Uma das minhas melhores amigas tem a casa recheada de obras de arte. As pessoas pasmam perante os óleos e as esculturas, os tapetes e as cerâmicas. Ela deixa-nos suspirar, esmagados pela beleza das peças e, se alguém a questiona sobre preços, arrepende-se logo de seguida, tal é a soma exorbitante que recebe em resposta. Mas eu sei que ela não nada em dinheiro e não assalta bancos nas horas vagas. Por isso, um dia, instigada pelo seu ar de caçadora embevecida junto aos troféus, decidi arrancar-lhe o segredo do sucesso:
- Esta deusa é um espanto! – disse, aproximando-me da imagem doirada. – É a tal grega, não é?
- Oh, sim! Comprei-a há séculos. Ainda em dólares…
- Hum… Tens um talento natural para te rodeares de objectos bonitos. E todos eles devem ter uma história.
- Se têm – admitiu, com um sorrisinho.
- Não me queres contar? Aposto que são recordações divertidíssimas.
- Eu conto-te, mas numa condição: ficas de bico calado e não dizes a ninguém.
- De acordo! – anui, radiante.
- A verdade é que tudo isto – declara, apontando em seu redor – foi muito negociado. Eu adoro regatear. Para começar, quando me pedem um preço desço logo para a metade. Comecei a praticar nos mercados árabes e ganhei-lhe o jeito.
- Interessante. Mas recordo-me de teres dito que a deusa veio de uma galeria de arte em Atenas…
- É um facto. Ia com o Eduardo e com cem dólares na carteira. Estávamos quase de saída da Grécia quando a vi, a chamar por mim, belíssima, numa montra. Entrámos e falei com a mulher, em inglês, claro, elogiando a peça e pedindo o valor. Já nem me lembro quanto é que ela disse que era. Mas fiz-me explicar: ofereço cem dólares, que é tudo o que possuo e sem mais delongas porque tenho um avião para apanhar.
- Assim tão simples?
- Qual quê?! A mulher desatou numa berraria, a dizer que se sentia ofendidíssima, que aquilo era uma loja séria e que os preços estavam marcados. Quando começou a disparatar em grego, o Eduardo começou a dar-me discretos puxões e a falar por entre os dentes: “Vamos embora daqui, deixa lá isso!” Enfim, sabes como são os maridos…
- Pois – concordei, com ar entediado. – Mas tu o que fizeste?
- Simples: sem pestanejar perguntei-lhe se ela era a dona da loja. Disse que não. Então pedi-lhe que ligasse para o patrão e que dissesse que estava ali uma senhora a oferecer 100 dólares pela estátua da deusa doirada. E, ouvi-a a falar em grego e a gritar na mesma, toda corada do esforço e da indignação. Desligado o telefone, diz-me que o patrão ficou em estado de choque mas sugere uma venda mínima de 120 dólares.
- Só mais vinte! Boa! Claro que compraste…
Mas a minha amiga ri e conclui:
- Não desarmei dos 100 dólares. Voltei à carga e, desta vez, mostrei-lhe o dinheiro. É muito importante o efeito das notas sobre o balcão. Quem vê o papel já não o larga e este é o truque. Claro que, se ela tivesse dado mais luta, ter-me-ia virado para o Eduardo e pedido os 20 que faltavam. Mas, na realidade, só tinha os 100 comigo e acabei por trazer a escultura por esse preço.
- Genial! – admiti. – Foste implacável.
- Aprendi com uma amiga minha – confidenciou. – Bem mais terrível do que eu: ela desce logo para um terço do valor exigido. E consegue! Mas, penso que a metade é mais razoável. E, agora, passas a fazer o mesmo mas não dizes a ninguém que fui eu que te ensinei. E nunca revelas o verdadeiro valor pelo qual adquiriste as peças: atiras sempre um valor mais alto. As pessoas são assim: só apreciam o caro e desdenham o barato. Se é barato não presta. Já se sabe.
- Aquele óleo que trouxeste de Cuba deve ter sido uma pechincha, então…
- Sim, ofereci metade do que o pintor queria e, depois de saber o salário mínimo nacional, até acho que lhe dei demais, se queres saber.
- E já tentaste fazer o mesmo cá? Em galerias?
- Penso que, no nosso país, existe uma certa roubalheira institucionalizada. Os preços dos artistas são elevadíssimos. Apaixonei-me, em tempos, por uma menina em mármore. Claro que choquei o galerista mas ofereci-lhe metade do valor pela peça. Não ma vendeu. No entanto, volvidos dois anos, a escultura ainda lá está, a acenar-me da montra. Eu é que lhe perdi o interesse.
- Obrigada por teres confiado em mim. Irei seguir o teu exemplo.
E saí de casa da Alice directinha a uma loja de molduras que conhecia e que também vendia umas telas que me tinham ficado debaixo de olho. Durante um mês insisti com o fulano e deixei o meu contacto. Um dia, telefonou-me. O pintor brasileiro concordara com o meu preço e, hoje, a Praia da Conceição ilumina a minha sala.

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