novo daquela maneira. Como se olha quando não se acredita. E eu senti-me uma forasteira numa terra de gente estranha. Senti que duvidavam da minha explicação e que na cabeça deles deviam estar a pensar: "Pois... bateram-lhe e agora andas para aí a dizer que ela caiu. És tu e a PJ cá do sítio." Porra e não gostei. E o bom de ter um blogue é que aqui posso mandar todas aquelas pessoas maldosas À MERDA!!!!! A minha filha caiu sim e acidentes acontecem DE VERDADE!!!!!!!!!!!!!!!

Tenho medo da caminha...

A bebé está quase a fazer dois anos. O tempo passa tão célere como me recorda o desvairado ponteiro dos segundos do novo relógio da cozinha. Até dá azia olhar para aquela frenética agulha... Ainda ontem a bebé me mirava em silêncio e hoje é uma perseguidora feroz de todos os meus passos e gestos. Agarra-me na mão e puxa-me, quer-me ali e acolá, não posso sair sem a sua autorização ou esquivar-me para um cigarro discreto... É uma pequena melga. Claro que é amorosa e querida e eu também acho o máximo ela adorar-me assim e tal mas quando chega ao ponto de eu não poder estar a tomar um duche porque ela me puxa a cortina da banheira e berra COLINHO a plenos pulmões... começa a ser SUFOCANTE.
E, se durante o dia a bebé é uma exigência permanente à noite tornou-se outra. Desde um fim-de-semana fora de portas em que partilhámos a mesma cama nunca mais abdicou da doce sensação do quente da mamã. Isto aliado ao facto de numa das suas birras ter SALTADO a cama de grades e aterrado num lindo chão de madeira... Resultado: o medo da caminha...
Já tentei tudo: explicar-lhe que a cama não tem nada de assustador mas que não deve praticar saltos acrobáticos por cima de edredons a fazerem de trampolim... Aqueço-lhe os lençóis com um saco de água quente, meto-lhe a temperatura do quarto em regime tropical e a pequena piranha nem assim lá fica. Perante os seus gritos, choro e inclusive vómitos tenho de a levar comigo e encaixá-la entre nós os dois. Não é fácil mas a bebé tornou-se uma pedinchona da cama grande ao pé da mamã e do papá e isto está a dar comigo em DOIDA.
Medos infantis... Aos dois anos é o medo de perder os pais assim rezam todos os sites da matéria. Ela para o pai está a borrifar-se mas a mamã é que não pode faltar. Ele às vezes tenta com maior ou menor sucesso SER PAI. Tem as preocupações dele e pouca paciência. As mães são abençoadas e as que ficam em casa MASSACRADAS. Muito mais se devia escrever sobre as mulheres que sacrificando mais ou menos a carreira delas se tornam FULL TIME MUMS. E nós já decidimos que até aos TRÊS ANOS não há infantário para a bebé doa a quem doer. Mas é só a mim que dói e eu espero que por causa deste meu mega esforço ela nunca me mande à merda numa fase tresloucada da adolescência. É que isto custa MUITO. E eu sinto-me SOZINHA.
Medo dos monstros é só a partir dos três anos. Ou seja, a bebé é precoce porque já foge deles por toda a casa. Excesso de desenhos animados? Claro que filtro a bonecada, eu própria já sei de cor o que interessa ou não e rio-me com as expressões dela aprendidas por lá: "Oh Céus!", "E agora o que fazemos?", "Não é justo!", "Está bem mamã", e por aí fora.
Medo do escuro nunca teve. Quer sempre as luzes todas apagadas. Depois é uma hora e meia ou duas na alegre palhaçada de saltos e cavaqueira do que aprendeu nesse dia... só então adormece, encostada a mim, a segurar-me na mão, após ter dado e recebido milhares de beijinhos... É assim a doce vida dos bebés. Agora a mãe é que tem MEDO. De não aguentar a barra. I'm loosing it, como dizem nos filmes.

For your eyes only

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
- «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...»

- «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...

Nicolau Tolentino

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Todos os Patinhos


Com a sua personalidade a delinear-se a bebé já tem também gosto musical. Existem músicas que despreza, outras que suporta e, uma em particular, que adora com paixão: a dos patinhos! Mal entra no carro começa a pedir: “patos!”, “patos!” e, assim que esta termina pedincha encores intermináveis. Ou seja, todo o percurso automobilístico passa a ter como música de fundo a brevidade de uma faixa elevada à eternidade on the road
E eu apercebo-me que deixei de ouvir música. Antes, ouvia em casa, quando escrevia ou arrumava coisas. Também escutava no ginásio ou sempre que conduzia o carro. Mas desde o dia da morte do meu pai – e já na doença dele – fui cortando com a música. É engraçado constatar isso porque, na realidade, é ainda uma forma de luto. Sinto-me demasiado inadaptada para abanar a cabeça ou cantarolar, nessa onda de boa disposição e alegria que a música nos proporciona.
Mas a bebé, alheia aos dramas da vida exige os patinhos e, a eles tem todo o direito. Sinto-me, como mãe, responsável pela felicidade da minha filha. E nada do que me possa afectar a mim deve afectá-la a ela. Separo o coração do cérebro e sigo com as nossas vidas…
Outro prazer da bebé foi a descoberta dos lápis de cor. Risca folhas brancas – porque ainda a consigo impedir de pintar as paredes cá em casa – e diverte-se com os desenhos que lhe faço e que o meu marido diz que são cópias das ilustrações dos livros dela. E daí? O que interessa é que ambas nos divertimos imenso.
Quando ela acorda fá-lo sempre com uma tremenda boa disposição. Sinceramente, acho isso fantástico. Para ela, cada dia é mais um dia de brincadeiras, onde tudo vai correr bem, terá os seus brinquedos para jogar, é inundada de beijinhos, transportada ao colo ou no seu carrinho de princesa, todos lhe ligam e sorriem e ninguém a atraiçoa ou lhe faz mal. A bebé não sofre a não ser que uma constipação lhe entupa o nariz ou uma cólica lhe faça dores de barriga. E neste mundo de bebés onde tudo é uma perfeição tecida na tranquilidade e segurança nós, os pais que vivemos no mundo real, mais cedo ou mais tarde começamos a temer que algo de sinistro trave a felicidade dos nossos filhos.
Um dia, um colega meu confessou-me que nunca iria ter filhos porque não lhes queria dar o nosso mundo louco por herança. Pensei que tal teoria não tinha qualquer fundamento, e que se todos pensássemos assim, então ninguém procriava. Porém, agora que a bebé está cá fora e faz parte da humanidade também eu me inquieto e muito. Basta ver um noticiário para termos a nossa dose de crime e violência. E se ela, um dia, for uma vítima? Quem me garante que a minha filha – que é o meu maior diamante – está a salvo da selvajaria dos assaltantes e violadores? Ou da fatalidade de um acidente de automóvel? Ou da desgraça de uma doença incurável?
Começamos a viver com estes medos e a recear a escuridão que possa vir dos outros. As pessoas boas não andam com uma estrela na testa, caso contrário seria fácil seguir o caminho certo, sem falhar nas escolhas. Porém, é neste mundo tão maravilhoso quanto cruel e sanguinário que nós vivemos. E uma vez que somos pais compete-nos a mais tremenda das tarefas: somos responsáveis pela felicidade dos nossos filhos. Temos de lhes oferecer segurança e cuidar para que nada lhes falte. Fomos nós que decidimos que eles iam nascer e somos nós que velamos por eles até à idade adulta e, quantas vezes, depois dela. Ser pai e mãe não é uma obrigação com princípio, meio e fim mas antes algo que nos transforma até à morte em anjos tutelares e que nos faz questionar se a paciência é ou não é genética :-)
Todo o ouro do mundo não paga os sacrifícios diários que os pais fazem pelos filhos para que estes possam voar mais alto e mais longe. É esse o orgulho de quem é pai ou mãe: tentar proporcionar o melhor do mundo para os seus patinhos. E assim, quando estes baterem asas e procurarem, por sua vez, nidificar, alguma coisa terão aprendido com os seus progenitores. O amor gera o amor.


Todos os Patinhos Versão I

Todos os patinhos acabam de brincar, acabam de brincar,
Os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar,
Os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar.

É que esta hora, é hora de dormir, é hora de ir dormir,
Mas ainda é tempo para uma história ouvir,
Mas ainda é tempo para uma história ouvir.

Pais, mães ou avós à cama lhes vão dar, à cama lhes vão dar
Um beijo de boa noite e a luz apagar e a luz apagar

Todos os Patinhos Versão II

Todos os patinhos
sabem bem nadar (bis)
cabeça para baixo
rabinho para o ar

Quando estão cansados
da água vão sair (bis)
depois em grande fila
p'ró ninho querem ir

Na hora da papa
todos querem comer (bis)
atrás da mamã pata
vão todos a correr











quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Onde estás?

Com pouco mais de 18 meses, a bebé já tem um vocabulário cirúrgico. As deixas mais correntes são: “onde estás?”, “luz/ escuro”, “papa”, “bebezinhos”, “bola”, “almofada”, “jardim”, “meninos”, “cão”, “gato” e por aí fora, com muitas das palavras a terminarem em inhos por acréscimo próprio. Assim, o papá ficou pai e, depois, evoluiu para paizinho. Já eu sou mamã e mãe e ponto final. Hum….
O número de birras tem acompanhado os centímetros, ou seja, está maior e mais birrenta do que nunca. É bem disposta mas quando contrariada contorce-se e grita de tal maneira que só me apetece fugir. E está a ficar egoísta como todos os filhos únicos. Tudo é dela e é impensável emprestar roupas e brinquedos seja a quem for. Às vezes, até nos tenta expulsar dos sofás ou da cama: “sai!”, exige, toda autoritária. É de uma pessoa pensar que talvez tenha criado um pequeno monstro… mas de repente sorri e dá beijos inesperados a torto e a direito e com os bracinhos envolve-nos o pescoço e deixa-nos com um xiiiii-coração que nos derrete por inteiro.
Embora rendida ao charme dela ainda guardo na memória os lamentos do meu primo neste Verão. Dizia-me ele que a filha de seis anos o tinha ameaçado: “Se não te portas bem ponho-te num lar”… Fiquei siderada com a tenra pertinácia. Esta nova geração promete enlouquecer-nos.
Foi também no Verão que descobri que a bebé detesta a cor amarela arrancando toda a roupa dessa família que eu lhe vestisse: canário, torrado e tal. Tudo puxado como se lhe queimasse a pele. Não sabia que era possível já ter um gosto assim apurado tão cedo. A minha mulher-a-dias não acreditava e armou-se em campeã, estilo: “comigo ela veste o amarelo e não refila.” Porém, só faltou sair do quarto com um braço ao peito, tal foi a barulheira que se ouviu. Lá concluiu: “Nossa, essa minina já sabe bem o que quer!”.
Às vezes, quando vou a conduzir e a levo atrás sinto choverem-me objectos e lembro-me dos Gremelins transformados numa sala de cinema a atirarem com pipocas e copos de coca-cola, tudo num caos tremendo orquestrado por gargalhadinhas sinistras. É a evolução: não se pode ser um bebé deliciosamente lindo e tranquilo para sempre. Agora, assistimos ao despertar da fera.
Durante o Verão, a bebé passeou o seu balde e pá pela areia molhada, entrou corajosamente nas ondas e mostrou que é de fibra e viciada em água. Fico orgulhosa com esta sua apetência aquática dado que eu também assim era como testemunham as minhas fotos de nadadora precoce.
O seu delírio maior foram os animais que conheceu e os quais, a partir de agora, já é capaz de identificar quando os vê em livros e desenhos animados ou filmes. Animais como as ovelhas, vacas, porcos, galinhas, golfinhos, focas, leões-marinhos, macacos, iguanas e saguins, dando esta lista também uma ideia das férias dela, do campo à praia nada faltou.
Como não podia deixar de ser, eu e o pai dela trouxemos de Espanha o seu novo guarda-roupa de Inverno, tal como no ano passado. Isto por a aldeia do meu sogro ser a 10 minutos da fronteira. Tenho que reconhecer que os espanhóis adoram crianças e sabem tratá-las como autênticas princesas. Têm uma loja imperdível, a “Nanos”. Mas mesmo as mais acessíveis são belíssimas nas peças das suas colecções que não se vêem por cá. O preço anda ela por ela é mesmo uma questão de bom gosto.
E assim envaideço e dou cabo da minha filha que já escolhe, grita e exige. Gostava de a educar o melhor possível e emociono-me muitíssimo quando ela me chama querida. Estamos em pleno processo de educação e, até eles serem maiores há que dobrá-los mas... tudo com muito carinho.




terça-feira, 6 de maio de 2008

Acabou a tua agonia, Papá



Fevereiro, Março e Abril são meses para esquecer. Vivi os dias mais negros e tristes da minha vida. No dia 29 de Abril partiste, papá. A tua dor acabou. Foi horrível ver-te em agonia e o meu único consolo é saber que já não agitas os braços numa tentativa de arrancares tubos, já não tens dificuldade em respirar, já não tens a ansiedade, a garganta seca e o desespero que te tomaram por inteiro e te asfixiaram por fim.
Partiste, papá e eu sinto-me mais só do que nunca e tão triste e com tanta dor física e um aperto mental tão grande que sempre que me lembro que não te tenho é como se sofresse choque eléctrico após choque eléctrico.
A dor é constante e a saudade eterna. Não por teres sido apenas meu pai mas por teres sido um pai meigo, querido, amigo, que gostava de dar e receber miminhos, a pessoa mais terna e doce que conheci até hoje. Dói-me mais por te ter sido predilecta e tratada com tanto amor e ternura por ti. As minhas mãos encerram os mil beijos que me deste, o meu coração é ocupado por ti, a minha memória nunca te esquecerá e eu sou quem sou graças a ti.
Gosto de te imaginar no Céu entre os nossos entes queridos que também já partiram, em particular os avós, o tio e os primos. Gosto de pensar que o teu espírito deixou este invólucro terreno e agora corre solto por dimensões alegres e boas. Dizem que é assim, que as pessoas boas quando morrem vão para o Céu. E assusta-me imaginar-te perdido ou sozinho preso num desses pesadelos horríveis que às vezes tínhamos.
Sabes, papá, nunca mais consegui sonhar contigo e isso mata-me. Eu que sonho tanto e milhares de vezes sonhei contigo agora estou bloqueada e nem aí me é permitido ver-te. Durmo abraçada à tua almofada e só assim durmo.
Eu sei que vou encontrar-te. Sempre fui óptima a descobrir-te as coisas: papéis desaparecidos, objectos perdidos, tudo o que me pedisses para encontrar na bagunça do teu escritório eu achava-te. E vou reconhecer-te no Céu e correr para os teus braços. PROMETO-TE. Sinto-te em mim, dentro deste coração que ainda bate e sei, do fundo do meu ser, que um dia, vou vasculhar esse Céu à tua procura e nem que passe por oceanos e oceanos de espíritos eu saberei quem tu és e não descansarei até te reencontrar.
Tenho recebido muitos beijos e palavras de conforto. Às vezes penso se também terás sido recebido com uma chuva de beijos. Eu sei que tiveste tanto medo mas agora quero acreditar que estás bem. Intercede por mim e pela bebé e nós oramos por ti. Um dia vamos estar juntos e tu daí, do Céu, vais ver a bebé transformar-se numa bela mulher. No dia do teu funeral, 1 de Maio, a querida deu os seus primeiros oito passos seguidos. Já deve ter sido o teu espírito a segredar-lhe para não ter medo de andar. Se calhar deste-lhe a mão e ajudaste-a e ninguém te viu.
Prometo-te papá que viverás sempre através de mim e que a única neta que chegaste a ver saberá quem foi o avô e amará e respeitará a tua memória, assim como eu amo e respeito a dos meus avós que pouco ou nada conheci.
A vida é dura e é uma graça. Disse o senhor padre na tua homília: “Ninguém pede para nascer, a vida é uma graça de Deus, um dom que Ele nos dá.” Mas também ninguém pede para morrer ou para sofrer a dor provocada pela perda de quem amamos. A vida é assim um presente envenenado. É dada mas retirada. A morte é um mistério. A vida é uma graça e a morte um mistério. Nunca gostei muito destas definições religiosas. Não sei o que é a morte mas agora tenho-lhe menos medo. Ganhou um novo atractivo: o poder abraçar-te de novo. Espera por mim, papá.