sábado, 7 de novembro de 2009

O Véu Pintado



O nevoeiro também cai sobre as pessoas como um véu que oculta e cria distância. Por outro lado é fino e quando se dissipa tudo volta a ser alegremente pintado. Vem isto a propósito do filme que vi e tanto me agradou: “O Véu Pintado”, baseado no romance de W. Somerset Maugham, com a interpretação magistral de Naomi Watts e Edward Norton e a premiada e inesquecível banda sonora de Alexandre Desplat.


A acção começa na China de 1925, surpreendendo a viagem cansativa de um casal britânico: o médico Walter Fane e a sua mulher Kitty. Em registo de vários flashbacks percebemos, aos poucos, como eles foram parar àquela paisagem luxuriantemente verde. Conheceram-se em Londres, dois anos antes, numa festa em casa dela que era de família abastada. Quando Kitty desce a escadaria, o olhar de Walter já é o de um caçador decidido. A fazer jus ao nome, a jovem burguesa é uma gata mimada e dada ao conforto e afia as unhas quando a mãe dela a critica por ainda não ter casado e continuar a ser sustentada pelo pai. Furiosa, aceita casar com o bacteriologista que dirige um laboratório governamental em Xangai, apesar de não o amar. O pedido é feito numa florista, a mesma onde cinco anos mais tarde, Kitty repetirá para o filho a inutilidade de se gostar das flores. Mas ao futuro marido dirá: “Tanto empenho em algo que está condenado a morrer.” Uma frase curiosa dirigida a um médico que irá fazer todos os esforços possíveis para salvar centenas de seres humanos, também eles condenados a morrer…

Em Xangai, Kitty deixa-se seduzir por Charles Townsend, o qual num golpe de mestria simula traduzir uma ópera chinesa descrevendo os maiores temores dela enquanto jovem mulher. Charlie, que não sabe uma palavra de chinês inventa um libreto onde a heroína é uma escrava que lamenta o seu infortúnio numa terra estranha, longe dos seus e sem fuga possível. Explica-lhe que ela chora pela rapariga enérgica que foi antes e pela dor de se ter tornado uma mulher solitária mas, acima de tudo, chora pelo amor que nunca sentirá nem poderá oferecer. E aqui, cada palavra é certeira na psicologia de Kitty. Ela tornar-se-á a amante de Charlie.

Mas, numa bela tarde, o Dr. Fane vem a casa para entregar a Kitty uma encomenda do pai dela e encontra a porta do quarto trancada e ouve-os. E eles, por sua vez, vêem o puxador da porta mexer-se, antes de a pessoa se afastar. “É ele? Não é? Podia ser a amah. E se for ele, o que é que interessa? Não fará nenhum escândalo”… Assim, resolvem os amantes o tormento, regressando aos braços um do outro.

Porém, o doutor irá enfrentar a situação de outra maneira: no dia seguinte anuncia a Kitty que existe uma terra chamada Mei-Tan-Fu, situada à beira de um afluente do rio Yangtze, no interior. É lá que um surto de cólera se alastra. Fala-se mesmo da pior epidemia de sempre. E ele ofereceu-se como voluntário. Kitty não quer acreditar que ele se tenha voluntariado e indigna-se quando ele lhe anuncia que vão os dois: “Para me animar e consolar?”, ironiza o marido que se sabe traído.

Kitty é então confrontada com a verdade e Fane sugere-lhe: ou vão os dois para Mei-Tan-Fu ou ele pede o divórcio e acusa-a de adultério com Charles Townsend. A mulher reage de forma romântica e apaixonada: o amante até quer casar com ela e ambos estão cansados de tanto secretismo.

Com muita calma, Walter Fane oferece-lhe uma segunda proposta: ele dá-lhe o divórcio de forma tranquila, na condição de Dorothy Townsend se divorciar de Charlie e de este prometer que casa com Kitty.

E, como uma pomba mensageira, cheia de esperança e ilusão, a rapariga parte em busca do amante para lhe transmitir as novas. Mas Charlie tem um cargo importante, Charlie só a abraça a pedido, e Charlie quer deixar Dorothy à margem de todos os problemas… É então que Kitty ri e chora ao mesmo tempo percebendo: “Walter nunca me quis dar o divórcio. Ele sabia que tu me desiludirias.” Retorna a casa, onde o marido já dera instruções à amah para fazer as malas de ambos…

E os dois partem para o interior, numa descida ao inferno literal: à volta deles as pessoas morrem. Por dentro, ambos estão mortos. Ela sente a falta do amante. Ele debata-se com a raiva e a dor da traição. Kitty acha que o marido a pune e isola-se. Walter exclui-a do seu campo de visão.

O único vizinho vivo é o comissário interino Waddington. É a ele que Kitty pedirá o favor de enviar uma carta para Charles mas desiste com a brutal verdade que o outro lhe transmite. Sim, ele conheceu os Townsend e nunca se esqueceu de uma frase de Dorothy: “Uma vez, ouvi-a dizer que considerava muito pouco lisonjeiro o facto de haver apenas mulheres medíocres a apaixonar-se pelo marido.” É nesse instante que o amante é esquecido. E Kitty sente-se ainda mais só.

Paralelamente, Walter Fane estuda a água e comprova uma contaminação geral no poço e rio. As medidas que sugere insurgem os aldeões já insatisfeitos com a presença britânica na China. O movimento nacionalista cresce e semeia ódio. Mas se Fane, neste cenário de caos e revolta, se entrega de corpo e alma ao trabalho, Kitty continua tão frágil, cansada e infeliz como quando chegou a Mei-Tan-Fu. E o vizinho, um dia, desabafa: “Este não é um lugar para uma mulher. Ao princípio, pensei que fossem um casal tão apaixonado que não se conseguissem separar. Mas o seu marido nunca olha para si. Olha para as paredes, para o chão, para os sapatos.”

Existe um véu que separa marido e mulher. Um nevoeiro que nasceu de uma traição e o cega de raiva: “Desprezas-me assim tanto?”, pergunta-lhe, desesperada. Ao que ele responde: “Não. Desprezo-me a mim por me ter permitido amar-te outrora.” E Kitty chora, ferida também.

Uma visita ao convento das Irmãs vai trazer uma lufada de ar fresco à vida do casal. Kitty começa a sentir-se útil ao auxiliar as freiras com as crianças, nomeadamente, toca-lhes piano, algo que sempre fizera na perfeição. Walter vê-a e recorda-a a descer a escadaria. Para ele, esse tinha sido o momento decisivo. Apaixonara-se à primeira vista.

As freiras não poupam elogios ao doutor tão misericordioso e gentil com os mais novos e Kitty começa a admirar o carácter e o empenho do cientista e aproveita a nova proximidade para lhe confidenciar ao serão: “Nós, seres humanos, somos muito mais complexos do que os teus micróbios. Somos imprevisíveis. Cometemos erros e desapontamo-nos uns aos outros.” E, por fim, dirige-lhe a pertinente questão: “Porque não derrubaste a porta quando eu estava com o Charlie? Podias ao menos ter tentado dar-lhe uma sova.”

E o Dr. Fane tem esta resposta genial: “Ele não era digno disso. Ou talvez eu seja demasiado orgulhoso para lutar.”

No dia seguinte, Walter Fane salvará Kitty de ser agredida por uns tantos desordeiros que a haviam encurralado. Torna-se o herói que ela desejou mas é-o desde sempre, mesmo quando ela não o via por ter os olhos vendados.

Nessa noite, em casa de Waddington que vive com a sensual Wan Xi, o casal bebe uns copos e ouve uns discos e instala-se um clima. Kitty questiona o britânico e quer saber o que a jovem chinesa vê nele. Ele traduz a resposta dela: “Ela diz que sou um bom homem.” E Kitty remata, com ar trocista: “Como se uma mulher amasse algum homem pela sua virtude.” E por ironia, serão as virtudes do marido a reacender-lhe o fogo da paixão.

Inspirados pelo erotismo da casa ao lado, Walter e Kitty cedem ao desejo dos seus corpos famintos e quebram o gelo. O amor físico aproxima-os de novo. Passeiam, partilham e, se ela lhe admira a personalidade e o trabalho, ele faz o que quem ama sempre acaba por fazer e perdoa-lhe a traição conjugal. A felicidade instala-se e, pela primeira vez, deslumbram-se com o cenário onde estão. O inferno tornou-se no paraíso. E depois, ela dá conta de que está grávida. E ele, o médico que adorava bebés e que fica tão feliz, de repente, ao vê-la tão hesitante, ganha coragem e enfrenta-a: “Kitty, sou eu o pai?”. E a mulher é de uma honestidade trágica: “Sinceramente, não sei. Desculpa.” “Bem… Isso agora não tem importância ou tem?” “Não. Não tem.” E abraçam-se, selando um novo recomeço.

Talvez neste momento, o médico pense em sair daquela terra. Mas o curso da vida segue tão célere como a água que escorre nas engenhocas por ele concebidas. Centenas de refugiados doentes chegam e invadem Mei-Tan-Fu. O doutor desespera porque sabe que com eles vem a cólera de novo. Fazem um campo para os tratar e será lá, numa tenda, que Walter Fane contaminado morrerá ao lado de uma Kitty impotente e assustada. Antes de morrer ele pede-lhe: “Perdoa-me.” E ela tranquiliza-o: “Perdoar? Não há nada para perdoar.”

As imagens finais aceleram, enquanto se ouve “À La Claire Fountaine”, uma música francesa, cujo refrão repete: “Há muito que te amo/ Nunca te hei-de esquecer.”

Em Londres, cinco anos mais tarde, Kitty encontra o antigo amante à saída da florista. Ele ainda deixa no ar que estará por lá durante três semanas e ela despede-se dele ignorando a investida. O filho pergunta-lhe: “Quem era, mamã?” e Kitty esclarece: “Ninguém de importância, amorzinho.”

“O Véu Pintado” é um filme de amor. Um amor que Somerset Maugham não pintou no romance que escreveu e que serve de base ao filme. É brilhante porque reinventa um enredo muito mais seco e pesado e dá-lhe uma dimensão humana, demasiado humana. Com toda a nossa complexidade e ambivalência.

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