quarta-feira, 24 de março de 2010

A arte de regatear

Uma das minhas melhores amigas tem a casa recheada de obras de arte. As pessoas pasmam perante os óleos e as esculturas, os tapetes e as cerâmicas. Ela deixa-nos suspirar, esmagados pela beleza das peças e, se alguém a questiona sobre preços, arrepende-se logo de seguida, tal é a soma exorbitante que recebe em resposta. Mas eu sei que ela não nada em dinheiro e não assalta bancos nas horas vagas. Por isso, um dia, instigada pelo seu ar de caçadora embevecida junto aos troféus, decidi arrancar-lhe o segredo do sucesso:

- Esta deusa é um espanto! – disse, aproximando-me da imagem doirada. – É a tal grega, não é?

- Oh, sim! Comprei-a há séculos. Ainda em dólares…

- Hum… Tens um talento natural para te rodeares de objectos bonitos. E todos eles devem ter uma história.

- Se têm – admitiu, com um sorrisinho.

- Não me queres contar? Aposto que são recordações divertidíssimas.

- Eu conto-te, mas numa condição: ficas de bico calado e não dizes a ninguém.

- De acordo! – anui, radiante.

- A verdade é que tudo isto – declara, apontando em seu redor – foi muito negociado. Eu adoro regatear. Para começar, quando me pedem um preço desço logo para a metade. Comecei a praticar nos mercados árabes e ganhei-lhe o jeito.

- Interessante. Mas recordo-me de teres dito que a deusa veio de uma galeria de arte em Atenas…

- É um facto. Ia com o Eduardo e com cem dólares na carteira. Estávamos quase de saída da Grécia quando a vi, a chamar por mim, belíssima, numa montra. Entrámos e falei com a mulher, em inglês, claro, elogiando a peça e pedindo o valor. Já nem me lembro quanto é que ela disse que era. Mas fiz-me explicar: ofereço cem dólares, que é tudo o que possuo e sem mais delongas porque tenho um avião para apanhar.

- Assim tão simples?

- Qual quê?! A mulher desatou numa berraria, a dizer que se sentia ofendidíssima, que aquilo era uma loja séria e que os preços estavam marcados. Quando começou a disparatar em grego, o Eduardo começou a dar-me discretos puxões e a falar por entre os dentes: “Vamos embora daqui, deixa lá isso!” Enfim, sabes como são os maridos…

- Pois – concordei, com ar entediado. – Mas tu o que fizeste?

- Simples: sem pestanejar perguntei-lhe se ela era a dona da loja. Disse que não. Então pedi-lhe que ligasse para o patrão e que dissesse que estava ali uma senhora a oferecer 100 dólares pela estátua da deusa doirada. E, ouvi-a a falar em grego e a gritar na mesma, toda corada do esforço e da indignação. Desligado o telefone, diz-me que o patrão ficou em estado de choque mas sugere uma venda mínima de 120 dólares.

- Só mais vinte! Boa! Claro que compraste…

Mas a minha amiga ri e conclui:

- Não desarmei dos 100 dólares. Voltei à carga e, desta vez, mostrei-lhe o dinheiro. É muito importante o efeito das notas sobre o balcão. Quem vê o papel já não o larga e este é o truque. Claro que, se ela tivesse dado mais luta, ter-me-ia virado para o Eduardo e pedido os 20 que faltavam. Mas, na realidade, só tinha os 100 comigo e acabei por trazer a escultura por esse preço.

- Genial! – admiti. – Foste implacável.

- Aprendi com uma amiga minha – confidenciou. – Bem mais terrível do que eu: ela desce logo para um terço do valor exigido. E consegue! Mas, penso que a metade é mais razoável. E, agora, passas a fazer o mesmo mas não dizes a ninguém que fui eu que te ensinei. E nunca revelas o verdadeiro valor pelo qual adquiriste as peças: atiras sempre um valor mais alto. As pessoas são assim: só apreciam o caro e desdenham o barato. Se é barato não presta. Já se sabe.

- Aquele óleo que trouxeste de Cuba deve ter sido uma pechincha, então…

- Sim, ofereci metade do que o pintor queria e, depois de saber o salário mínimo nacional, até acho que lhe dei demais, se queres saber.

- E já tentaste fazer o mesmo cá? Em galerias?

- Penso que, no nosso país, existe uma certa roubalheira institucionalizada. Os preços dos artistas são elevadíssimos. Apaixonei-me, em tempos, por uma menina em mármore. Claro que choquei o galerista mas ofereci-lhe metade do valor pela peça. Não ma vendeu. No entanto, volvidos dois anos, a escultura ainda lá está, a acenar-me da montra. Eu é que lhe perdi o interesse.

- Obrigada por teres confiado em mim. Irei seguir o teu exemplo.

E saí de casa da Alice directinha a uma loja de molduras que conhecia e que também vendia umas telas que me tinham ficado debaixo de olho. Durante um mês insisti com o fulano e deixei o meu contacto. Um dia, telefonou-me. O pintor brasileiro concordara com o meu preço e, hoje, a Praia da Conceição ilumina a minha sala.

Sacrificar a vida por uma noite de amor

Mónica entrou em casa e tentou disfarçar a ansiedade. Fê-lo enquanto cortava os legumes, confeccionava a mais fresca das sopas e grelhava bifes de peito de frango. Depois, continuou a fazê-lo na preparação do banho de espuma das crianças. Com infinita paciência e doçura leu-lhes um par de histórias e meteu-os na cama. Quando os sentiu a dormir disse para o marido:

- Se não te importas, a Joana não anda nada bem. Está a atravessar um momento difícil, com a doença e tal. Gostaria de passar o serão em casa dela. E, se calhar, até durmo lá. O que achas? Ficavas aborrecido? Já tens o jantar feito – acrescentou, como a dona de casa cumpridora que a mãe dela a educara a ser.

- Mas vais sair a estas horas? São dez da noite…

- Eu nunca saio. E estás sempre a dizer que não convivo com os meus amigos. Aliás, já chegaste a dizer que não tinha amigos, para além do porteiro e da mulher do café. Por isso, se faz favor, sê razoável e deixa-me sair.

- Está bem. Não me importo. Vai lá.

- Muito obrigada – respondeu com alguma ironia, enquanto apanhava a mala e as chaves do carro.

- Se precisares de alguma coisa diz. Vou ter o telemóvel sempre ligado.

- Não te preocupes – disse ainda, antes de bater a porta.

A viagem seria longa. Teria muito tempo para pensar no que dizer quando se vissem pela primeira vez. Já lhe conhecia o rosto belo e sedutor das fotografias, a voz dos inúmeros telefonemas trocados mas era o primeiro encontro físico e a excitação fazia-lhe tremer as pernas.

Conduzia a grande velocidade, como se os quilómetros fossem inimigos a abater. Afinal, entrepunham-se, e de que maneira, entre ela e aquela paixão nortenha. À medida que a capital ia ficando para trás, também os temores de Mónica se desmoronavam. Ia tudo correr bem, o telemóvel guardava um silêncio de ouro e, se por acaso, o marido lhe telefonasse iria ignorá-lo sem remorsos.

Existe quase uma espécie de loucura nos amantes, como se nada mais no mundo importasse para além deles próprios. Uma vertigem perigosa, que rouba o sono e o apetite e convida a que se cometam excessos. Como aquela viagem secreta, debaixo do escuro da noite. Tanta estrada para engolir só para ver o amor. E ter de voltar no dia seguinte, tão serena como a água de um lago, como se nada de excitante tivesse acontecido, como se não tivesse vivido a mais fogosa noite de amor.

Recordava-se da primeira troca de mensagens e da timidez. Aos poucos, as confidências foram alicerçando uma ponte: havia montanhas de coisas em comum. Julgara mesmo ter encontrado a famosa alma gémea, aquela que procuramos uma vida inteira sem, muitas vezes, encontrarmos sequer a sombra dela. Começou a sentir-se invulgarmente forte e decidida, preparada para enfrentar o tédio, abanar a rotina e partir para outra. Queria explorar e ter certezas. A distância não é favorável ao romance. Quando se ama exige-se o toque físico. A união das almas é amor de outros séculos, fascinante, porém, insuficiente.

Ao pensar assim, agarrava o volante com mais força. O pé continuava a pesar no acelerador. Queria chegar. Essencialmente, só queria chegar. Há dias que planeava a viagem. Congeminara vários pretextos, até que lhe ocorreu a ideia de visitar a Joana, uma amiga dos tempos de solteira com a qual o marido antipatizava. Pareceu-lhe um álibi perfeito. Não que o marido fosse má pessoa. Mas talvez não fosse a certa para ela. Sentia-se cada vez mais distante dele. Tantos anos casada e sem filhos. E, depois, logo dois de enfiada. Mais por pressão familiar que, de ambos os lados, exigiam netos. Vieram os miúdos. Missão cumprida. Agora era mulher e mãe mas continuava a sentir-se incompleta. Talvez tudo mudasse nessa noite.

Quando, por fim, chegou cedeu à emoção. Mentalmente pensou: “É igual à fotografia.” E respirou, aliviada. Viveu um êxtase incrível e deu por ganha a sua tremenda façanha. Abençoou cada minuto e despediu-se muito a custo. Estava apaixonada. Mais do que isso: enlouqueceria se alguém se intrometesse entre ela e o amor recém-descoberto.

Dias mais tarde, o marido interpelou-a, com um ar furioso e uma multa de trânsito na mão:

- Queres me explicar como é que neste dia o nosso carro foi multado por excesso de velocidade numa portagem, a não sei quantos quilómetros daqui? Não devias ter estado em casa da Joana?

O romance morrera. Não tivera mais continuidade. Terminara nessa mesma noite. Como se o sexo consumado tivesse apagado a chama. E, agora, o marido exigia-lhe a verdade da mentira. Os filhos suspenderam a brincadeira, chocados pela agressividade que azedava o ar e alterava o tom da voz do pai.










Recorda-me como uma rosa

Já te tive tarde, minha filha. Tive-te quando menos esperava. Não que não quisesse que não acontecesse, muito antes pelo contrário. Sempre te desejei mas já tinha perdido a esperança de ser mãe. É claro que houve uma série de candidatos a pai, contudo nenhum me pareceu o ideal. A vida também se me atropelava com as suas exigências profissionais e sociais. Por fim, tudo se conjugou: o tempo certo, a maturidade interior, a paixão necessária para a grande aventura. Conheço de cor a tarde em que te fiz: fiquei de pernas para o ar, imenso tempo, numa ingenuidade risonha a pensar que tinha de te segurar. Semente fica em mim, roguei aos céus. Assemelhando-me à mãe da Branca de Neve pedia o mesmo: “Quero ter uma filha com a pele tão branca como a neve, com os lábios tão vermelhos como o meu sangue e o cabelo tão preto como a madeira de ébano.” E quando o teste de gravidez imprimiu o desfile das riscas corri para o teu pai que ainda dormia e anunciei-lhe eufórica: “Amor, estou grávida!” Ele abraçou-me e declarou com o seu sentido de humor deveras peculiar: “Este momento seria perfeito senão fosse o teu mau hálito.” Fiz um sorriso amarelo que logo se desvaneceu com muitos beijos e carinhos.

Enquanto ficaste na minha barriga lembrava-me bem que estava grávida. Os enjoos, a simpatia das pessoas em geral, a prioridade nas caixas do supermercado. Confesso que odiei toda a indumentária de grávida e a penosa transformação do meu corpo. Estava sempre cheia de calor e a desejar que nascesses depressa antes de me transformar irremediavelmente num balão. Devo ter feito chegar a mensagem a ti, uma vez que vieste prematura mas de boa saúde. Eras o bebé mais pequenino de todos e eu comecei a despedir-me de ti com muito custo, pois sabia que em dias, semanas, parecerias outro bebé e daquela miniatura rosada ficaria apenas uma ténue memória.

Para invocar esses primeiros dias guardo as tuas roupinhas de prematura, tão mínimas que me custa imaginar que foram vestidas por ti e te ficaram largas… E quando tas mostro e corres com elas nas mãos para as vestires às tuas bonecas penso na felicidade suprema que é ter-te, tão linda e feliz, um milagre com duas pernas, o meu milagre de vida.

Tem sido uma experiência maravilhosa ver-te crescer. Ao princípio, demorou algum tempo a mentalizar-me de que era mãe. Quando me começaste a chamar mamã ficava algo incrédula. De facto, era-o, a prova viva berrava essa evidência a plenos pulmões mas em mim, a noção de o ser, ainda não estava interiorizada. Um bebé é uma grande ocupação. Um trabalho acrescentado que não pode ter falhas. Havia muita exigência à tua volta: de banhos, fraldas, biberões esterilizados, SOS colo 24 horas por dia ao seu dispor… E no meio daquele frenesim eu era a mãe e a responsabilidade não me deixava dormir.

Não sei quando é que tudo amainou. Um dia, passaste a dormir mais e a chorar menos. A querer subir e andar. Já querias segurar na colher e falar. E esse foi, justamente, o dom que todos te elogiaram quando entraste aos dois anos no colégio: o da fala. Perto das outras crianças, que pouco ou nada diziam, tu tagarelavas incansável, exibindo os teus conhecimentos com a mesma fanfarronice herdada do teu pai.

E como floresceste no colégio! As primeiras idas ao teatro, as visitas de estudo pedagógicas aos museus, jardins e quintas, as tardes giríssimas da Summer School passadas entre a piscina e o barro modelado em mil formas divertidas, o ballet, as aulas de música, as sucessivas festas de aniversário de chapeuzinhos, apitos e sacos de surpresas. E tu a fazeres os teus primeiros amigos, a contares-me do teu herói com quem querias dançar, sempre romântica e doce como uma princesa da Disney.

A memória de uma mãe é a melhor base de dados do mundo. Nunca esquecemos as vossas primeiras palavras, graças, medos, sustos, gostos, aptidões, birras, fugas, etc. Tudo devidamente catalogado e arquivado no nosso cérebro. Quando falamos dos nossos filhos entre amigas, independentemente de eles ainda serem crianças, adolescentes ou adultos fazemos uma regressão detalhada que nos surpreende e diverte. No fundo, sejamos nós o que formos em termos profissionais, somos mães, e nada orgulha mais uma mãe do que narrar episódios da prole, ainda que esta se esconda envergonhada por ser o centro das atenções e nos recrimine, mais tarde, por termos sido tão indiscretas.

Como ainda estás a crescer sinto que não te posso faltar. Às vezes, quando conduzo receio uma fatalidade que me prive de ti. Faço os possíveis para não adoecer nem participar em acções arriscadas. Não perco nada por ser mais cuidadosa, seja ao atravessar a rua, seja ao trancar a porta de casa a sete chaves. Mas faço-o por ti. Graças à tua existência tornei-me uma protectora feroz. Sei bem que a vida é um mistério e nada se domina perante o acaso dos dias. Mas estou alerta. E gostava, como te tive tão tarde, que um dia quando fosses adulta não visses apenas o meu rosto envelhecido. Se for possível, meu amor pequenino, se puderes recuar no tempo e ouvir-me a embalar-te ou a contar-te as mais belas histórias para adormeceres, se conseguires visualizar o meu rosto de então, rogo-te, por tudo o que passei para que fosses feliz, recorda-me como uma rosa…