quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Dois velhos parafusos


Tenho guardada uma caixa com dois velhos parafusos e uma carta escrita pelo meu pai datada de 1 de Outubro de 1960. Comentei o facto com a minha mãe que exclamou entre atónita e furiosa: “O quê? Essa porcaria ainda existe? Pensei que a tivesse deitado fora!”. E só lembrar-me desta reacção dela faz-me ir às lágrimas de tanto rir. Claro que temos de associar a reacção da minha mãe à caixa e, mais importante, à nota escrita pelo meu pai.
Trata-se de um texto imperdível, no qual ele faz a apologia do lar e de como a mãe dele – exemplo virtuoso de todas as mulheres – deveriam reger a casa. Só isto já era o suficiente para deixar a minha mãe em brasa… Vejamos: “O que esta caixa encerra é evidentemente apenas um símbolo (…) são dois velhos e puídos parafusos tão cuidadosamente – ia dizer amorosamente – guardados. Isto é qualquer coisa mais que um gesto sem significado, pois encerra todo o segredo da manutenção e desenvolvimento de um lar”. Tudo porque terá sido a minha avó que “com uma economia sábia estimulou com o seu seguro e proficiente governo, o gosto e a vontade de novos empreendimentos”. E a carta termina dizendo que os tais parafusos que a minha mãe pensava já ter atirado para o lixo são “evidentemente apenas um símbolo, o símbolo de uma vida, de um triunfo e de um exemplo a seguir…”.
Confesso que é das estórias mais hilariantes do meu clã. Já todos sabemos que o pai sempre foi assim um bocado sovina, forreta, vá Tio Patinhas como lhe chamávamos em pequenos. Mas que tivesse herdado a tara da poupança directamente de uma avó que chegava ao cúmulo de não deitar fora mas antes guardar em caixinhas forradas a cetim parafusos todos podres confesso que é de mais. Para o feitio da minha mãe que sempre odiou comparações entre ela e a sogra – a qual nunca chegou a conhecer em carne e osso porque esta morreu muito antes de eles terem casado – a carta é um autêntico atentado.
Apesar de ser poupada e estimar as minhas coisas – como boa materialista que sou – tenho de admitir que deito muito lixo fora. Não presta ou não funciona vai logo pela conduta abaixo ou mais ecologicamente falando pelos respectivos eco pontos. Espero que o espírito da minha avó não se zangue muito… A minha mãe deveria aplaudir, certo? Mas mesmo ela desarrumada por excelência considera as minhas limpezas muito étnicas… Enfim, minha filha é impossível escrever com os teus gritos. Arruínas-me a vida de escritora e esvazias-me a inspiração. Mas mesmo lutando contra essas tuas birras de bebé se movimentam as palavras para que um dia as possas ler e sorrir com elas.

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