quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Cartas ao Pai Natal


Em 1973, as crianças portuguesas - ou os pais dessas crianças - escreviam cartas natalícias bem diferentes das de hoje... Em homenagem a esse ano em particular e às missivas seleccionadas num concurso da Crónica Feminina, no qual participaram 20 mil crianças, eis um apanhado de excertos dessas cartas ao Pai Natal. São lindas, enternecedoras, inocentes e tão pouco materialistas... Não esquecendo que o nosso País ainda estava em guerra, lá, no Ultramar...

"Eu este ano desejava que tu me deitasses nos meus sapatos aquele brinquedo que eu ando farta de te pedir, aquela linda boneca de cabelos compridos, olhos azuis e faces rosadas! Oh Pai Natal, se me desses essa boneca eu quando estivesse contigo dava-te mil beijos de felicidade, mas fico tão triste só de pensar que esse brinquedo nunca vai chegar às minhas mãos."

"Por isso te peço esta noite, Bom Pai Natal, que leves ao doce Jesus a minha mensagem. Diz-lhe que cinco crianças lhe pedem que salve a sua mãezinha e a deixe voltar à alegria da nossa casa agora fechada. E diz-lhe também que, mesmo sem presentes, sem árvore, sem velas e sem fogo na lareira, este Natal que se aproxima não será para nós nem frio nem triste, se tivermos a nossa Mãe".

"Nestes dias perto do Natal em que as lojas estão cheias de brinquedos e quase todas as pessoas estão contentes e todos os meninos desejam chegar ao dia de Natal para receberem os seus presentes eu estou muito triste e queria pedir-te um presente muito lindo. Não quero bonecas nem outros brinquedos. Queria que no Natal me trouxesses de presente o meu papá que há tanto tempo que não o vejo e sei que se ele voltasse me trazia muitos brinquedos. Tu já vês, Pai Natal, o que é eu passar este dia sem o meu papá?"



"Já não te via há um ano! Como deves saber o ano passado fiquei radiante com os meus presentes! Sabes ao chegar o Natal fico muito contente por o ver chegar e bater à minha porta. Mas sinto tristeza ao mesmo tempo, pois penso naqueles que passam o Natal nos hospitais, nas prisões sem que tenham a menor festa, naqueles que neste dia nascem e vêm ao mundo para passarem talvez um Natal horrível, naqueles que passam o Natal com fome e que o passam na guerra e naqueles também que neste dia deixam o mundo para sempre."

"Pai Natal, porque é que eu este Natal não ganho nada? A mamã disse-me isso e desatou a chorar. O papá está doente. Eu gostava tanto dos chocolates que me puseste o ano passado. É verdade que tu não pões nada no meu sapatinho este ano? Põe, eu ainda sou pequena e ajudo a minha mamã sempre. Se vieres eu dou um grande beijinho à senhora professora pois foi ela que me disse para te escrever. Não te esqueças de mim. Um grande beijinho."

"Gostava que este Natal fosse diferente dos outros. Gostava que fosse um Natal de Paz e Alegria, que os homens acabassem com as guerras, porque elas não adiantam nada e só provocam mortes. Se puderes dá-me um estojo de química, daqueles que têm tubos de ensaio, provetas e todas aquelas coisas da química porque é a disciplina de que gosto mais. Beijinhos para ti e até para o ano."

"Olha, sabes uma coisa? Este ano gostava que me trouxesses uma bicicleta porque me portei bem durante o ano. Como vês, sou pouco exigente."

"Espero que não estejas constipado quando distribuires os presentes à meia-noite do dia 24 de Dezembro. Não te exponhas demasiado ao frio nem à chuva, tem cuidado... Já és velhinho."




"Sabes, Pai Natal, não peço nada para mim, peço apenas para a minha vovó, para que ela não chore e sofra tanto, como tem sucedido desde que o vôvô morreu. Desejo voltar a vê-la rir, a brincar comigo e a passear."

"Como me tenho portado bem na escola e em casa não tenho feito maldades, julgo que vou merecer as coisas que te vou pedir neste Natal. Em primeiro lugar, gostava que me desses uma boneca daquelas muito bonitas, que falam e tudo, e, depois, gostava de ter um livro de histórias com gravuras bonitas, daquelas que falam de animais, sabes, eu gosto muito dos animais e se me desses um cãozinho também ficava muito contente."

"É com grande alegria que te escrevo por saber que o Natal se aproxima. Em segundo lugar queria que estivesses de boa saúde, óptima disposição e que gozasses ainda muitos anos de vida junto ao Menino Jesus."

"Não te esqueças da minha chaminé, olha que ela está um bocadinho escondida por causa do prédio grande que fizeram ao lado."

"Eu sou o Rui Nuno. É a primeira carta que te escrevo, para te pedir uma coisa que penso que tu não me vais poder dar. Eu gostava tanto, tanto que vê se me dás um jeito - mesmo que tu não possas trazê-lo pela chaminé - de ter um cão Pastor Alemão vê se falas com o meu pai e o convences a me dar um cão desses. Com a minha mãe não vale a pena falares porque ela diz logo que não quer um cão."

"Um dos meus maiores desejos é que acabe a guerra porque não quero que os meus paizinhos e manos sofram com isso."

"Gosto também da sua barba que é muito grande e engraçada por lhe chegar à barriga, pois por ser também pequeno parece um anão."

"Eu venho pedir-lhe este Natal se me dava este ano uma pistola pois eu estou na Casa Pia e a minha mãe não me pode dar."

"Digo-te Pai Natal, seria bom, muito bom mesmo, que este Natal se passasse sem guerras ou ódios, que todos se reconciliassem para festejar o nascimento do meu querido Jesus. E para mim peço-te coragem. Coragem, sim! Porque com a coragem, mesmo que não tenha saúde, tenho ânimo para tudo!!!".






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