No Dia da Mãe recebi um presente apreensivo: “Ah… apareceram-lhe estas borbulhas e, desta vez, deve ser mesmo varicela”, anunciou-me o avô da minha filha ao entregar-me a criança. O meu botão de pânico interior accionou-se de imediato. Passo seguinte, telefono à minha mãe: “Mais vale agora que mais tarde. Quando vocês eram miúdos não havia remédio nenhum. Dá-lhe paracetamol se tiver temperatura.”
Dou-lhe o quê? Às vezes, quase que me arrependo de ligar a esta senhora. Porque não me disse logo ben-u-ron? Envio uma mensagem a marcar uma consulta de urgência com o médico guru da Constança que já a salvou de toda a espécie de maleita. Nunca me hei-de esquecer do brilharete dele frente ao diabólico eczema quando ela tinha apenas dois meses e meio. Para mim, ele é uma espécie de divindade e eu sigo à letra todos aqueles gatafunhos que me dá, depois de os pespegar no meu frigorífico.
No dia seguinte, lá vamos nós à consulta. Confirmada a varicela, receita-me Zovirax, um gel de banho e uma loção para aplicar após o banho em cada borbulha que encontrar… “E já agora, doutor, uma amiga sugeriu-me banhos com farinha Maizena.” “Também lhe ia falar disso, em caso de grandes coceiras.” E com aquela lanterna dele, aponta-me o céu-da-boca da criança: “Já tem dentro da boca, está a ver?”. E eu vi, embora estivesse ainda a meditar na aplicação individual da loção em cada ponto vermelho quando toda ela estava pior do que uma tela de Seurat.
Uma semana de clausura foi o prognóstico final. Saímos abaladas mas confiantes. Para a Constança é sempre uma vitória desde que ele não lhe ponha o pau na boca. E eu expliquei-lhe pelo caminho que a guerra às borbulhas ia começar e tínhamos fortes hipóteses de as vencer com as nossas novas armas.
É claro que torceu o nariz quando percebeu que os banhos dela iam deixar de ser coloridos. Literalmente. Habituada a banhos azuis ou cor-de-rosa – umas pastilhas efervescentes giríssimas que descobri à venda no LIDL – refilou com a água pardacenta da Maizena. Mas perante uma cana de pesca e os respectivos polvos, peixes e estrelas-do-mar voltou a sorrir e a mergulhar alegremente.
No momento da loção… espalhei-a pelo corpo todo. Acho que não tenho a pachorra da gata borralheira a apanhar as lentilhas do chão. Há tarefas que nem a melhor das mães pode executar com um sorriso benévolo.
De lá para cá, temos pintado, brincado com plasticina e argila, empilhado cubos de madeira, praticamos na bateria novos sons, vestimos e despimos os 300 bebés que ela tem, revemos os clássicos Disney e partilhamos a loção, uma vez que ela acha que eu também devo ter borbulhas e ficar com aquele aspecto menos airoso de pão enfarinhado.
A única cena mais dramática foi quando deparou com uma fotografia minha ao lado do Ricky Martin. Fez uma cena de ciúmes e desatou num pranto inconsolável: “A mamã está com um senhor e eu não gosto!”. Nem sei bem como é que ela me identificou, dado que estava na minha versão ruiva. Mas para o bem da minha sanidade mental, a moldura recolheu a uma gaveta próxima. Aos três anos, a pequena leoa, já mostra a sua garra…


Sem comentários:
Enviar um comentário