Terça-feira, dia 12 de Janeiro de 2010, às 17h41 de Port-au-Prince, capital do Haiti, um sismo de grau 7 na escala de Richter abala o país mais pobre do hemisfério ocidental. Em apenas 60 segundos, a cidade fica arrasada e o número de mortos e feridos ascende aos milhares…
As minhas referências do Haiti são literárias. É um país que descobri há muitos anos quando li “The Comedians”, de Graham Greene, um autor que adoro ler e reler no inglês original. Fiquei surpreendida com o ditador Papa Doc como era conhecido o presidente François Duvalier. Na minha adolescência, chocou-me que um médico pudesse ter instaurado um regime de terror promovido pelos tontons macoutes, os bichos papões da sua guarda pessoal. Mas como toda a miúda romântica fiquei presa ao love affair da história mais do que ao cenário político. Mais tarde, soube dos insultos de Duvalier a Greene mas isso já é outra história, assim como o filme que se realizou a partir do livro com Elizabeth Taylor e Richard Burton. O que interessa é que retive a ideia de um tirano que se designava por Deus e se acreditava único e invencível como a bandeira do país que representava. Seguidor do Vudu instaurou naquelas gentes pobres de espírito um medo atroz e mergulhou literalmente a ilha nas trevas…
O vudu e a feitiçaria negra marcaram também esse meu período literário através de um outro romance magnífico “Vasto Mar de Sargaços”, de Jean Rhys. O cenário é a Jamaica mas podia ser o Haiti, a crença nos mortos-vivos, os zombies é o principal uso do vudu. Ou seja, quem o pratica fá-lo para converter pessoas em zombies ou para através de bonecos infligir as maiores agonias a quem, naturalmente, abomina.
Como é óbvio, o vudu nasceu em África e foi aterrar nas Caraíbas através dos escravos destacados para as plantações de cana-de-açúcar. Voltamos ao Haiti, ilha descoberta, independente e ocupada, cenário de violência desde o berço… Já tinha tido antes catástrofes naturais? Oh, sim. Muitas: terramotos, furacões e até um tsunami. Morreu muita gente? Claro, embora não tanta como aquela que se chora, procura e enterra hoje. Fala-se em 200 mil mortos, 300 mil pessoas desalojadas e milhares de feridos, muitos deles a sofrerem amputações para poderem sobreviver.
Com três mil presos à solta, o caos ainda é maior. Assaltos, homicídios, até de voluntários e doentes… É o caos a reinar na antiga república de escravos. Mas o ser humano que é capaz do melhor e do pior enfrenta tudo e muitos tentam ajudar e abundam histórias de sobrevivência humana inacreditáveis: batem-se recordes de pessoas soterradas a conseguirem o milagre da vida com a ajuda tecnológica das sms. Mas se os regastes são históricos – 72 horas é o tempo máximo para alguém conseguir sobreviver debaixo dos escombros e já se salvaram pessoas seis dias depois – os relatos de nascimentos e adopções são também de emocionar as pedras. Como se a vida e a bondade fizessem parte de um ciclo maior e indominável. Porém, os monstros estão à solta e não sei se é justo culpar somente os 3 mil presos evadidos. Nestas alturas são muitos os pedófilos internacionais que “adoptam” crianças, são muitos os “justiceiros” que lincham os saqueadores, são muitas as mulheres violadas e as casas roubadas. Faz lembrar New Orleans pela desordem mas muito mais violenta porque as pessoas pilham com catanas.
Em conclusão: a catástrofe natural que abalou o Haiti é terrível e dramática. No entanto, no Haiti, até agora, só a ONU impedia a guerra civil. Ou seja, se não fosse a Natureza a precipitar-se a entrar em cena, uns e outros matar-se-iam assim que deixassem de estar controlados civilizadamente pela ONU. O nosso José Castelo-Branco tem uma máxima à qual acho piada. Diz o merchant e agora cantor: “Eles são brancos, eles que se entendam.” Se calhar, pode soar mal mas apetece-me dizer o mesmo ao inverso… O que não me impede de ser solidária com a dor humana e de perceber que o nosso coração também tem amarras:
- He told me once that there was no room for him outside of Haiti.
- I wonder what he meant.
- He meant his heart was there.
In “The Comedians”, by Graham Greene.


Sem comentários:
Enviar um comentário