Um dia destes apanhei um táxi com a minha mãe. Trata-se de uma senhora que para indicar uma rua nomeia todas as outras até lá chegar, à medida que indica o percurso pretendido. Vê-se que tem orgulho em conhecer bem a sua cidade. E eu disse-lhe:
- Oh, mãe não baralhe o senhor. Ele vai lá ter. A mãe gosta é de mostrar que sabe o nome das avenidas todas.
- E sei! Moro aqui há muitos anos e conheço tudo isto.
- E a menina não mora? – pergunta o curioso.
- Ah, a minha filha – começa ela, que como todas as mães gostam de responder por nós como se fossemos eternas crianças – morou aqui até aos 36 anos.
Um par de olhos atónitos fixa-me através do espelho retrovisor, enquanto uma paragem algo brusca nos faz estremecer. Era um sinal luminoso mas coincidiu com a surpresa sentida pelo condutor. Tal cena fez-me rir e disse:
- Agora a mãe pôs este senhor a pensar na minha idade.
- Mas é que é isso mesmo! Como é que a menina adivinhou?
- É que eu aparento ser muito mais nova do que sou – expliquei para o tranquilizar. – Na realidade já tenho uns aninhos em cima.
E depois pensei como era aborrecido ter de dizer sempre o mesmo às pessoas: não possuía cremes mágicos, não era dada ao desporto ao ar livre, fumava como se não houvesse um amanhã, vivia sem temer a decrepidez. E a pele lá estava radiosa como um alperce, embora pálida, os olhos inquietos da juventude, o cabelo louro e sedoso, o corpo esbelto e firme sem uma amostra da temível celulite.
A mulher-a-dias, então, espiava-me os produtos todos, na ânsia de encontrar fórmula igual. E eu a esforçar-me todos os dias para parecer normal, humana e quente, com uma mãe e uma criança minha, façanha altamente elogiada dentro da minha comunidade, pois era o mesmo que ter um leitãozinho à mão mas sem o poder nunca trincar.
Telepaticamente, repreendi a minha mãe:
- Agradeço-lhe que não se estique na conversa, caso contrário, terei de o hipnotizar para ele esquecer o que viu e ouviu. E, como sabe, isso exige um grande esforço e eu durmo mal há alguns dias.
Mas a mãe queria sangue. Muito mais ávida do que eu, partia sempre numa atitude de predadora. E antes que a pudesse impedir, escravizou-o num único olhar, daqueles com os quais brinda todos os que a desafiam, ou pura e simplesmente detesta.
O desgraçado encostou o carro num beco escuro e saiu abrindo-nos a porta do meu lado e esticando-se todo para a frente com a jugular a saltar num samba de vida:
- Por favor… morda-me o pescoço – pediu, estendendo-me a mão para me ajudar a sair do carro.
Antes que pudesse exercer algum controle no meu próprio espírito, aquela visão apanhou-me em cheio e os caninos dispararam como navalhas de ponta e mola.
- Vá, banqueteia-te primeiro mas deixa algum para a mamã – ouvi, entre risinhos trocistas.
E depois do snack lá fomos às compras como combinado.


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