terça-feira, 25 de maio de 2010

Mother and child at the beach



Na Ficção Científica existe muito a tendência do diário, talvez porque ficcionamos no futuro, estando nós no presente e, de alguma forma, condicionados pelas memórias que são passado. Assim, muitos autores fazem as suas personagens escrever os citados diários. Dias de um calendário, tão abstractos como os números, ferramentas que a nossa mente criou na ânsia de conseguirmos ter alguma espécie de domínio sobre a natureza, em particular, a nossa.



É Março de 2006 e eu estou apaixonada. Algures nesse Verão estou deitada numa espreguiçadeira e à minha frente existe uma piscina redonda que transborda de água tépida. O homem que amo está sentado, com as pernas mergulhadas na água e fuma um cigarro. Sento-me ao lado dele. Estamos ambos queimados do sol. Pouco depois, sinto que me acaricia a barriga, desejoso de a ver cheia de vida. Em parte é por pirraça dado que existe um grupo do outro lado da piscina que o incomoda e, em outra parte, é por desejo antigo de ter um filho.

Sorrio com estas carícias mais quentes que o próprio sol. Tudo nele é luz. Os olhos parecem salpicados com o próprio pó das estrelas de tão brilhantes que são. Penso que o meu amor é um herói cósmico e envaideço-me com a beleza dele que me arrebata.

À noite dormimos a custo, sem nenhum dos dois querer fechar os olhos. Ficamos tão próximos a acariciarmo-nos, de olhos fixos e brilhantes um para o outro, com um sorriso de deslumbramento mútuo.

A paixão em estado puro é mais forte que dinamite. Tudo dentro de nós explode. Somos um rio desgovernado, lava vulcânica esparramada sobre a montanha, manteiga derretida na tosta quente. Somos fogo e água e é nessa vaga de delírio que a nossa espécie acasala e tem filhos. Não é nas quecas por pena controladas ou nas rapidinhas de alívio que os filhos nascem. Muito menos nas violações. Já não é assim. A vida só se gera quando um dos dois diz: “Hoje não vamos foder. Hoje vou fazer-te um filho” e o outro concorda.

É Setembro de 2006 e eu vou casar. O meu vestido de cetim branco veste-me a mim e a ela, à filha que se forma na minha barriga. Estou absolutamente radiante. Não caminho nas nuvens mas sou uma nuvem. Muito em baixo da minha felicidade redonda, as pessoas desejam-me votos e comentam a minha nova gordura. Estou acima de todos os comentários. Sou princesa por um dia, de tiara e vestido longo, sapatinhos maravilhosos forrados e plenos de pedraria.

É Maio de 2014 e eu sou uma mulher divorciada. A minha filha de sete anos corre desalmada à beira-mar. O seu corpo esguio e fino parece um raio de sol. Toda ela brilha e é luz e cor, manhã e vida. Meu firmamento. Olho-a envaidecida e a beleza dela arrebata-me. Tem o olhar dos sábios e o dom da palavra. Em meia dúzia de frases deixa-me estarrecida. Foi sempre assim. Lentamente, aproxima-se de mim e abraça-me. Estreito-a também e agradeço em silêncio o maravilhoso presente que ela foi, é e será.

domingo, 23 de maio de 2010

Terrível bebé...



Terrível Bebé: gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e t...udo está certo e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e tudo torna ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe na boca os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ser numano, mas é escrito por mim.


Carta de Fernando Pessoa (1888 - 1935) a Ofélia Queiróz

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Gosto da malta do Surf





Uma vez disseram-me que era uma criatura feita de sal e espuma. E eu com uma bisnaga de cola escrevi “Adoro-te” num postal, despejei-lhe areia da praia em cima, virei o dito ao contrário e lá ficaram os devidos grãos colados à declaração afectiva em jeito de resposta. A mim pessoalmente colou-se-me a praia, que é o que mais gosto nesta vida.

Não há nada melhor do que passar o dia ao sol, entre banhos, a conversar com amigos divertidos. Ou a ler. Sempre amei ler na praia. Ou beijar e adormecer com os corpos quentes entrelaçados. Ou comer bolas de Berlim que só sabem bem quando o açúcar delas se mistura com o nosso sal. Ou fazer longas caminhadas pela areia molhada. Ou tirar fotos sempre soberbas em termos de luz. Ou apreciar o próprio som da praia, o som de fundo, aquele que um dia vi ser gravado por um japonês excêntrico, de “vassoura” na mão a recolher conversas e restolhar de ondas como se fossem conchas raras.

E depois há a malta do Surf. Gente bronzeada e atlética. Miúdos giros que vestem roupas coloridas, daquelas marcas que acham o máximo e às quais fazem culto em todas as estações. Gosto da aparência quase hippy de alguns, com os cabelos descolorados e em desalinho. Embora também aprecie os morenos mais sérios, de cabelo curto. Todos com o seu fato escuro de borracha justíssimo, que vestem e despem junto de carrinhas decrépitas com matrículas estrangeiras. Dependendo das praias, a própria paleta de surfistas é bastante variável. Mas são todos giros e jovens e querem montar ondas, cavalgar a prancha e fundir-se no mar.

Se são mesmo praticantes ou apenas curtem a onda, tanto faz. A aparência deles é o máximo. E os puristas são algo loucos. Tal como no Windsurf. Casam e baptizam os rebentos no meio das pranchas e depois perdem-se em trajectos cujas correntes julgam dominar…

É gente aventureira e destemida, sabem mais do mar do que da terra. Vão a campeonatos, fazem grandes amizades, vivem paixões efémeras e, por vezes, sofrem terríveis fatalidades…

O seu apelo é também esse, o da transgressão. Seja ao fato do escritório ou às formalidades do betão. Na praia, deixamos de ser citadinos e passamos a ser todos uma espécie de criaturas feitas de sal e espuma.

E agora que o Verão está a chegar vou rever pela enésima vez o meu Point Break e curtir este espírito indomável dos meus meninos preferidos.

sábado, 15 de maio de 2010

Por favor... morde-me o pescoço


Um dia destes apanhei um táxi com a minha mãe. Trata-se de uma senhora que para indicar uma rua nomeia todas as outras até lá chegar, à medida que indica o percurso pretendido. Vê-se que tem orgulho em conhecer bem a sua cidade. E eu disse-lhe:

- Oh, mãe não baralhe o senhor. Ele vai lá ter. A mãe gosta é de mostrar que sabe o nome das avenidas todas.

- E sei! Moro aqui há muitos anos e conheço tudo isto.

- E a menina não mora? – pergunta o curioso.

- Ah, a minha filha – começa ela, que como todas as mães gostam de responder por nós como se fossemos eternas crianças – morou aqui até aos 36 anos.

Um par de olhos atónitos fixa-me através do espelho retrovisor, enquanto uma paragem algo brusca nos faz estremecer. Era um sinal luminoso mas coincidiu com a surpresa sentida pelo condutor. Tal cena fez-me rir e disse:

- Agora a mãe pôs este senhor a pensar na minha idade.

- Mas é que é isso mesmo! Como é que a menina adivinhou?

- É que eu aparento ser muito mais nova do que sou – expliquei para o tranquilizar. – Na realidade já tenho uns aninhos em cima.

E depois pensei como era aborrecido ter de dizer sempre o mesmo às pessoas: não possuía cremes mágicos, não era dada ao desporto ao ar livre, fumava como se não houvesse um amanhã, vivia sem temer a decrepidez. E a pele lá estava radiosa como um alperce, embora pálida, os olhos inquietos da juventude, o cabelo louro e sedoso, o corpo esbelto e firme sem uma amostra da temível celulite.

A mulher-a-dias, então, espiava-me os produtos todos, na ânsia de encontrar fórmula igual. E eu a esforçar-me todos os dias para parecer normal, humana e quente, com uma mãe e uma criança minha, façanha altamente elogiada dentro da minha comunidade, pois era o mesmo que ter um leitãozinho à mão mas sem o poder nunca trincar.

Telepaticamente, repreendi a minha mãe:

- Agradeço-lhe que não se estique na conversa, caso contrário, terei de o hipnotizar para ele esquecer o que viu e ouviu. E, como sabe, isso exige um grande esforço e eu durmo mal há alguns dias.

Mas a mãe queria sangue. Muito mais ávida do que eu, partia sempre numa atitude de predadora. E antes que a pudesse impedir, escravizou-o num único olhar, daqueles com os quais brinda todos os que a desafiam, ou pura e simplesmente detesta.

O desgraçado encostou o carro num beco escuro e saiu abrindo-nos a porta do meu lado e esticando-se todo para a frente com a jugular a saltar num samba de vida:

- Por favor… morda-me o pescoço – pediu, estendendo-me a mão para me ajudar a sair do carro.

Antes que pudesse exercer algum controle no meu próprio espírito, aquela visão apanhou-me em cheio e os caninos dispararam como navalhas de ponta e mola.

- Vá, banqueteia-te primeiro mas deixa algum para a mamã – ouvi, entre risinhos trocistas.

E depois do snack lá fomos às compras como combinado.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Grazie


Ti amo

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Livros infantis


Tomara que dê certo, PRINCESA :-))))

Sabes...


Sinto-me absolutamente segura contigo!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Estou com borbulhas...




No Dia da Mãe recebi um presente apreensivo: “Ah… apareceram-lhe estas borbulhas e, desta vez, deve ser mesmo varicela”, anunciou-me o avô da minha filha ao entregar-me a criança. O meu botão de pânico interior accionou-se de imediato. Passo seguinte, telefono à minha mãe: “Mais vale agora que mais tarde. Quando vocês eram miúdos não havia remédio nenhum. Dá-lhe paracetamol se tiver temperatura.”

Dou-lhe o quê? Às vezes, quase que me arrependo de ligar a esta senhora. Porque não me disse logo ben-u-ron? Envio uma mensagem a marcar uma consulta de urgência com o médico guru da Constança que já a salvou de toda a espécie de maleita. Nunca me hei-de esquecer do brilharete dele frente ao diabólico eczema quando ela tinha apenas dois meses e meio. Para mim, ele é uma espécie de divindade e eu sigo à letra todos aqueles gatafunhos que me dá, depois de os pespegar no meu frigorífico.

No dia seguinte, lá vamos nós à consulta. Confirmada a varicela, receita-me Zovirax, um gel de banho e uma loção para aplicar após o banho em cada borbulha que encontrar… “E já agora, doutor, uma amiga sugeriu-me banhos com farinha Maizena.” “Também lhe ia falar disso, em caso de grandes coceiras.” E com aquela lanterna dele, aponta-me o céu-da-boca da criança: “Já tem dentro da boca, está a ver?”. E eu vi, embora estivesse ainda a meditar na aplicação individual da loção em cada ponto vermelho quando toda ela estava pior do que uma tela de Seurat.

Uma semana de clausura foi o prognóstico final. Saímos abaladas mas confiantes. Para a Constança é sempre uma vitória desde que ele não lhe ponha o pau na boca. E eu expliquei-lhe pelo caminho que a guerra às borbulhas ia começar e tínhamos fortes hipóteses de as vencer com as nossas novas armas.

É claro que torceu o nariz quando percebeu que os banhos dela iam deixar de ser coloridos. Literalmente. Habituada a banhos azuis ou cor-de-rosa – umas pastilhas efervescentes giríssimas que descobri à venda no LIDL – refilou com a água pardacenta da Maizena. Mas perante uma cana de pesca e os respectivos polvos, peixes e estrelas-do-mar voltou a sorrir e a mergulhar alegremente.

No momento da loção… espalhei-a pelo corpo todo. Acho que não tenho a pachorra da gata borralheira a apanhar as lentilhas do chão. Há tarefas que nem a melhor das mães pode executar com um sorriso benévolo.

De lá para cá, temos pintado, brincado com plasticina e argila, empilhado cubos de madeira, praticamos na bateria novos sons, vestimos e despimos os 300 bebés que ela tem, revemos os clássicos Disney e partilhamos a loção, uma vez que ela acha que eu também devo ter borbulhas e ficar com aquele aspecto menos airoso de pão enfarinhado.

A única cena mais dramática foi quando deparou com uma fotografia minha ao lado do Ricky Martin. Fez uma cena de ciúmes e desatou num pranto inconsolável: “A mamã está com um senhor e eu não gosto!”. Nem sei bem como é que ela me identificou, dado que estava na minha versão ruiva. Mas para o bem da minha sanidade mental, a moldura recolheu a uma gaveta próxima. Aos três anos, a pequena leoa, já mostra a sua garra…