segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A Duquesa I







- É sempre assim?

- É como dizem: todos a adoram à excepção do duque.

- E ela é traída na própria casa? Custa-me a acreditar… Uma mulher tão bela e inteligente.

- Tudo isso lhe passa ao lado. (risos). A duquesa vive apaixonada pela filha.

- Mas será suficiente?

- Bom, meu caro, tire a duquesa da sua cabeça. Ela não está disponível para o amor.

- Nem mesmo como… vingança?

- Que ideia! Ela é superior a tudo isso. Se um dia se apaixonar, porém, quem sabe… Mas para tal acontecer teria de estar liberta para o fazer.

- Quer dizer que ela respeita a instituição mesmo depois de ter partilhado a casa com as amantes do marido? Não sofre com tais humilhações?

- É evidente que sim. E terá protestado. Com veemência, segundo sei.

- E então? Resolve-se a ficar?

- Já lhe disse: vive apaixonada pela filha. Londres inteira sabe isso.

- Mas ela é tão jovem para ser prisioneira na sua própria casa.

- A liberdade, caro amigo, só é saboreada pelas crianças nas suas inocentes corridas e brincadeiras. Nenhum adulto é inteiramente livre.

- O que lhe resta então?

- Não compreendeu? A duquesa fez uma escolha. Optou por viver uma vida ao lado da sua pequena cria e sente-se realizada.

- Não aceito essa resposta. É um absurdo! (indigna-se, subindo o tom de voz.) Uma mulher assim vive por reflexo. Projecta na criança toda a sua alma mas há um espaço vazio e, embora a entrada se encontre vedada, esse espaço existe, está nela, e é absolutamente convidativo. Irei seduzi-la.

- Caríssimo, joga com as palavras… E é exímio nisso. Porém, aviso-o de que perderá o seu tempo. O desprezo e o desdém têm o rosto de todos nós, homens. A mágoa nas mulheres é algo de misterioso e trágico. Você é bem parecido. Conheço a sua cotação no mercado (risos). Mas para a seduzir essa é a última arma a usar.

- A avaliar pelo marido sou forçado a dar-lhe razão. Mas não sou apenas isso. Saberei falar-lhe ao coração e cicatrizar todas essas feridas. Faço-lhe um filho. Uma mãe dedicada encontra a força do amor nos laços que cria.

- Lá está você a criar ciladas palavrosas. Não se esqueça de que estamos a falar de um ser verdadeiramente arguto. Topará à légua as suas intenções. Poderá até conseguir alguns sorrisos e olhares encorajadores. Mas, no momento decisivo, ela voltar-lhe-á as costas.

- Veremos. Não pretendo fazer desta minha intenção qualquer espécie de aposta. Mas sei, por experiência própria, que os males de amor curam-se com outro amor.

- Se ela o procurasse. Enfim, parece que falo chinês…

- Às vezes, encontramos algo não por que o procuremos mas porque esbarramos com.

- Você tem o ímpeto da juventude e a arrogância da beleza aliada a uma inteligência literata. Está convencido de que é fórmula infalível. Contudo, os deuses divertem-se a instalar o caos entre os mortais. Não existe desejo nesta mulher. Os olhos dela não brilham e a beleza ou a elegância dos trajes que desenha para si própria são meros jogos de entretenimento próprios de aristocratas entediados.

- Parece conhecê-la muito bem…

- Oh, sim! Claro que sim! Também fui um rato tonto, hipnotizado por um ronronar irresistível. E trucidado de forma implacável. Nunca me hei-de esquecer das palavras da duquesa: “Se eu quisesse um amante nunca me teria casado.”

- Esse casamento deve ter sido o maior desastre da vida dela. Mais força me dá, meu amigo. Nobre ou plebeia, nenhuma mulher deixou a minha cama descontente. Aliás, para a deixarem é sempre um castigo… O paraíso aninha-se nos meus braços, a ternura mora nos beijos que semeio por colunas delicadas, enquanto as minhas mãos possuem o toque do próprio êxtase. Quando dispo uma mulher mais de metade do serviço fica feito.

- Isso é para lhe poupar exercício físico? (ironizou com alguma inveja).

- De todo. Apenas sei incendiar. E a duquesa voltará a resplandecer. Dê-me tempo e verá.

- Desejo-lhe sorte.

- Não sou jogador. Sou confiante. E acredito na vulnerabilidade humana. A duquesa não é feita de aço. É tão-somente uma mulher desiludida.

E os dois homens afastaram-se, cada um seguindo o seu caminho. Um deles pensava no tremendo balde de água fria que o outro levaria ao intentar qualquer investida sentimental. O outro urdia esquemas mentais, revendo as melhores palavras para em cenário apropriado arrancar um desejado encontro secreto. Da sala contígua aquela onde se mantivera o diálogo entre ambos, um roçar de seda anunciava os passos de uma dama. Subiu uma escadaria em mármore e deixou-se cair no chão, junto à filha que brincava. A criança abraçou-a feliz e confidenciou: “Adoro-a tanto, mamã. Porque está sempre comigo e defende-me do dragão meu.”

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