Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.
A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
- «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...»
- «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...
Nicolau Tolentino
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Todos os Patinhos
Com a sua personalidade a delinear-se a bebé já tem também gosto musical. Existem músicas que despreza, outras que suporta e, uma em particular, que adora com paixão: a dos patinhos! Mal entra no carro começa a pedir: “patos!”, “patos!” e, assim que esta termina pedincha encores intermináveis. Ou seja, todo o percurso automobilístico passa a ter como música de fundo a brevidade de uma faixa elevada à eternidade on the road…
E eu apercebo-me que deixei de ouvir música. Antes, ouvia em casa, quando escrevia ou arrumava coisas. Também escutava no ginásio ou sempre que conduzia o carro. Mas desde o dia da morte do meu pai – e já na doença dele – fui cortando com a música. É engraçado constatar isso porque, na realidade, é ainda uma forma de luto. Sinto-me demasiado inadaptada para abanar a cabeça ou cantarolar, nessa onda de boa disposição e alegria que a música nos proporciona.
Mas a bebé, alheia aos dramas da vida exige os patinhos e, a eles tem todo o direito. Sinto-me, como mãe, responsável pela felicidade da minha filha. E nada do que me possa afectar a mim deve afectá-la a ela. Separo o coração do cérebro e sigo com as nossas vidas…
Outro prazer da bebé foi a descoberta dos lápis de cor. Risca folhas brancas – porque ainda a consigo impedir de pintar as paredes cá em casa – e diverte-se com os desenhos que lhe faço e que o meu marido diz que são cópias das ilustrações dos livros dela. E daí? O que interessa é que ambas nos divertimos imenso.
Quando ela acorda fá-lo sempre com uma tremenda boa disposição. Sinceramente, acho isso fantástico. Para ela, cada dia é mais um dia de brincadeiras, onde tudo vai correr bem, terá os seus brinquedos para jogar, é inundada de beijinhos, transportada ao colo ou no seu carrinho de princesa, todos lhe ligam e sorriem e ninguém a atraiçoa ou lhe faz mal. A bebé não sofre a não ser que uma constipação lhe entupa o nariz ou uma cólica lhe faça dores de barriga. E neste mundo de bebés onde tudo é uma perfeição tecida na tranquilidade e segurança nós, os pais que vivemos no mundo real, mais cedo ou mais tarde começamos a temer que algo de sinistro trave a felicidade dos nossos filhos.
Um dia, um colega meu confessou-me que nunca iria ter filhos porque não lhes queria dar o nosso mundo louco por herança. Pensei que tal teoria não tinha qualquer fundamento, e que se todos pensássemos assim, então ninguém procriava. Porém, agora que a bebé está cá fora e faz parte da humanidade também eu me inquieto e muito. Basta ver um noticiário para termos a nossa dose de crime e violência. E se ela, um dia, for uma vítima? Quem me garante que a minha filha – que é o meu maior diamante – está a salvo da selvajaria dos assaltantes e violadores? Ou da fatalidade de um acidente de automóvel? Ou da desgraça de uma doença incurável?
Começamos a viver com estes medos e a recear a escuridão que possa vir dos outros. As pessoas boas não andam com uma estrela na testa, caso contrário seria fácil seguir o caminho certo, sem falhar nas escolhas. Porém, é neste mundo tão maravilhoso quanto cruel e sanguinário que nós vivemos. E uma vez que somos pais compete-nos a mais tremenda das tarefas: somos responsáveis pela felicidade dos nossos filhos. Temos de lhes oferecer segurança e cuidar para que nada lhes falte. Fomos nós que decidimos que eles iam nascer e somos nós que velamos por eles até à idade adulta e, quantas vezes, depois dela. Ser pai e mãe não é uma obrigação com princípio, meio e fim mas antes algo que nos transforma até à morte em anjos tutelares e que nos faz questionar se a paciência é ou não é genética :-)
Todo o ouro do mundo não paga os sacrifícios diários que os pais fazem pelos filhos para que estes possam voar mais alto e mais longe. É esse o orgulho de quem é pai ou mãe: tentar proporcionar o melhor do mundo para os seus patinhos. E assim, quando estes baterem asas e procurarem, por sua vez, nidificar, alguma coisa terão aprendido com os seus progenitores. O amor gera o amor.
Todos os Patinhos Versão I
Todos os patinhos acabam de brincar, acabam de brincar,
Os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar,
Os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar.
É que esta hora, é hora de dormir, é hora de ir dormir,
Mas ainda é tempo para uma história ouvir,
Mas ainda é tempo para uma história ouvir.
Pais, mães ou avós à cama lhes vão dar, à cama lhes vão dar
Um beijo de boa noite e a luz apagar e a luz apagar
Todos os Patinhos Versão II
Todos os patinhos
sabem bem nadar (bis)
cabeça para baixo
rabinho para o ar
Quando estão cansados
da água vão sair (bis)
depois em grande fila
p'ró ninho querem ir
Na hora da papa
todos querem comer (bis)
atrás da mamã pata
vão todos a correr
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Onde estás?
Com pouco mais de 18 meses, a bebé já tem um vocabulário cirúrgico. As deixas mais correntes são: “onde estás?”, “luz/ escuro”, “papa”, “bebezinhos”, “bola”, “almofada”, “jardim”, “meninos”, “cão”, “gato” e por aí fora, com muitas das palavras a terminarem em inhos por acréscimo próprio. Assim, o papá ficou pai e, depois, evoluiu para paizinho. Já eu sou mamã e mãe e ponto final. Hum….
O número de birras tem acompanhado os centímetros, ou seja, está maior e mais birrenta do que nunca. É bem disposta mas quando contrariada contorce-se e grita de tal maneira que só me apetece fugir. E está a ficar egoísta como todos os filhos únicos. Tudo é dela e é impensável emprestar roupas e brinquedos seja a quem for. Às vezes, até nos tenta expulsar dos sofás ou da cama: “sai!”, exige, toda autoritária. É de uma pessoa pensar que talvez tenha criado um pequeno monstro… mas de repente sorri e dá beijos inesperados a torto e a direito e com os bracinhos envolve-nos o pescoço e deixa-nos com um xiiiii-coração que nos derrete por inteiro.
Embora rendida ao charme dela ainda guardo na memória os lamentos do meu primo neste Verão. Dizia-me ele que a filha de seis anos o tinha ameaçado: “Se não te portas bem ponho-te num lar”… Fiquei siderada com a tenra pertinácia. Esta nova geração promete enlouquecer-nos.
Foi também no Verão que descobri que a bebé detesta a cor amarela arrancando toda a roupa dessa família que eu lhe vestisse: canário, torrado e tal. Tudo puxado como se lhe queimasse a pele. Não sabia que era possível já ter um gosto assim apurado tão cedo. A minha mulher-a-dias não acreditava e armou-se em campeã, estilo: “comigo ela veste o amarelo e não refila.” Porém, só faltou sair do quarto com um braço ao peito, tal foi a barulheira que se ouviu. Lá concluiu: “Nossa, essa minina já sabe bem o que quer!”.
Às vezes, quando vou a conduzir e a levo atrás sinto choverem-me objectos e lembro-me dos Gremelins transformados numa sala de cinema a atirarem com pipocas e copos de coca-cola, tudo num caos tremendo orquestrado por gargalhadinhas sinistras. É a evolução: não se pode ser um bebé deliciosamente lindo e tranquilo para sempre. Agora, assistimos ao despertar da fera.
Durante o Verão, a bebé passeou o seu balde e pá pela areia molhada, entrou corajosamente nas ondas e mostrou que é de fibra e viciada em água. Fico orgulhosa com esta sua apetência aquática dado que eu também assim era como testemunham as minhas fotos de nadadora precoce.
O seu delírio maior foram os animais que conheceu e os quais, a partir de agora, já é capaz de identificar quando os vê em livros e desenhos animados ou filmes. Animais como as ovelhas, vacas, porcos, galinhas, golfinhos, focas, leões-marinhos, macacos, iguanas e saguins, dando esta lista também uma ideia das férias dela, do campo à praia nada faltou.
Como não podia deixar de ser, eu e o pai dela trouxemos de Espanha o seu novo guarda-roupa de Inverno, tal como no ano passado. Isto por a aldeia do meu sogro ser a 10 minutos da fronteira. Tenho que reconhecer que os espanhóis adoram crianças e sabem tratá-las como autênticas princesas. Têm uma loja imperdível, a “Nanos”. Mas mesmo as mais acessíveis são belíssimas nas peças das suas colecções que não se vêem por cá. O preço anda ela por ela é mesmo uma questão de bom gosto.
E assim envaideço e dou cabo da minha filha que já escolhe, grita e exige. Gostava de a educar o melhor possível e emociono-me muitíssimo quando ela me chama querida. Estamos em pleno processo de educação e, até eles serem maiores há que dobrá-los mas... tudo com muito carinho.
O número de birras tem acompanhado os centímetros, ou seja, está maior e mais birrenta do que nunca. É bem disposta mas quando contrariada contorce-se e grita de tal maneira que só me apetece fugir. E está a ficar egoísta como todos os filhos únicos. Tudo é dela e é impensável emprestar roupas e brinquedos seja a quem for. Às vezes, até nos tenta expulsar dos sofás ou da cama: “sai!”, exige, toda autoritária. É de uma pessoa pensar que talvez tenha criado um pequeno monstro… mas de repente sorri e dá beijos inesperados a torto e a direito e com os bracinhos envolve-nos o pescoço e deixa-nos com um xiiiii-coração que nos derrete por inteiro.
Embora rendida ao charme dela ainda guardo na memória os lamentos do meu primo neste Verão. Dizia-me ele que a filha de seis anos o tinha ameaçado: “Se não te portas bem ponho-te num lar”… Fiquei siderada com a tenra pertinácia. Esta nova geração promete enlouquecer-nos.
Foi também no Verão que descobri que a bebé detesta a cor amarela arrancando toda a roupa dessa família que eu lhe vestisse: canário, torrado e tal. Tudo puxado como se lhe queimasse a pele. Não sabia que era possível já ter um gosto assim apurado tão cedo. A minha mulher-a-dias não acreditava e armou-se em campeã, estilo: “comigo ela veste o amarelo e não refila.” Porém, só faltou sair do quarto com um braço ao peito, tal foi a barulheira que se ouviu. Lá concluiu: “Nossa, essa minina já sabe bem o que quer!”.
Às vezes, quando vou a conduzir e a levo atrás sinto choverem-me objectos e lembro-me dos Gremelins transformados numa sala de cinema a atirarem com pipocas e copos de coca-cola, tudo num caos tremendo orquestrado por gargalhadinhas sinistras. É a evolução: não se pode ser um bebé deliciosamente lindo e tranquilo para sempre. Agora, assistimos ao despertar da fera.
Durante o Verão, a bebé passeou o seu balde e pá pela areia molhada, entrou corajosamente nas ondas e mostrou que é de fibra e viciada em água. Fico orgulhosa com esta sua apetência aquática dado que eu também assim era como testemunham as minhas fotos de nadadora precoce.
O seu delírio maior foram os animais que conheceu e os quais, a partir de agora, já é capaz de identificar quando os vê em livros e desenhos animados ou filmes. Animais como as ovelhas, vacas, porcos, galinhas, golfinhos, focas, leões-marinhos, macacos, iguanas e saguins, dando esta lista também uma ideia das férias dela, do campo à praia nada faltou.
Como não podia deixar de ser, eu e o pai dela trouxemos de Espanha o seu novo guarda-roupa de Inverno, tal como no ano passado. Isto por a aldeia do meu sogro ser a 10 minutos da fronteira. Tenho que reconhecer que os espanhóis adoram crianças e sabem tratá-las como autênticas princesas. Têm uma loja imperdível, a “Nanos”. Mas mesmo as mais acessíveis são belíssimas nas peças das suas colecções que não se vêem por cá. O preço anda ela por ela é mesmo uma questão de bom gosto.
E assim envaideço e dou cabo da minha filha que já escolhe, grita e exige. Gostava de a educar o melhor possível e emociono-me muitíssimo quando ela me chama querida. Estamos em pleno processo de educação e, até eles serem maiores há que dobrá-los mas... tudo com muito carinho.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Acabou a tua agonia, Papá
Fevereiro, Março e Abril são meses para esquecer. Vivi os dias mais negros e tristes da minha vida. No dia 29 de Abril partiste, papá. A tua dor acabou. Foi horrível ver-te em agonia e o meu único consolo é saber que já não agitas os braços numa tentativa de arrancares tubos, já não tens dificuldade em respirar, já não tens a ansiedade, a garganta seca e o desespero que te tomaram por inteiro e te asfixiaram por fim.
Partiste, papá e eu sinto-me mais só do que nunca e tão triste e com tanta dor física e um aperto mental tão grande que sempre que me lembro que não te tenho é como se sofresse choque eléctrico após choque eléctrico.
A dor é constante e a saudade eterna. Não por teres sido apenas meu pai mas por teres sido um pai meigo, querido, amigo, que gostava de dar e receber miminhos, a pessoa mais terna e doce que conheci até hoje. Dói-me mais por te ter sido predilecta e tratada com tanto amor e ternura por ti. As minhas mãos encerram os mil beijos que me deste, o meu coração é ocupado por ti, a minha memória nunca te esquecerá e eu sou quem sou graças a ti.
Gosto de te imaginar no Céu entre os nossos entes queridos que também já partiram, em particular os avós, o tio e os primos. Gosto de pensar que o teu espírito deixou este invólucro terreno e agora corre solto por dimensões alegres e boas. Dizem que é assim, que as pessoas boas quando morrem vão para o Céu. E assusta-me imaginar-te perdido ou sozinho preso num desses pesadelos horríveis que às vezes tínhamos.
Sabes, papá, nunca mais consegui sonhar contigo e isso mata-me. Eu que sonho tanto e milhares de vezes sonhei contigo agora estou bloqueada e nem aí me é permitido ver-te. Durmo abraçada à tua almofada e só assim durmo.
Eu sei que vou encontrar-te. Sempre fui óptima a descobrir-te as coisas: papéis desaparecidos, objectos perdidos, tudo o que me pedisses para encontrar na bagunça do teu escritório eu achava-te. E vou reconhecer-te no Céu e correr para os teus braços. PROMETO-TE. Sinto-te em mim, dentro deste coração que ainda bate e sei, do fundo do meu ser, que um dia, vou vasculhar esse Céu à tua procura e nem que passe por oceanos e oceanos de espíritos eu saberei quem tu és e não descansarei até te reencontrar.
Tenho recebido muitos beijos e palavras de conforto. Às vezes penso se também terás sido recebido com uma chuva de beijos. Eu sei que tiveste tanto medo mas agora quero acreditar que estás bem. Intercede por mim e pela bebé e nós oramos por ti. Um dia vamos estar juntos e tu daí, do Céu, vais ver a bebé transformar-se numa bela mulher. No dia do teu funeral, 1 de Maio, a querida deu os seus primeiros oito passos seguidos. Já deve ter sido o teu espírito a segredar-lhe para não ter medo de andar. Se calhar deste-lhe a mão e ajudaste-a e ninguém te viu.
Prometo-te papá que viverás sempre através de mim e que a única neta que chegaste a ver saberá quem foi o avô e amará e respeitará a tua memória, assim como eu amo e respeito a dos meus avós que pouco ou nada conheci.
A vida é dura e é uma graça. Disse o senhor padre na tua homília: “Ninguém pede para nascer, a vida é uma graça de Deus, um dom que Ele nos dá.” Mas também ninguém pede para morrer ou para sofrer a dor provocada pela perda de quem amamos. A vida é assim um presente envenenado. É dada mas retirada. A morte é um mistério. A vida é uma graça e a morte um mistério. Nunca gostei muito destas definições religiosas. Não sei o que é a morte mas agora tenho-lhe menos medo. Ganhou um novo atractivo: o poder abraçar-te de novo. Espera por mim, papá.
Stop all the clocks
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.
W.H. Auden
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.
W.H. Auden
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Mamã, mamã
“Mamã, mamã/ Onde estás tu mamã? / Nós sem ti não sabemos, mamã / libertar-nos do mal.” Embora a bebé nunca tenha ouvido a Canção de Lisboa ela entoa alegremente a palavra MAMÃ, a sua primeira palavra, o que muito naturalmente me enche de ORGULHO.
Quando é que a bebé diz mamã? Sempre que me vê, é certo, em alturas de grande aflição, também, quando lhe faço mimos e, se pensar bem, em momentos incertos, vários vezes ao dia, quase em tom de campanha eleitoral: Mamã, mamã, mamã. Assim, repetidas vezes como se eu fosse a votos. É um amor este bebé.
Aos catorze meses, para além de mamã, diz também algo que soa a “já está” e quanto a reportório falado ficamos por aqui.
Tem a boca cheia de dentes como refere, babada, a minha mulher-a-dias e baby-sitter involuntária. À frente, atrás, é um delírio de dentição. E quando ri mostra aqueles dentinhos doces e brancos, tão pequeninos, dentes de leite que um dia uma fada virá reclamar.
Quando olho para a bebé e me derreto penso que se eu sou o mundo dela ela é o meu. Respiro nela, alimento-me nela, rejuvenesço nela e nesses mergulhos totais faço por esquecer a angústia que é saber que em breve não terei mais o meu pai.
Ontem massajei-lhe as pernas que já acusam muita dormência e inventei uma série de exercícios. Ele disse-me que eu podia ser uma boa fisioterapeuta e, nesse momento, estava contente. Depois, chegou um cadeirão, daqueles com comando e mil posições. Esteve lá sentado pouco mais de meia hora. Queixou-se de dores e voltou para a cama/cela. Depois, com as lágrimas nos olhos confidenciou-me: “Só hoje tive a certeza de que estou um farrapo humano, um verdadeiro trapo e que vou ser assim para o resto da minha vida que espero seja curta.” Repreendi-o como se faz a uma criança. Disse-lhe que não o queria ouvir falar assim mas também eu já tinha a voz embargada e tive de sair do quarto com a desculpa de ir buscar água.
Para o meu pai, o tempo é vagaroso e custa muito a passar. Está sempre a olhar para o relógio. Desconfia dos dias. Acha que o enganamos. Para ficar mais tranquilo deixei-lhe na mesa-de-cabeceira o seu querido Borda d’Água, uma velha publicação que sempre comprou e apreciou. Acho que vai passar a marcar os dias com uma esferográfica.
Custa-me muito vê-lo assim, como uma candeia que todos os dias se apaga um pouco mais. Lamento a minha mãe que tanto se esforça por minimizar-lhe a dor e que emagrece de desgosto. Às vezes, o meu pai é agressivo com ela e faz mais birras. Penso que é uma questão de proximidade.
O olhar do meu pai é uma novidade para mim. É alegre e triste ao mesmo tempo. Ausente e presente. É um olhar novo que veio com a doença. Tudo começou com uma dor, dor essa que nunca mais o abandonou e que só quando está na posição de deitado o deixa mais em paz. Ele também já me disse que percebeu que essa dor nunca mais o iria largar. Se essa dor tivesse forma eu dava-lhe dois sopapos.
Como tudo na vida aquilo que mais nos magoa é o que não conseguimos ver mas só sentir. Estilo o filme de terror clássico: nada se vê, todo o horror se depreende, invade-nos o calafrio, percorre-nos o arrepio na nuca mas não está ali nada. Aborrece-me que o medo não tenha cara para lhe cuspir em cima.
Quando é que a bebé diz mamã? Sempre que me vê, é certo, em alturas de grande aflição, também, quando lhe faço mimos e, se pensar bem, em momentos incertos, vários vezes ao dia, quase em tom de campanha eleitoral: Mamã, mamã, mamã. Assim, repetidas vezes como se eu fosse a votos. É um amor este bebé.
Aos catorze meses, para além de mamã, diz também algo que soa a “já está” e quanto a reportório falado ficamos por aqui.
Tem a boca cheia de dentes como refere, babada, a minha mulher-a-dias e baby-sitter involuntária. À frente, atrás, é um delírio de dentição. E quando ri mostra aqueles dentinhos doces e brancos, tão pequeninos, dentes de leite que um dia uma fada virá reclamar.
Quando olho para a bebé e me derreto penso que se eu sou o mundo dela ela é o meu. Respiro nela, alimento-me nela, rejuvenesço nela e nesses mergulhos totais faço por esquecer a angústia que é saber que em breve não terei mais o meu pai.
Ontem massajei-lhe as pernas que já acusam muita dormência e inventei uma série de exercícios. Ele disse-me que eu podia ser uma boa fisioterapeuta e, nesse momento, estava contente. Depois, chegou um cadeirão, daqueles com comando e mil posições. Esteve lá sentado pouco mais de meia hora. Queixou-se de dores e voltou para a cama/cela. Depois, com as lágrimas nos olhos confidenciou-me: “Só hoje tive a certeza de que estou um farrapo humano, um verdadeiro trapo e que vou ser assim para o resto da minha vida que espero seja curta.” Repreendi-o como se faz a uma criança. Disse-lhe que não o queria ouvir falar assim mas também eu já tinha a voz embargada e tive de sair do quarto com a desculpa de ir buscar água.
Para o meu pai, o tempo é vagaroso e custa muito a passar. Está sempre a olhar para o relógio. Desconfia dos dias. Acha que o enganamos. Para ficar mais tranquilo deixei-lhe na mesa-de-cabeceira o seu querido Borda d’Água, uma velha publicação que sempre comprou e apreciou. Acho que vai passar a marcar os dias com uma esferográfica.
Custa-me muito vê-lo assim, como uma candeia que todos os dias se apaga um pouco mais. Lamento a minha mãe que tanto se esforça por minimizar-lhe a dor e que emagrece de desgosto. Às vezes, o meu pai é agressivo com ela e faz mais birras. Penso que é uma questão de proximidade.
O olhar do meu pai é uma novidade para mim. É alegre e triste ao mesmo tempo. Ausente e presente. É um olhar novo que veio com a doença. Tudo começou com uma dor, dor essa que nunca mais o abandonou e que só quando está na posição de deitado o deixa mais em paz. Ele também já me disse que percebeu que essa dor nunca mais o iria largar. Se essa dor tivesse forma eu dava-lhe dois sopapos.
Como tudo na vida aquilo que mais nos magoa é o que não conseguimos ver mas só sentir. Estilo o filme de terror clássico: nada se vê, todo o horror se depreende, invade-nos o calafrio, percorre-nos o arrepio na nuca mas não está ali nada. Aborrece-me que o medo não tenha cara para lhe cuspir em cima.
terça-feira, 8 de abril de 2008
Um raio de luz
Foi assim de repente, de repente como tudo acontece. Havia sido diagnosticado há já vários anos um cancro na próstata ao meu pai. Em consequência foi seguido, medicado e os níveis de PSA sempre vigiados. Os médicos diziam que um homem na idade do meu pai podia morrer de muita coisa mas não do cancro em si. O meu pai tem 86 anos e inúmeras vezes – para seu desagrado – era tomado por meu avô. Casou tarde com uma brasa vinte anos mais nova. E nascemos três, sendo eu a primogénita e única menina.
Não suporto que me digam que o meu pai já viveu muito. Uma avó de uma amiga minha tem 93 anos e ainda anda aí para as curvas. Para além disso sabemos que idade nunca foi critério para morrer. E não existe ninguém neste mundo que em seu perfeito juízo deseje morrer. Mais: apesar de sabermos que toda a vida é uma espécie de presente envenenado porque a morte nos espera não imaginamos que a nossa seja uma realidade inevitável. Isto é, não imaginamos o pesadelo que é ser um paciente com uma doença terminal preso a uma cama. Preferimos pensar que o nosso momento será rápido e indolor.
Os amigos não sabem o que fazer ou dizer. Muitos não querem atrapalhar. Outros têm os seus próprios medos. A verdade é que a conversa da morte não é um tema interessante. Ela torna-se a palavra proibida da própria vida e esquecemos esse assunto para podermos seguir em frente e achar que tudo vale a pena. E vale. Porque se aproveitarmos a vida, se a vivermos em pleno partimos de papo cheio e tranquilizamos os que ficam, os nossos queridos, aqueles que irão sofrer e chorar a perda.
Intimida a morte. Na universidade fiz uma tese intitulada “Sexo, Sida e Morte”. Quando a finalizei a minha sensibilidade era tal que chorava por tudo e por nada e a minha mãe teve de se impor e não me deixar contactar com mais doentes.
Hoje, o doente moribundo é a pessoa que mais me vai custar perder. Aquela que eu dava a própria vida para não ver partir. Nada me vale o meu posicionamento aberto ao longo dos anos, o da aceitação da ordem natural das coisas, o existencialismo que tanto me apaixonou, todas as ideias e credos. Na verdade, estou apavorada. O medo da morte tomou-me de assalto e eu adorava ser mexicana para pensar de um modo diferente mas não tenho o sangue sul-americano que faz do dia dos mortos uma festa memorável.
Na minha cultura a morte é tabu. É o fim absoluto. Não se fazem oferendas de açúcar. Chora-se e esquece-se. Por isso, os nossos cemitérios estão vazios de vivos e os jazigos abandonados…
Recomecei a rezar há uns quatro anos atrás quando o meu pai foi internado com um edema da glota e a minha mãe apareceu vinda de um corredor hospitalar com toda a roupa dele e pertences num saco de plástico. Supliquei a Deus para não o levar. E o meu pai salvou-se. Mas hoje é diferente. Sei que não há oração que o traga de volta e já o tenho como uma espécie de clone do que era. Porém, não me consigo revoltar contra Deus. Pelo contrário. Desde que recomecei a falar com Ele que lhe agradeço todos os dias as inúmeras graças que me concede: pais maravilhosos, uma vida boa, saúde, criatividade e tudo o mais que tenho. Em especial, não me canso de lhe agradecer ter-me dado um marido que, apesar de já termos passado por vários e graves problemas é um homem que eu amo muito, me apoia e é super carinhoso. Sem ele, creio que já tinha endoidado de vez. E através dele eu tive a bebé, o meu amor que me sustém. Por eles convenço-me de que não posso ir abaixo e desistir. E pela minha mãe também.
E assim, a bebé e o meu pai são o Alfa e o Ômega. O princípio e o fim. Quando ajudo a minha mãe a trocar a fralda do meu pai, quando tento que o meu pai coma a sopa de legumes triturada que lhe dou lentamente com uma colher, quando o limpamos com toalhetes e o beijamos muito muito eu penso que é tudo igual ao que eu faço com a bebé. Surpreende-me este ciclo onde tudo termina como começa completando a famosa roda da vida de que as pessoas dadas à espiritualidade tanto falam.
Sempre que estou com o meu pai faço-o rir e brinco com ele. Soam-me duras as palavras da médica: “O seu pai tem menos de um mês de vida.” Ela é fria porque já perdeu ambos os pais com cancro. Diz as coisas mesmo assim: “Ele está a fazer uma compressão medular e vai ficar paralisado da cintura para baixo”, ou “um edema pulmonar era o melhor que lhe podia acontecer.” Às vezes, apetece-me dar-lhe um tiro...
Só Deus sabe o tempo que o meu pai tem. Só Deus. E por isso eu agora rezo diferente e peço só para que não o faça sofrer e ele reencontre os nossos no céu porque o meu pai detesta estar sozinho e desde criança tem medo do escuro.
Esse meu pai que está acamado e cheio de dores, que já delirou com morfina e se queixou de sentir que estava partido pela espinha hoje despediu-se de mim assim: “Eu sei, querida, que agora tens a tua casa, o teu marido e a tua filha mas sempre que me vens visitar é um raio de luz que entra nesta casa.” E eu que nunca choro à frente do meu pai quase quebrei. Guardei as minhas lágrimas para a noite e pensei que também eu tinha a minha luzinha, a única neta que o meu pai ainda viu e que quando o visita é um anjo irrequieto à cabeceira dele mas fá-lo feliz.
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