sábado, 19 de junho de 2010

José Saramago 1922-2010



Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com um olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, um fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.



In As Intermitências da Morte de José Saramago



Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltazar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir a Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Porque queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes do que estás a falar, não te olharei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.

Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto, ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.

Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos aquela hora, depois de ter acabado de comer e disse, Nunca te olharei por dentro.



In Memorial do Convento de José Saramago



Estavam nos braços um do outro, mas ainda não se beijavam, olhavam-se e sorriam muito, o rosto alegre, e depois o sorriso recolheu-se lentamente, como água que a terra estivesse sorvendo e saboreando, até que ficaram sérios os dois, fitando-se, uma rápida sombra subtil adejou pelo quarto, veio e fugiu logo, e então umas asas imensas e poderosas envolveram Maria Sara e Raimundo Silva, apertando-os como a um único corpo, e o beijo começou, tão diferente daquele que aqui se tinham dado ontem, eram as mesmas pessoas, eram outras, mas dizer isto é ter dito nada, porque ninguém sabe o que o beijo é verdadeiramente, talvez a devoração impossível, talvez uma comunhão demoníaca, talvez o princípio da morte. Não foi Raimundo Silva quem conduziu Maria Sara à cama, nem ela para ali o impeliu suavemente como distraída, ali se acharam, sentados primeiro na borda do colchão, amarrotando a colcha branca, depois ele deitou-a para trás e continuaram beijar-se, ela rodeava-lhe a nuca com os braços, o braço direito dele servia de apoio à cabeça dela, mas o esquerdo parecia hesitar, sem saber o que fazer, ou sabendo-o e não ousando, como se um final e invisível muro se houvesse interposto no último segundo, guiou-o finalmente a sábia mão, tocou a cintura de Maria Sara, desceu até à anca e foi pousar, quase sem pressão, no arredondado da coxa, para subir depois, devagar, pelo corpo acima, até ao peito, agora a memória dos dedos pôde reconhecer a macieza do tecido da blusa em que tocava pela primeira vez, a sensação foi rapidíssima e no mesmo instante diluída pela consciência tumultuosa de que sob a mão banal do homem estava o prodígio de um seio.



In História do Cerco de Lisboa de José Saramago

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Under the sea...


A minha filhota vai fazer de cavalo marinho na festa de encerramento do colégio... lindo!!!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Mother and child at the beach



Na Ficção Científica existe muito a tendência do diário, talvez porque ficcionamos no futuro, estando nós no presente e, de alguma forma, condicionados pelas memórias que são passado. Assim, muitos autores fazem as suas personagens escrever os citados diários. Dias de um calendário, tão abstractos como os números, ferramentas que a nossa mente criou na ânsia de conseguirmos ter alguma espécie de domínio sobre a natureza, em particular, a nossa.



É Março de 2006 e eu estou apaixonada. Algures nesse Verão estou deitada numa espreguiçadeira e à minha frente existe uma piscina redonda que transborda de água tépida. O homem que amo está sentado, com as pernas mergulhadas na água e fuma um cigarro. Sento-me ao lado dele. Estamos ambos queimados do sol. Pouco depois, sinto que me acaricia a barriga, desejoso de a ver cheia de vida. Em parte é por pirraça dado que existe um grupo do outro lado da piscina que o incomoda e, em outra parte, é por desejo antigo de ter um filho.

Sorrio com estas carícias mais quentes que o próprio sol. Tudo nele é luz. Os olhos parecem salpicados com o próprio pó das estrelas de tão brilhantes que são. Penso que o meu amor é um herói cósmico e envaideço-me com a beleza dele que me arrebata.

À noite dormimos a custo, sem nenhum dos dois querer fechar os olhos. Ficamos tão próximos a acariciarmo-nos, de olhos fixos e brilhantes um para o outro, com um sorriso de deslumbramento mútuo.

A paixão em estado puro é mais forte que dinamite. Tudo dentro de nós explode. Somos um rio desgovernado, lava vulcânica esparramada sobre a montanha, manteiga derretida na tosta quente. Somos fogo e água e é nessa vaga de delírio que a nossa espécie acasala e tem filhos. Não é nas quecas por pena controladas ou nas rapidinhas de alívio que os filhos nascem. Muito menos nas violações. Já não é assim. A vida só se gera quando um dos dois diz: “Hoje não vamos foder. Hoje vou fazer-te um filho” e o outro concorda.

É Setembro de 2006 e eu vou casar. O meu vestido de cetim branco veste-me a mim e a ela, à filha que se forma na minha barriga. Estou absolutamente radiante. Não caminho nas nuvens mas sou uma nuvem. Muito em baixo da minha felicidade redonda, as pessoas desejam-me votos e comentam a minha nova gordura. Estou acima de todos os comentários. Sou princesa por um dia, de tiara e vestido longo, sapatinhos maravilhosos forrados e plenos de pedraria.

É Maio de 2014 e eu sou uma mulher divorciada. A minha filha de sete anos corre desalmada à beira-mar. O seu corpo esguio e fino parece um raio de sol. Toda ela brilha e é luz e cor, manhã e vida. Meu firmamento. Olho-a envaidecida e a beleza dela arrebata-me. Tem o olhar dos sábios e o dom da palavra. Em meia dúzia de frases deixa-me estarrecida. Foi sempre assim. Lentamente, aproxima-se de mim e abraça-me. Estreito-a também e agradeço em silêncio o maravilhoso presente que ela foi, é e será.

domingo, 23 de maio de 2010

Terrível bebé...



Terrível Bebé: gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e t...udo está certo e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e tudo torna ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe na boca os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ser numano, mas é escrito por mim.


Carta de Fernando Pessoa (1888 - 1935) a Ofélia Queiróz

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Gosto da malta do Surf





Uma vez disseram-me que era uma criatura feita de sal e espuma. E eu com uma bisnaga de cola escrevi “Adoro-te” num postal, despejei-lhe areia da praia em cima, virei o dito ao contrário e lá ficaram os devidos grãos colados à declaração afectiva em jeito de resposta. A mim pessoalmente colou-se-me a praia, que é o que mais gosto nesta vida.

Não há nada melhor do que passar o dia ao sol, entre banhos, a conversar com amigos divertidos. Ou a ler. Sempre amei ler na praia. Ou beijar e adormecer com os corpos quentes entrelaçados. Ou comer bolas de Berlim que só sabem bem quando o açúcar delas se mistura com o nosso sal. Ou fazer longas caminhadas pela areia molhada. Ou tirar fotos sempre soberbas em termos de luz. Ou apreciar o próprio som da praia, o som de fundo, aquele que um dia vi ser gravado por um japonês excêntrico, de “vassoura” na mão a recolher conversas e restolhar de ondas como se fossem conchas raras.

E depois há a malta do Surf. Gente bronzeada e atlética. Miúdos giros que vestem roupas coloridas, daquelas marcas que acham o máximo e às quais fazem culto em todas as estações. Gosto da aparência quase hippy de alguns, com os cabelos descolorados e em desalinho. Embora também aprecie os morenos mais sérios, de cabelo curto. Todos com o seu fato escuro de borracha justíssimo, que vestem e despem junto de carrinhas decrépitas com matrículas estrangeiras. Dependendo das praias, a própria paleta de surfistas é bastante variável. Mas são todos giros e jovens e querem montar ondas, cavalgar a prancha e fundir-se no mar.

Se são mesmo praticantes ou apenas curtem a onda, tanto faz. A aparência deles é o máximo. E os puristas são algo loucos. Tal como no Windsurf. Casam e baptizam os rebentos no meio das pranchas e depois perdem-se em trajectos cujas correntes julgam dominar…

É gente aventureira e destemida, sabem mais do mar do que da terra. Vão a campeonatos, fazem grandes amizades, vivem paixões efémeras e, por vezes, sofrem terríveis fatalidades…

O seu apelo é também esse, o da transgressão. Seja ao fato do escritório ou às formalidades do betão. Na praia, deixamos de ser citadinos e passamos a ser todos uma espécie de criaturas feitas de sal e espuma.

E agora que o Verão está a chegar vou rever pela enésima vez o meu Point Break e curtir este espírito indomável dos meus meninos preferidos.

sábado, 15 de maio de 2010

Por favor... morde-me o pescoço


Um dia destes apanhei um táxi com a minha mãe. Trata-se de uma senhora que para indicar uma rua nomeia todas as outras até lá chegar, à medida que indica o percurso pretendido. Vê-se que tem orgulho em conhecer bem a sua cidade. E eu disse-lhe:

- Oh, mãe não baralhe o senhor. Ele vai lá ter. A mãe gosta é de mostrar que sabe o nome das avenidas todas.

- E sei! Moro aqui há muitos anos e conheço tudo isto.

- E a menina não mora? – pergunta o curioso.

- Ah, a minha filha – começa ela, que como todas as mães gostam de responder por nós como se fossemos eternas crianças – morou aqui até aos 36 anos.

Um par de olhos atónitos fixa-me através do espelho retrovisor, enquanto uma paragem algo brusca nos faz estremecer. Era um sinal luminoso mas coincidiu com a surpresa sentida pelo condutor. Tal cena fez-me rir e disse:

- Agora a mãe pôs este senhor a pensar na minha idade.

- Mas é que é isso mesmo! Como é que a menina adivinhou?

- É que eu aparento ser muito mais nova do que sou – expliquei para o tranquilizar. – Na realidade já tenho uns aninhos em cima.

E depois pensei como era aborrecido ter de dizer sempre o mesmo às pessoas: não possuía cremes mágicos, não era dada ao desporto ao ar livre, fumava como se não houvesse um amanhã, vivia sem temer a decrepidez. E a pele lá estava radiosa como um alperce, embora pálida, os olhos inquietos da juventude, o cabelo louro e sedoso, o corpo esbelto e firme sem uma amostra da temível celulite.

A mulher-a-dias, então, espiava-me os produtos todos, na ânsia de encontrar fórmula igual. E eu a esforçar-me todos os dias para parecer normal, humana e quente, com uma mãe e uma criança minha, façanha altamente elogiada dentro da minha comunidade, pois era o mesmo que ter um leitãozinho à mão mas sem o poder nunca trincar.

Telepaticamente, repreendi a minha mãe:

- Agradeço-lhe que não se estique na conversa, caso contrário, terei de o hipnotizar para ele esquecer o que viu e ouviu. E, como sabe, isso exige um grande esforço e eu durmo mal há alguns dias.

Mas a mãe queria sangue. Muito mais ávida do que eu, partia sempre numa atitude de predadora. E antes que a pudesse impedir, escravizou-o num único olhar, daqueles com os quais brinda todos os que a desafiam, ou pura e simplesmente detesta.

O desgraçado encostou o carro num beco escuro e saiu abrindo-nos a porta do meu lado e esticando-se todo para a frente com a jugular a saltar num samba de vida:

- Por favor… morda-me o pescoço – pediu, estendendo-me a mão para me ajudar a sair do carro.

Antes que pudesse exercer algum controle no meu próprio espírito, aquela visão apanhou-me em cheio e os caninos dispararam como navalhas de ponta e mola.

- Vá, banqueteia-te primeiro mas deixa algum para a mamã – ouvi, entre risinhos trocistas.

E depois do snack lá fomos às compras como combinado.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Grazie


Ti amo