domingo, 23 de maio de 2010

Terrível bebé...



Terrível Bebé: gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e t...udo está certo e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e tudo torna ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe na boca os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ser numano, mas é escrito por mim.


Carta de Fernando Pessoa (1888 - 1935) a Ofélia Queiróz

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Gosto da malta do Surf





Uma vez disseram-me que era uma criatura feita de sal e espuma. E eu com uma bisnaga de cola escrevi “Adoro-te” num postal, despejei-lhe areia da praia em cima, virei o dito ao contrário e lá ficaram os devidos grãos colados à declaração afectiva em jeito de resposta. A mim pessoalmente colou-se-me a praia, que é o que mais gosto nesta vida.

Não há nada melhor do que passar o dia ao sol, entre banhos, a conversar com amigos divertidos. Ou a ler. Sempre amei ler na praia. Ou beijar e adormecer com os corpos quentes entrelaçados. Ou comer bolas de Berlim que só sabem bem quando o açúcar delas se mistura com o nosso sal. Ou fazer longas caminhadas pela areia molhada. Ou tirar fotos sempre soberbas em termos de luz. Ou apreciar o próprio som da praia, o som de fundo, aquele que um dia vi ser gravado por um japonês excêntrico, de “vassoura” na mão a recolher conversas e restolhar de ondas como se fossem conchas raras.

E depois há a malta do Surf. Gente bronzeada e atlética. Miúdos giros que vestem roupas coloridas, daquelas marcas que acham o máximo e às quais fazem culto em todas as estações. Gosto da aparência quase hippy de alguns, com os cabelos descolorados e em desalinho. Embora também aprecie os morenos mais sérios, de cabelo curto. Todos com o seu fato escuro de borracha justíssimo, que vestem e despem junto de carrinhas decrépitas com matrículas estrangeiras. Dependendo das praias, a própria paleta de surfistas é bastante variável. Mas são todos giros e jovens e querem montar ondas, cavalgar a prancha e fundir-se no mar.

Se são mesmo praticantes ou apenas curtem a onda, tanto faz. A aparência deles é o máximo. E os puristas são algo loucos. Tal como no Windsurf. Casam e baptizam os rebentos no meio das pranchas e depois perdem-se em trajectos cujas correntes julgam dominar…

É gente aventureira e destemida, sabem mais do mar do que da terra. Vão a campeonatos, fazem grandes amizades, vivem paixões efémeras e, por vezes, sofrem terríveis fatalidades…

O seu apelo é também esse, o da transgressão. Seja ao fato do escritório ou às formalidades do betão. Na praia, deixamos de ser citadinos e passamos a ser todos uma espécie de criaturas feitas de sal e espuma.

E agora que o Verão está a chegar vou rever pela enésima vez o meu Point Break e curtir este espírito indomável dos meus meninos preferidos.

sábado, 15 de maio de 2010

Por favor... morde-me o pescoço


Um dia destes apanhei um táxi com a minha mãe. Trata-se de uma senhora que para indicar uma rua nomeia todas as outras até lá chegar, à medida que indica o percurso pretendido. Vê-se que tem orgulho em conhecer bem a sua cidade. E eu disse-lhe:

- Oh, mãe não baralhe o senhor. Ele vai lá ter. A mãe gosta é de mostrar que sabe o nome das avenidas todas.

- E sei! Moro aqui há muitos anos e conheço tudo isto.

- E a menina não mora? – pergunta o curioso.

- Ah, a minha filha – começa ela, que como todas as mães gostam de responder por nós como se fossemos eternas crianças – morou aqui até aos 36 anos.

Um par de olhos atónitos fixa-me através do espelho retrovisor, enquanto uma paragem algo brusca nos faz estremecer. Era um sinal luminoso mas coincidiu com a surpresa sentida pelo condutor. Tal cena fez-me rir e disse:

- Agora a mãe pôs este senhor a pensar na minha idade.

- Mas é que é isso mesmo! Como é que a menina adivinhou?

- É que eu aparento ser muito mais nova do que sou – expliquei para o tranquilizar. – Na realidade já tenho uns aninhos em cima.

E depois pensei como era aborrecido ter de dizer sempre o mesmo às pessoas: não possuía cremes mágicos, não era dada ao desporto ao ar livre, fumava como se não houvesse um amanhã, vivia sem temer a decrepidez. E a pele lá estava radiosa como um alperce, embora pálida, os olhos inquietos da juventude, o cabelo louro e sedoso, o corpo esbelto e firme sem uma amostra da temível celulite.

A mulher-a-dias, então, espiava-me os produtos todos, na ânsia de encontrar fórmula igual. E eu a esforçar-me todos os dias para parecer normal, humana e quente, com uma mãe e uma criança minha, façanha altamente elogiada dentro da minha comunidade, pois era o mesmo que ter um leitãozinho à mão mas sem o poder nunca trincar.

Telepaticamente, repreendi a minha mãe:

- Agradeço-lhe que não se estique na conversa, caso contrário, terei de o hipnotizar para ele esquecer o que viu e ouviu. E, como sabe, isso exige um grande esforço e eu durmo mal há alguns dias.

Mas a mãe queria sangue. Muito mais ávida do que eu, partia sempre numa atitude de predadora. E antes que a pudesse impedir, escravizou-o num único olhar, daqueles com os quais brinda todos os que a desafiam, ou pura e simplesmente detesta.

O desgraçado encostou o carro num beco escuro e saiu abrindo-nos a porta do meu lado e esticando-se todo para a frente com a jugular a saltar num samba de vida:

- Por favor… morda-me o pescoço – pediu, estendendo-me a mão para me ajudar a sair do carro.

Antes que pudesse exercer algum controle no meu próprio espírito, aquela visão apanhou-me em cheio e os caninos dispararam como navalhas de ponta e mola.

- Vá, banqueteia-te primeiro mas deixa algum para a mamã – ouvi, entre risinhos trocistas.

E depois do snack lá fomos às compras como combinado.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Grazie


Ti amo

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Livros infantis


Tomara que dê certo, PRINCESA :-))))

Sabes...


Sinto-me absolutamente segura contigo!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Estou com borbulhas...




No Dia da Mãe recebi um presente apreensivo: “Ah… apareceram-lhe estas borbulhas e, desta vez, deve ser mesmo varicela”, anunciou-me o avô da minha filha ao entregar-me a criança. O meu botão de pânico interior accionou-se de imediato. Passo seguinte, telefono à minha mãe: “Mais vale agora que mais tarde. Quando vocês eram miúdos não havia remédio nenhum. Dá-lhe paracetamol se tiver temperatura.”

Dou-lhe o quê? Às vezes, quase que me arrependo de ligar a esta senhora. Porque não me disse logo ben-u-ron? Envio uma mensagem a marcar uma consulta de urgência com o médico guru da Constança que já a salvou de toda a espécie de maleita. Nunca me hei-de esquecer do brilharete dele frente ao diabólico eczema quando ela tinha apenas dois meses e meio. Para mim, ele é uma espécie de divindade e eu sigo à letra todos aqueles gatafunhos que me dá, depois de os pespegar no meu frigorífico.

No dia seguinte, lá vamos nós à consulta. Confirmada a varicela, receita-me Zovirax, um gel de banho e uma loção para aplicar após o banho em cada borbulha que encontrar… “E já agora, doutor, uma amiga sugeriu-me banhos com farinha Maizena.” “Também lhe ia falar disso, em caso de grandes coceiras.” E com aquela lanterna dele, aponta-me o céu-da-boca da criança: “Já tem dentro da boca, está a ver?”. E eu vi, embora estivesse ainda a meditar na aplicação individual da loção em cada ponto vermelho quando toda ela estava pior do que uma tela de Seurat.

Uma semana de clausura foi o prognóstico final. Saímos abaladas mas confiantes. Para a Constança é sempre uma vitória desde que ele não lhe ponha o pau na boca. E eu expliquei-lhe pelo caminho que a guerra às borbulhas ia começar e tínhamos fortes hipóteses de as vencer com as nossas novas armas.

É claro que torceu o nariz quando percebeu que os banhos dela iam deixar de ser coloridos. Literalmente. Habituada a banhos azuis ou cor-de-rosa – umas pastilhas efervescentes giríssimas que descobri à venda no LIDL – refilou com a água pardacenta da Maizena. Mas perante uma cana de pesca e os respectivos polvos, peixes e estrelas-do-mar voltou a sorrir e a mergulhar alegremente.

No momento da loção… espalhei-a pelo corpo todo. Acho que não tenho a pachorra da gata borralheira a apanhar as lentilhas do chão. Há tarefas que nem a melhor das mães pode executar com um sorriso benévolo.

De lá para cá, temos pintado, brincado com plasticina e argila, empilhado cubos de madeira, praticamos na bateria novos sons, vestimos e despimos os 300 bebés que ela tem, revemos os clássicos Disney e partilhamos a loção, uma vez que ela acha que eu também devo ter borbulhas e ficar com aquele aspecto menos airoso de pão enfarinhado.

A única cena mais dramática foi quando deparou com uma fotografia minha ao lado do Ricky Martin. Fez uma cena de ciúmes e desatou num pranto inconsolável: “A mamã está com um senhor e eu não gosto!”. Nem sei bem como é que ela me identificou, dado que estava na minha versão ruiva. Mas para o bem da minha sanidade mental, a moldura recolheu a uma gaveta próxima. Aos três anos, a pequena leoa, já mostra a sua garra…