quarta-feira, 24 de março de 2010

Recorda-me como uma rosa

Já te tive tarde, minha filha. Tive-te quando menos esperava. Não que não quisesse que não acontecesse, muito antes pelo contrário. Sempre te desejei mas já tinha perdido a esperança de ser mãe. É claro que houve uma série de candidatos a pai, contudo nenhum me pareceu o ideal. A vida também se me atropelava com as suas exigências profissionais e sociais. Por fim, tudo se conjugou: o tempo certo, a maturidade interior, a paixão necessária para a grande aventura. Conheço de cor a tarde em que te fiz: fiquei de pernas para o ar, imenso tempo, numa ingenuidade risonha a pensar que tinha de te segurar. Semente fica em mim, roguei aos céus. Assemelhando-me à mãe da Branca de Neve pedia o mesmo: “Quero ter uma filha com a pele tão branca como a neve, com os lábios tão vermelhos como o meu sangue e o cabelo tão preto como a madeira de ébano.” E quando o teste de gravidez imprimiu o desfile das riscas corri para o teu pai que ainda dormia e anunciei-lhe eufórica: “Amor, estou grávida!” Ele abraçou-me e declarou com o seu sentido de humor deveras peculiar: “Este momento seria perfeito senão fosse o teu mau hálito.” Fiz um sorriso amarelo que logo se desvaneceu com muitos beijos e carinhos.

Enquanto ficaste na minha barriga lembrava-me bem que estava grávida. Os enjoos, a simpatia das pessoas em geral, a prioridade nas caixas do supermercado. Confesso que odiei toda a indumentária de grávida e a penosa transformação do meu corpo. Estava sempre cheia de calor e a desejar que nascesses depressa antes de me transformar irremediavelmente num balão. Devo ter feito chegar a mensagem a ti, uma vez que vieste prematura mas de boa saúde. Eras o bebé mais pequenino de todos e eu comecei a despedir-me de ti com muito custo, pois sabia que em dias, semanas, parecerias outro bebé e daquela miniatura rosada ficaria apenas uma ténue memória.

Para invocar esses primeiros dias guardo as tuas roupinhas de prematura, tão mínimas que me custa imaginar que foram vestidas por ti e te ficaram largas… E quando tas mostro e corres com elas nas mãos para as vestires às tuas bonecas penso na felicidade suprema que é ter-te, tão linda e feliz, um milagre com duas pernas, o meu milagre de vida.

Tem sido uma experiência maravilhosa ver-te crescer. Ao princípio, demorou algum tempo a mentalizar-me de que era mãe. Quando me começaste a chamar mamã ficava algo incrédula. De facto, era-o, a prova viva berrava essa evidência a plenos pulmões mas em mim, a noção de o ser, ainda não estava interiorizada. Um bebé é uma grande ocupação. Um trabalho acrescentado que não pode ter falhas. Havia muita exigência à tua volta: de banhos, fraldas, biberões esterilizados, SOS colo 24 horas por dia ao seu dispor… E no meio daquele frenesim eu era a mãe e a responsabilidade não me deixava dormir.

Não sei quando é que tudo amainou. Um dia, passaste a dormir mais e a chorar menos. A querer subir e andar. Já querias segurar na colher e falar. E esse foi, justamente, o dom que todos te elogiaram quando entraste aos dois anos no colégio: o da fala. Perto das outras crianças, que pouco ou nada diziam, tu tagarelavas incansável, exibindo os teus conhecimentos com a mesma fanfarronice herdada do teu pai.

E como floresceste no colégio! As primeiras idas ao teatro, as visitas de estudo pedagógicas aos museus, jardins e quintas, as tardes giríssimas da Summer School passadas entre a piscina e o barro modelado em mil formas divertidas, o ballet, as aulas de música, as sucessivas festas de aniversário de chapeuzinhos, apitos e sacos de surpresas. E tu a fazeres os teus primeiros amigos, a contares-me do teu herói com quem querias dançar, sempre romântica e doce como uma princesa da Disney.

A memória de uma mãe é a melhor base de dados do mundo. Nunca esquecemos as vossas primeiras palavras, graças, medos, sustos, gostos, aptidões, birras, fugas, etc. Tudo devidamente catalogado e arquivado no nosso cérebro. Quando falamos dos nossos filhos entre amigas, independentemente de eles ainda serem crianças, adolescentes ou adultos fazemos uma regressão detalhada que nos surpreende e diverte. No fundo, sejamos nós o que formos em termos profissionais, somos mães, e nada orgulha mais uma mãe do que narrar episódios da prole, ainda que esta se esconda envergonhada por ser o centro das atenções e nos recrimine, mais tarde, por termos sido tão indiscretas.

Como ainda estás a crescer sinto que não te posso faltar. Às vezes, quando conduzo receio uma fatalidade que me prive de ti. Faço os possíveis para não adoecer nem participar em acções arriscadas. Não perco nada por ser mais cuidadosa, seja ao atravessar a rua, seja ao trancar a porta de casa a sete chaves. Mas faço-o por ti. Graças à tua existência tornei-me uma protectora feroz. Sei bem que a vida é um mistério e nada se domina perante o acaso dos dias. Mas estou alerta. E gostava, como te tive tão tarde, que um dia quando fosses adulta não visses apenas o meu rosto envelhecido. Se for possível, meu amor pequenino, se puderes recuar no tempo e ouvir-me a embalar-te ou a contar-te as mais belas histórias para adormeceres, se conseguires visualizar o meu rosto de então, rogo-te, por tudo o que passei para que fosses feliz, recorda-me como uma rosa…

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