Na Ficção Científica existe muito a tendência do diário, talvez porque ficcionamos no futuro, estando nós no presente e, de alguma forma, condicionados pelas memórias que são passado. Assim, muitos autores fazem as suas personagens escrever os citados diários. Dias de um calendário, tão abstractos como os números, ferramentas que a nossa mente criou na ânsia de conseguirmos ter alguma espécie de domínio sobre a natureza, em particular, a nossa.
É Março de 2006 e eu estou apaixonada. Algures nesse Verão estou deitada numa espreguiçadeira e à minha frente existe uma piscina redonda que transborda de água tépida. O homem que amo está sentado, com as pernas mergulhadas na água e fuma um cigarro. Sento-me ao lado dele. Estamos ambos queimados do sol. Pouco depois, sinto que me acaricia a barriga, desejoso de a ver cheia de vida. Em parte é por pirraça dado que existe um grupo do outro lado da piscina que o incomoda e, em outra parte, é por desejo antigo de ter um filho.
Sorrio com estas carícias mais quentes que o próprio sol. Tudo nele é luz. Os olhos parecem salpicados com o próprio pó das estrelas de tão brilhantes que são. Penso que o meu amor é um herói cósmico e envaideço-me com a beleza dele que me arrebata.
À noite dormimos a custo, sem nenhum dos dois querer fechar os olhos. Ficamos tão próximos a acariciarmo-nos, de olhos fixos e brilhantes um para o outro, com um sorriso de deslumbramento mútuo.
A paixão em estado puro é mais forte que dinamite. Tudo dentro de nós explode. Somos um rio desgovernado, lava vulcânica esparramada sobre a montanha, manteiga derretida na tosta quente. Somos fogo e água e é nessa vaga de delírio que a nossa espécie acasala e tem filhos. Não é nas quecas por pena controladas ou nas rapidinhas de alívio que os filhos nascem. Muito menos nas violações. Já não é assim. A vida só se gera quando um dos dois diz: “Hoje não vamos foder. Hoje vou fazer-te um filho” e o outro concorda.
É Setembro de 2006 e eu vou casar. O meu vestido de cetim branco veste-me a mim e a ela, à filha que se forma na minha barriga. Estou absolutamente radiante. Não caminho nas nuvens mas sou uma nuvem. Muito em baixo da minha felicidade redonda, as pessoas desejam-me votos e comentam a minha nova gordura. Estou acima de todos os comentários. Sou princesa por um dia, de tiara e vestido longo, sapatinhos maravilhosos forrados e plenos de pedraria.
É Maio de 2014 e eu sou uma mulher divorciada. A minha filha de sete anos corre desalmada à beira-mar. O seu corpo esguio e fino parece um raio de sol. Toda ela brilha e é luz e cor, manhã e vida. Meu firmamento. Olho-a envaidecida e a beleza dela arrebata-me. Tem o olhar dos sábios e o dom da palavra. Em meia dúzia de frases deixa-me estarrecida. Foi sempre assim. Lentamente, aproxima-se de mim e abraça-me. Estreito-a também e agradeço em silêncio o maravilhoso presente que ela foi, é e será.








