quarta-feira, 24 de março de 2010

Sacrificar a vida por uma noite de amor

Mónica entrou em casa e tentou disfarçar a ansiedade. Fê-lo enquanto cortava os legumes, confeccionava a mais fresca das sopas e grelhava bifes de peito de frango. Depois, continuou a fazê-lo na preparação do banho de espuma das crianças. Com infinita paciência e doçura leu-lhes um par de histórias e meteu-os na cama. Quando os sentiu a dormir disse para o marido:

- Se não te importas, a Joana não anda nada bem. Está a atravessar um momento difícil, com a doença e tal. Gostaria de passar o serão em casa dela. E, se calhar, até durmo lá. O que achas? Ficavas aborrecido? Já tens o jantar feito – acrescentou, como a dona de casa cumpridora que a mãe dela a educara a ser.

- Mas vais sair a estas horas? São dez da noite…

- Eu nunca saio. E estás sempre a dizer que não convivo com os meus amigos. Aliás, já chegaste a dizer que não tinha amigos, para além do porteiro e da mulher do café. Por isso, se faz favor, sê razoável e deixa-me sair.

- Está bem. Não me importo. Vai lá.

- Muito obrigada – respondeu com alguma ironia, enquanto apanhava a mala e as chaves do carro.

- Se precisares de alguma coisa diz. Vou ter o telemóvel sempre ligado.

- Não te preocupes – disse ainda, antes de bater a porta.

A viagem seria longa. Teria muito tempo para pensar no que dizer quando se vissem pela primeira vez. Já lhe conhecia o rosto belo e sedutor das fotografias, a voz dos inúmeros telefonemas trocados mas era o primeiro encontro físico e a excitação fazia-lhe tremer as pernas.

Conduzia a grande velocidade, como se os quilómetros fossem inimigos a abater. Afinal, entrepunham-se, e de que maneira, entre ela e aquela paixão nortenha. À medida que a capital ia ficando para trás, também os temores de Mónica se desmoronavam. Ia tudo correr bem, o telemóvel guardava um silêncio de ouro e, se por acaso, o marido lhe telefonasse iria ignorá-lo sem remorsos.

Existe quase uma espécie de loucura nos amantes, como se nada mais no mundo importasse para além deles próprios. Uma vertigem perigosa, que rouba o sono e o apetite e convida a que se cometam excessos. Como aquela viagem secreta, debaixo do escuro da noite. Tanta estrada para engolir só para ver o amor. E ter de voltar no dia seguinte, tão serena como a água de um lago, como se nada de excitante tivesse acontecido, como se não tivesse vivido a mais fogosa noite de amor.

Recordava-se da primeira troca de mensagens e da timidez. Aos poucos, as confidências foram alicerçando uma ponte: havia montanhas de coisas em comum. Julgara mesmo ter encontrado a famosa alma gémea, aquela que procuramos uma vida inteira sem, muitas vezes, encontrarmos sequer a sombra dela. Começou a sentir-se invulgarmente forte e decidida, preparada para enfrentar o tédio, abanar a rotina e partir para outra. Queria explorar e ter certezas. A distância não é favorável ao romance. Quando se ama exige-se o toque físico. A união das almas é amor de outros séculos, fascinante, porém, insuficiente.

Ao pensar assim, agarrava o volante com mais força. O pé continuava a pesar no acelerador. Queria chegar. Essencialmente, só queria chegar. Há dias que planeava a viagem. Congeminara vários pretextos, até que lhe ocorreu a ideia de visitar a Joana, uma amiga dos tempos de solteira com a qual o marido antipatizava. Pareceu-lhe um álibi perfeito. Não que o marido fosse má pessoa. Mas talvez não fosse a certa para ela. Sentia-se cada vez mais distante dele. Tantos anos casada e sem filhos. E, depois, logo dois de enfiada. Mais por pressão familiar que, de ambos os lados, exigiam netos. Vieram os miúdos. Missão cumprida. Agora era mulher e mãe mas continuava a sentir-se incompleta. Talvez tudo mudasse nessa noite.

Quando, por fim, chegou cedeu à emoção. Mentalmente pensou: “É igual à fotografia.” E respirou, aliviada. Viveu um êxtase incrível e deu por ganha a sua tremenda façanha. Abençoou cada minuto e despediu-se muito a custo. Estava apaixonada. Mais do que isso: enlouqueceria se alguém se intrometesse entre ela e o amor recém-descoberto.

Dias mais tarde, o marido interpelou-a, com um ar furioso e uma multa de trânsito na mão:

- Queres me explicar como é que neste dia o nosso carro foi multado por excesso de velocidade numa portagem, a não sei quantos quilómetros daqui? Não devias ter estado em casa da Joana?

O romance morrera. Não tivera mais continuidade. Terminara nessa mesma noite. Como se o sexo consumado tivesse apagado a chama. E, agora, o marido exigia-lhe a verdade da mentira. Os filhos suspenderam a brincadeira, chocados pela agressividade que azedava o ar e alterava o tom da voz do pai.










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