Hoje porque é dia do meu aniversário vou viajar até uma ilha deserta e paradisíaca e banhar-me em águas cristalinas. Vou descobrir um lago fantástico com muitas flores aquáticas à superfície, cujas pétalas abrem e fecham graciosamente como se de pestanas se tratassem. Apanhar sol e deliciar-me com sumos naturais. Vou esquecer que sou a rainha da nicotina e gozar o ar puro e salgado da brisa marítima. Vou descobrir criaturas novas que me irão encantar com danças e cânticos. Depois, como num sonho incongruente, aparece-me um massagista lindíssimo e musculado que irá fazer o meu corpo sentir-se descontraído e tão leve como as próprias folhas que se despegam dos ramos.
Irei usar o mais belo dos vestidos e cinco crianças dos cinco continentes irão cirandar à minha volta convencidos de que sou uma princesa por causa da minha bela tiara de diamantes. São elas que me guiarão para uma sala quase indescritível, de painéis de âmbar russos e uma opulenta mesa de muitos metros plenos de iguarias. Não existem cadeiras nem convidados. Só as cinco crianças. A primeira dar-me-á uma taça de morangos tão saborosos e explosivos na minha boca, cujo suco tingirá os meus lábios de vermelho. Dir-me-á com uma expressão única: “Pelo sangue que perdeste.”
A segunda avança destemida com um jarro de ambrósia e avisa-me: “Por que os deuses estão de olho em ti e a tua missão, embora penses o contrário, ainda não acabou.”
A terceira olha-me nos olhos e enfia-me na boca pedaços inteiros de melancia. Ao mesmo tempo recorda-me: “O sumo da vida é o sexo. Não te deixes secar como uma velha carcaça. Sê superior a tudo o que te enfraquece e humilha. Goza a humidade das mulheres.”
A quarta pulveriza-me com chocolate e ri: “Para não perderes a tua ironia, a forma gulosa de devorares a vida, a tua doçura única, esses teus pensamentos racionais estimulados para sempre. Para não desistires.”
E eu lembro-me das barras de chocolate que os soldados levam com eles, perdidos nos bolsos, quando partem para a guerra... Por fim, a quinta miúda avança para mim com uma cesta de ovos, laranjas e um jarro de leite: “Para que nunca deixes de abrir o que gostas mesmo desconhecendo a qualidade do interior, para que tenhas um pomar perfumado sempre que abrires mais uma janela e para que abundem no céu da tua imaginação vias sem limites. A tua estrela da sorte ainda não se fragmentou. Sê forte, imaginativa, fértil, ousada e não deixes de espremer o sumo da vida. Sê ávida.”
As crianças riem à minha volta, puxam-me pelas mãos e depois desaparecem em fila indiana, após terem feito mil profecias e desejos. Fico a vê-las partirem, enquanto o meu sumptuoso vestido desaparece e fico nua numa paisagem amena de areia e mar.
Uma mulher aproxima-se segura do seu passo, com longos cabelos e olhos negros, um rosto de traços perfeitos. Quando chega perto de mim toma-me nos braços e embala-me docemente: “Quiduxinha”, murmura embevecida. Sinto-lhe o cheiro, reconheço-lhe a voz e deixo-me adormecer nos braços inconfundíveis da minha mãe que tanto adoro.

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