terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Casar antes dos 15


Quando andava na faculdade, um colega meu ridicularizou-me por eu me assumir como feminista. Considerava ele que era uma batalha dos anos 70, já ganha pela sociedade e, como tal, totalmente anacrónica. Acusou-me de segurar uma bandeira absurda e até me provocou com a famosa queima de soutiens no parque Eduardo VII. Mandei-o pastar, claro, sem sequer me incendiar ao ponto de puxar por argumentos justificativos. Lembro-me de lhe ter respondido algo simples, antes de lhe ter virado as costas: “Enquanto no mundo existirem mulheres a serem discriminadas pelo facto de serem mulheres a bandeira do feminismo mantém-se bem erguida e firme. Não é apenas a nossa sociedade ocidental que conta e, até na nossa, as disparidades continuam.”
Na realidade, tanto esse meu colega como muitos homens crêem não só que o feminismo é ultrapassado como deliram com as imagens das feministas, para eles mulheres feias, lésbicas, frustradas e sem uma ponta de interesse. Não aceitam que uma mulher possa ser feminina e feminista, heterossexual e feminista, giríssima de fazer parar o trânsito e feminista. Pois, de facto, esses homens estão enganados. Graças a Deus, existem no mundo inteiro mulheres muito diferentes umas das outras mas unidas na mesma luta, uma irmandade mergulhada no mesmo credo: a dos direitos das mulheres seja em que nação for. E essas mulheres são lindas por dentro e por fora e eu orgulho-me de ser uma delas.
Dizem que em África nasceu o primeiro homem. Se esse continente é o berço da humanidade é também o da bestialidade. Os actos mais selvagens e vis são perpetrados contra as mulheres. E o pior é que a lei não pode fazer nada. A questão é cultural: a menina é um fardo para os pais e a virgindade sagrada para os esposos. Logo, temos negócio. Na Etiópia, apesar de os casamentos terem sido proibidos com meninas menores de 18 anos, desde 1995, todos ignoram o decreto. As crianças etíopes casam com homens muito mais velhos a partir dos dez anos adiante. O que seria considerado pedofilia nas nossas sociedades é uma questão culturalmente aceite naquela região.
O problema é que essas crianças não só perdem o direito de serem crianças como ganham uma carga de trabalhos domésticos e praticam relações sexuais antes do tempo. O resultado é uma taxa elevada de mortalidade materna, imensos partos prematuros e uma grande vulnerabilidade a infecções sexualmente transmitidas, entre elas a sida. Para mais, estas meninas desenvolvem uma fístula, ruptura entre a bexiga e a vagina que as faz perder o controlo da urina e, como tal, passam a ser rejeitadas. O cheiro delas deve ser insuportável mas o que lhes fazem nem sequer tem nome… Não é de admirar que o hospital Addis-Abeba, na capital, realize a operação a título gratuito. No fundo, é um gesto de misericórdia de um país que não consegue impor a própria lei.
Factos: todos os anos, devido a um número infinito de partos, 8 000 raparigas desenvolvem esta fístula. É na Etiópia que existe a taxa de casamentos de crianças mais elevada no mundo: 74 por cento das meninas casam antes dos 15 anos. A combater esta situação cultural existe o projecto Berhane Hewan, financiado pelas Nações Unidas. Procura-se informar a população dos riscos destes casamentos precoces. A UNICEF também leva a cabo uma série de ateliers de sensibilização. Mas a verdade é que esta prática já proibida há mais de dez anos nem sequer é reprimida. Na Etiópia, as crianças do sexo feminino não têm direito a uma vida feliz. São violadas por homens bem mais velhos que, por ironia, são os maridos delas. São rasgadas e atiradas para a sarjeta. Até um hospital se apiedar delas…
Em África, a excisão clitoriana é outra prática ignóbil levada a cabo por “questões culturais”. Extirpa-se o clitóris porque é uma tradição muito antiga. Na Índia, as mulheres são tratadas abaixo de cão. Se não têm dote ninguém lhes pega. Quando os maridos se cansam delas queimam-nas e inventam acidentes domésticos do estilo foi uma explosão no fogão. Outros preferem atirar-lhes à cara ácido sulfúrico. Na Índia, oferecem-se meninas aos turistas. Mas na China a rejeição dos bebés do sexo feminino é igual ou pior. Antes, na Idade Média, os chineses aproveitavam as cheias para largar estas bebés que levadas pela corrente morriam afogadas. A verdadeira “muralha” da China é feita de sangue e ossos e separa qualquer pessoa lúcida da selvajaria cultural aí praticada, tanto no passado como hoje, com as suas salas de morte, repletas de camas de bebés meninas que ninguém quer adoptar.
São tantas as atrocidades que difícil é não querer ver o que se passa. Ainda bem que não nascemos mulheres nestes países e que culturalmente aprendemos a amar os nossos filhos meninos ou meninas. Ainda bem que somos todos iguais mas uns são mais estúpidos e primitivos do que outros. Ainda bem que tenho um clitóris, não acho possível viver sem ele. Que sorte a minha filha não ter nascido na Etiópia, caso contrário, aos dez anos já estava a ter relações sexuais e, depois, teria fatalmente uma horrenda pústula. Que agradável é estar do lado de cá, onde nada destas farpas nos podem atingir. Mas o mundo não é só o meu país. Posso ficar neutra quando as minhas irmãs sofrem? Cruzo os braços só porque já estou dentro do bote e os outros que se afundem? Cabe a todos nós fazermos algo dentro das nossas possibilidades. Não podemos fingir que nada disto não nos afecta. Eu tenho uma filha e é neste planeta que ela vai viver. Gostava tanto que o mundo fosse um sítio melhor.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Só hoje


Hoje porque é dia do meu aniversário vou viajar até uma ilha deserta e paradisíaca e banhar-me em águas cristalinas. Vou descobrir um lago fantástico com muitas flores aquáticas à superfície, cujas pétalas abrem e fecham graciosamente como se de pestanas se tratassem. Apanhar sol e deliciar-me com sumos naturais. Vou esquecer que sou a rainha da nicotina e gozar o ar puro e salgado da brisa marítima. Vou descobrir criaturas novas que me irão encantar com danças e cânticos. Depois, como num sonho incongruente, aparece-me um massagista lindíssimo e musculado que irá fazer o meu corpo sentir-se descontraído e tão leve como as próprias folhas que se despegam dos ramos.
Irei usar o mais belo dos vestidos e cinco crianças dos cinco continentes irão cirandar à minha volta convencidos de que sou uma princesa por causa da minha bela tiara de diamantes. São elas que me guiarão para uma sala quase indescritível, de painéis de âmbar russos e uma opulenta mesa de muitos metros plenos de iguarias. Não existem cadeiras nem convidados. Só as cinco crianças. A primeira dar-me-á uma taça de morangos tão saborosos e explosivos na minha boca, cujo suco tingirá os meus lábios de vermelho. Dir-me-á com uma expressão única: “Pelo sangue que perdeste.”
A segunda avança destemida com um jarro de ambrósia e avisa-me: “Por que os deuses estão de olho em ti e a tua missão, embora penses o contrário, ainda não acabou.”
A terceira olha-me nos olhos e enfia-me na boca pedaços inteiros de melancia. Ao mesmo tempo recorda-me: “O sumo da vida é o sexo. Não te deixes secar como uma velha carcaça. Sê superior a tudo o que te enfraquece e humilha. Goza a humidade das mulheres.”
A quarta pulveriza-me com chocolate e ri: “Para não perderes a tua ironia, a forma gulosa de devorares a vida, a tua doçura única, esses teus pensamentos racionais estimulados para sempre. Para não desistires.”
E eu lembro-me das barras de chocolate que os soldados levam com eles, perdidos nos bolsos, quando partem para a guerra... Por fim, a quinta miúda avança para mim com uma cesta de ovos, laranjas e um jarro de leite: “Para que nunca deixes de abrir o que gostas mesmo desconhecendo a qualidade do interior, para que tenhas um pomar perfumado sempre que abrires mais uma janela e para que abundem no céu da tua imaginação vias sem limites. A tua estrela da sorte ainda não se fragmentou. Sê forte, imaginativa, fértil, ousada e não deixes de espremer o sumo da vida. Sê ávida.”
As crianças riem à minha volta, puxam-me pelas mãos e depois desaparecem em fila indiana, após terem feito mil profecias e desejos. Fico a vê-las partirem, enquanto o meu sumptuoso vestido desaparece e fico nua numa paisagem amena de areia e mar.
Uma mulher aproxima-se segura do seu passo, com longos cabelos e olhos negros, um rosto de traços perfeitos. Quando chega perto de mim toma-me nos braços e embala-me docemente: “Quiduxinha”, murmura embevecida. Sinto-lhe o cheiro, reconheço-lhe a voz e deixo-me adormecer nos braços inconfundíveis da minha mãe que tanto adoro.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Divas e cowboys


Nos dias de maior frio aquecíamos as mãos em canecas de chocolate quente, lembras-te? Mas não querias que eu bebesse chocolate. Preferias chá ou café. Achavas-me infantil por preferir a doçura do cacau… E contudo, sempre foste feita de preconceitos. Dizias que só as pessoas básicas viviam em apartamentos e as outras, de bem, possuíam uma vivenda. Assim era com os teus pais, na cottage deles, de telhado de colmo, comme il faut, e vigas escuras de madeira a cortarem o tecto em rectas compridas e escuras à boa maneira inglesa.
I’m a town woman, resmungavas orgulhosa dos teus feitos: conduzir um citroën dois cavalos cor de laranja descapotável e conseguindo a proeza de fumar ao mesmo tempo – uma vez, íamos atropelando um ciclista… – beber cubas libres em bares onde nos deixassem entrar, etc. Foste tu que com as tuas manias estilizadas me ensinaste a pegar num cigarro. Desde aí, nunca mais fumei de outra maneira. Apenas algumas pessoas muito observadoras reparam nessa diferença e, uma vez, um rapaz até nos perguntou se tínhamos ensaiado ao espelho. Foi o cúmulo. Atingíramos a perfeição: “Um cigarro nunca se leva ao centro dos lábios mas ao canto dos mesmos. É assim que fumam as divas. E os cowboys.”
Em tua casa, os teus pais não te deixavam lavar um prato. Terias tempo, explicavam, enquanto te apaparicavam satisfazendo todos os teus caprichos. Confessaste-me mais tarde o porquê de todo esse servilismo à tua volta. Não era por teres sido filha única mas por remorsos e culpa de não terem acreditado em ti quando, muito nova, te queixaste dos abusos sexuais de um dos teus tios. Foi só quando o apanharam a arrastar-te pela casa puxada pelos teus longos e belos cabelos loiros que eles, regressados inesperadamente, caíram em si. Desde então tudo foi pouco para minimizarem o trauma.
Eras a única que tinhas televisão no quarto e gira-discos. No colégio, mais ninguém conseguira tais privilégios. Quem quisesse ver TV ia para a common room mas quem fosse tua amiga podia ficar na comodidade privada do teu quarto.
Quanto te vi pela primeira vez no cruzamento de dois corredores fazias o pino e acrobacias várias. A tua camisola laranja contrastava com os obrigatórios uniformes colegiais azuis que te cercavam. Rias alto e quando me viste aproximaste-te com a curiosidade e o andar peculiar dos gatos. Sorri pela primeira vez em três meses. Parecias-me um raio de sol a dissipar a tormenta do meu internato forçado. Conversámos e convidaste-me para o teu grupo restrito de televisão nocturna. Em breve, tornámo-nos as melhores amigas.
Passeávamos juntas, partilhávamos actividades no colégio – em particular o squash – pisgávamo-nos para fumar em todos os locais onde as freiras nunca na vida se atreveriam a ir – o mais arriscado o telhado do próprio edifício, o mais lúgubre mas tranquilo um velho cemitério oculto no meio do bosque, de campas tão antigas que já ninguém se devia lembrar da sua existência.
De táxi e comboio – antes de teres tirado a carta – percorremos todas as cidades próximas e visitámos quem nos apeteceu. Foste a única a almoçar comigo num restaurante em Sherborne quando fiz dezassete anos e deixava para trás os sweet sixteen. Fizemos compras, fomos ao cinema e deitámo-nos tarde. Ainda fomos chatear a Emma para nos deixar trepar pelo guarda-fatos dela, o melhor situado para nos escapulirmos pela clarabóia para o telhado e fumarmos os últimos cigarros e bebermos um Porto. Ela ainda nos desenhou e acabámos essa noite a dormir as três amontoadas no edredão.
Lembro-me de correres atrás de um tipo que te roubara a mala no comboio e de a teres recuperado. Eras dura. Querias ser médica e estudavas imenso. Aprendi a ser obstinada e orgulhosa do meu saber contigo. Quando partíamos levávamos trinta livros no mínimo na bagagem. Depois o ano acabou e por cortesia – eu que tantas vezes fora convidada em tua casa – convidei-te para uma quinzena de Verão no meu país. Nessas férias zangámo-nos para a vida. O motivo não podia deixar de ser uma idiotice de adolescentes. Não resististe ao charme do meu irmão do meio, com o qual eu nem sequer falava, numa das muitas das nossas eternas zangas de miúdos.
Volvidos alguns anos, em Londres, com a Isabel e a Sophie fiquei a saber, entre a risota geral que tu, menina preconceituosa e defensora das classes altas, tinhas ido para Paris, deixado tudo para trás, todos os projectos e família, porque te apaixonaras por um pasteleiro. Veio-me logo à cabeça a tua gula por bolos de creme e o let’s be piggys, antes de te precipitares para eles. Não que fosses gorda. Aliás, em Portugal ficaste mais magra, bela e bronzeada do que nunca. Mas isso foi também o amor.
Tenho a dizer-te que nunca acompanhei o riso das nossas antigas colegas. Fiquei espantada, claro. Mas agradavelmente surpreendida. Não sei se tens filhos. Eu tenho uma bebé lindíssima. A Sophie já tem uma e vai ter outro agora em Junho. Tu desapareceste do mapa e ninguém sabe de ti. Nunca forneceste informações ou fotos à antiga revista do nosso colégio. No fundo, permaneces como uma memória felina da minha adolescência. E quando estou triste, penso em ti naquele cruzamento de corredores a fazer piruetas e a pousares, de súbito, os teus lindos olhos azuis em mim com um sorriso luminoso. Até sempre, Garfield.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Dois velhos parafusos


Tenho guardada uma caixa com dois velhos parafusos e uma carta escrita pelo meu pai datada de 1 de Outubro de 1960. Comentei o facto com a minha mãe que exclamou entre atónita e furiosa: “O quê? Essa porcaria ainda existe? Pensei que a tivesse deitado fora!”. E só lembrar-me desta reacção dela faz-me ir às lágrimas de tanto rir. Claro que temos de associar a reacção da minha mãe à caixa e, mais importante, à nota escrita pelo meu pai.
Trata-se de um texto imperdível, no qual ele faz a apologia do lar e de como a mãe dele – exemplo virtuoso de todas as mulheres – deveriam reger a casa. Só isto já era o suficiente para deixar a minha mãe em brasa… Vejamos: “O que esta caixa encerra é evidentemente apenas um símbolo (…) são dois velhos e puídos parafusos tão cuidadosamente – ia dizer amorosamente – guardados. Isto é qualquer coisa mais que um gesto sem significado, pois encerra todo o segredo da manutenção e desenvolvimento de um lar”. Tudo porque terá sido a minha avó que “com uma economia sábia estimulou com o seu seguro e proficiente governo, o gosto e a vontade de novos empreendimentos”. E a carta termina dizendo que os tais parafusos que a minha mãe pensava já ter atirado para o lixo são “evidentemente apenas um símbolo, o símbolo de uma vida, de um triunfo e de um exemplo a seguir…”.
Confesso que é das estórias mais hilariantes do meu clã. Já todos sabemos que o pai sempre foi assim um bocado sovina, forreta, vá Tio Patinhas como lhe chamávamos em pequenos. Mas que tivesse herdado a tara da poupança directamente de uma avó que chegava ao cúmulo de não deitar fora mas antes guardar em caixinhas forradas a cetim parafusos todos podres confesso que é de mais. Para o feitio da minha mãe que sempre odiou comparações entre ela e a sogra – a qual nunca chegou a conhecer em carne e osso porque esta morreu muito antes de eles terem casado – a carta é um autêntico atentado.
Apesar de ser poupada e estimar as minhas coisas – como boa materialista que sou – tenho de admitir que deito muito lixo fora. Não presta ou não funciona vai logo pela conduta abaixo ou mais ecologicamente falando pelos respectivos eco pontos. Espero que o espírito da minha avó não se zangue muito… A minha mãe deveria aplaudir, certo? Mas mesmo ela desarrumada por excelência considera as minhas limpezas muito étnicas… Enfim, minha filha é impossível escrever com os teus gritos. Arruínas-me a vida de escritora e esvazias-me a inspiração. Mas mesmo lutando contra essas tuas birras de bebé se movimentam as palavras para que um dia as possas ler e sorrir com elas.