Uma vez disseram-me que era uma criatura feita de sal e espuma. E eu com uma bisnaga de cola escrevi “Adoro-te” num postal, despejei-lhe areia da praia em cima, virei o dito ao contrário e lá ficaram os devidos grãos colados à declaração afectiva em jeito de resposta. A mim pessoalmente colou-se-me a praia, que é o que mais gosto nesta vida.
Não há nada melhor do que passar o dia ao sol, entre banhos, a conversar com amigos divertidos. Ou a ler. Sempre amei ler na praia. Ou beijar e adormecer com os corpos quentes entrelaçados. Ou comer bolas de Berlim que só sabem bem quando o açúcar delas se mistura com o nosso sal. Ou fazer longas caminhadas pela areia molhada. Ou tirar fotos sempre soberbas em termos de luz. Ou apreciar o próprio som da praia, o som de fundo, aquele que um dia vi ser gravado por um japonês excêntrico, de “vassoura” na mão a recolher conversas e restolhar de ondas como se fossem conchas raras.
E depois há a malta do Surf. Gente bronzeada e atlética. Miúdos giros que vestem roupas coloridas, daquelas marcas que acham o máximo e às quais fazem culto em todas as estações. Gosto da aparência quase hippy de alguns, com os cabelos descolorados e em desalinho. Embora também aprecie os morenos mais sérios, de cabelo curto. Todos com o seu fato escuro de borracha justíssimo, que vestem e despem junto de carrinhas decrépitas com matrículas estrangeiras. Dependendo das praias, a própria paleta de surfistas é bastante variável. Mas são todos giros e jovens e querem montar ondas, cavalgar a prancha e fundir-se no mar.
Se são mesmo praticantes ou apenas curtem a onda, tanto faz. A aparência deles é o máximo. E os puristas são algo loucos. Tal como no Windsurf. Casam e baptizam os rebentos no meio das pranchas e depois perdem-se em trajectos cujas correntes julgam dominar…
É gente aventureira e destemida, sabem mais do mar do que da terra. Vão a campeonatos, fazem grandes amizades, vivem paixões efémeras e, por vezes, sofrem terríveis fatalidades…
O seu apelo é também esse, o da transgressão. Seja ao fato do escritório ou às formalidades do betão. Na praia, deixamos de ser citadinos e passamos a ser todos uma espécie de criaturas feitas de sal e espuma.
E agora que o Verão está a chegar vou rever pela enésima vez o meu Point Break e curtir este espírito indomável dos meus meninos preferidos.


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