Nos dias de maior frio aquecíamos as mãos em canecas de chocolate quente, lembras-te? Mas não querias que eu bebesse chocolate. Preferias chá ou café. Achavas-me infantil por preferir a doçura do cacau… E contudo, sempre foste feita de preconceitos. Dizias que só as pessoas básicas viviam em apartamentos e as outras, de bem, possuíam uma vivenda. Assim era com os teus pais, na cottage deles, de telhado de colmo, comme il faut, e vigas escuras de madeira a cortarem o tecto em rectas compridas e escuras à boa maneira inglesa.
I’m a town woman, resmungavas orgulhosa dos teus feitos: conduzir um citroën dois cavalos cor de laranja descapotável e conseguindo a proeza de fumar ao mesmo tempo – uma vez, íamos atropelando um ciclista… – beber cubas libres em bares onde nos deixassem entrar, etc. Foste tu que com as tuas manias estilizadas me ensinaste a pegar num cigarro. Desde aí, nunca mais fumei de outra maneira. Apenas algumas pessoas muito observadoras reparam nessa diferença e, uma vez, um rapaz até nos perguntou se tínhamos ensaiado ao espelho. Foi o cúmulo. Atingíramos a perfeição: “Um cigarro nunca se leva ao centro dos lábios mas ao canto dos mesmos. É assim que fumam as divas. E os cowboys.”
Em tua casa, os teus pais não te deixavam lavar um prato. Terias tempo, explicavam, enquanto te apaparicavam satisfazendo todos os teus caprichos. Confessaste-me mais tarde o porquê de todo esse servilismo à tua volta. Não era por teres sido filha única mas por remorsos e culpa de não terem acreditado em ti quando, muito nova, te queixaste dos abusos sexuais de um dos teus tios. Foi só quando o apanharam a arrastar-te pela casa puxada pelos teus longos e belos cabelos loiros que eles, regressados inesperadamente, caíram em si. Desde então tudo foi pouco para minimizarem o trauma.
Eras a única que tinhas televisão no quarto e gira-discos. No colégio, mais ninguém conseguira tais privilégios. Quem quisesse ver TV ia para a common room mas quem fosse tua amiga podia ficar na comodidade privada do teu quarto.
Quanto te vi pela primeira vez no cruzamento de dois corredores fazias o pino e acrobacias várias. A tua camisola laranja contrastava com os obrigatórios uniformes colegiais azuis que te cercavam. Rias alto e quando me viste aproximaste-te com a curiosidade e o andar peculiar dos gatos. Sorri pela primeira vez em três meses. Parecias-me um raio de sol a dissipar a tormenta do meu internato forçado. Conversámos e convidaste-me para o teu grupo restrito de televisão nocturna. Em breve, tornámo-nos as melhores amigas.
Passeávamos juntas, partilhávamos actividades no colégio – em particular o squash – pisgávamo-nos para fumar em todos os locais onde as freiras nunca na vida se atreveriam a ir – o mais arriscado o telhado do próprio edifício, o mais lúgubre mas tranquilo um velho cemitério oculto no meio do bosque, de campas tão antigas que já ninguém se devia lembrar da sua existência.
De táxi e comboio – antes de teres tirado a carta – percorremos todas as cidades próximas e visitámos quem nos apeteceu. Foste a única a almoçar comigo num restaurante em Sherborne quando fiz dezassete anos e deixava para trás os sweet sixteen. Fizemos compras, fomos ao cinema e deitámo-nos tarde. Ainda fomos chatear a Emma para nos deixar trepar pelo guarda-fatos dela, o melhor situado para nos escapulirmos pela clarabóia para o telhado e fumarmos os últimos cigarros e bebermos um Porto. Ela ainda nos desenhou e acabámos essa noite a dormir as três amontoadas no edredão.
Lembro-me de correres atrás de um tipo que te roubara a mala no comboio e de a teres recuperado. Eras dura. Querias ser médica e estudavas imenso. Aprendi a ser obstinada e orgulhosa do meu saber contigo. Quando partíamos levávamos trinta livros no mínimo na bagagem. Depois o ano acabou e por cortesia – eu que tantas vezes fora convidada em tua casa – convidei-te para uma quinzena de Verão no meu país. Nessas férias zangámo-nos para a vida. O motivo não podia deixar de ser uma idiotice de adolescentes. Não resististe ao charme do meu irmão do meio, com o qual eu nem sequer falava, numa das muitas das nossas eternas zangas de miúdos.
Volvidos alguns anos, em Londres, com a Isabel e a Sophie fiquei a saber, entre a risota geral que tu, menina preconceituosa e defensora das classes altas, tinhas ido para Paris, deixado tudo para trás, todos os projectos e família, porque te apaixonaras por um pasteleiro. Veio-me logo à cabeça a tua gula por bolos de creme e o let’s be piggys, antes de te precipitares para eles. Não que fosses gorda. Aliás, em Portugal ficaste mais magra, bela e bronzeada do que nunca. Mas isso foi também o amor.
Tenho a dizer-te que nunca acompanhei o riso das nossas antigas colegas. Fiquei espantada, claro. Mas agradavelmente surpreendida. Não sei se tens filhos. Eu tenho uma bebé lindíssima. A Sophie já tem uma e vai ter outro agora em Junho. Tu desapareceste do mapa e ninguém sabe de ti. Nunca forneceste informações ou fotos à antiga revista do nosso colégio. No fundo, permaneces como uma memória felina da minha adolescência. E quando estou triste, penso em ti naquele cruzamento de corredores a fazer piruetas e a pousares, de súbito, os teus lindos olhos azuis em mim com um sorriso luminoso. Até sempre, Garfield.

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