Quando andava na faculdade, um colega meu ridicularizou-me por eu me assumir como feminista. Considerava ele que era uma batalha dos anos 70, já ganha pela sociedade e, como tal, totalmente anacrónica. Acusou-me de segurar uma bandeira absurda e até me provocou com a famosa queima de soutiens no parque Eduardo VII. Mandei-o pastar, claro, sem sequer me incendiar ao ponto de puxar por argumentos justificativos. Lembro-me de lhe ter respondido algo simples, antes de lhe ter virado as costas: “Enquanto no mundo existirem mulheres a serem discriminadas pelo facto de serem mulheres a bandeira do feminismo mantém-se bem erguida e firme. Não é apenas a nossa sociedade ocidental que conta e, até na nossa, as disparidades continuam.”
Na realidade, tanto esse meu colega como muitos homens crêem não só que o feminismo é ultrapassado como deliram com as imagens das feministas, para eles mulheres feias, lésbicas, frustradas e sem uma ponta de interesse. Não aceitam que uma mulher possa ser feminina e feminista, heterossexual e feminista, giríssima de fazer parar o trânsito e feminista. Pois, de facto, esses homens estão enganados. Graças a Deus, existem no mundo inteiro mulheres muito diferentes umas das outras mas unidas na mesma luta, uma irmandade mergulhada no mesmo credo: a dos direitos das mulheres seja em que nação for. E essas mulheres são lindas por dentro e por fora e eu orgulho-me de ser uma delas.
Dizem que em África nasceu o primeiro homem. Se esse continente é o berço da humanidade é também o da bestialidade. Os actos mais selvagens e vis são perpetrados contra as mulheres. E o pior é que a lei não pode fazer nada. A questão é cultural: a menina é um fardo para os pais e a virgindade sagrada para os esposos. Logo, temos negócio. Na Etiópia, apesar de os casamentos terem sido proibidos com meninas menores de 18 anos, desde 1995, todos ignoram o decreto. As crianças etíopes casam com homens muito mais velhos a partir dos dez anos adiante. O que seria considerado pedofilia nas nossas sociedades é uma questão culturalmente aceite naquela região.
O problema é que essas crianças não só perdem o direito de serem crianças como ganham uma carga de trabalhos domésticos e praticam relações sexuais antes do tempo. O resultado é uma taxa elevada de mortalidade materna, imensos partos prematuros e uma grande vulnerabilidade a infecções sexualmente transmitidas, entre elas a sida. Para mais, estas meninas desenvolvem uma fístula, ruptura entre a bexiga e a vagina que as faz perder o controlo da urina e, como tal, passam a ser rejeitadas. O cheiro delas deve ser insuportável mas o que lhes fazem nem sequer tem nome… Não é de admirar que o hospital Addis-Abeba, na capital, realize a operação a título gratuito. No fundo, é um gesto de misericórdia de um país que não consegue impor a própria lei.
Factos: todos os anos, devido a um número infinito de partos, 8 000 raparigas desenvolvem esta fístula. É na Etiópia que existe a taxa de casamentos de crianças mais elevada no mundo: 74 por cento das meninas casam antes dos 15 anos. A combater esta situação cultural existe o projecto Berhane Hewan, financiado pelas Nações Unidas. Procura-se informar a população dos riscos destes casamentos precoces. A UNICEF também leva a cabo uma série de ateliers de sensibilização. Mas a verdade é que esta prática já proibida há mais de dez anos nem sequer é reprimida. Na Etiópia, as crianças do sexo feminino não têm direito a uma vida feliz. São violadas por homens bem mais velhos que, por ironia, são os maridos delas. São rasgadas e atiradas para a sarjeta. Até um hospital se apiedar delas…
Em África, a excisão clitoriana é outra prática ignóbil levada a cabo por “questões culturais”. Extirpa-se o clitóris porque é uma tradição muito antiga. Na Índia, as mulheres são tratadas abaixo de cão. Se não têm dote ninguém lhes pega. Quando os maridos se cansam delas queimam-nas e inventam acidentes domésticos do estilo foi uma explosão no fogão. Outros preferem atirar-lhes à cara ácido sulfúrico. Na Índia, oferecem-se meninas aos turistas. Mas na China a rejeição dos bebés do sexo feminino é igual ou pior. Antes, na Idade Média, os chineses aproveitavam as cheias para largar estas bebés que levadas pela corrente morriam afogadas. A verdadeira “muralha” da China é feita de sangue e ossos e separa qualquer pessoa lúcida da selvajaria cultural aí praticada, tanto no passado como hoje, com as suas salas de morte, repletas de camas de bebés meninas que ninguém quer adoptar.
São tantas as atrocidades que difícil é não querer ver o que se passa. Ainda bem que não nascemos mulheres nestes países e que culturalmente aprendemos a amar os nossos filhos meninos ou meninas. Ainda bem que somos todos iguais mas uns são mais estúpidos e primitivos do que outros. Ainda bem que tenho um clitóris, não acho possível viver sem ele. Que sorte a minha filha não ter nascido na Etiópia, caso contrário, aos dez anos já estava a ter relações sexuais e, depois, teria fatalmente uma horrenda pústula. Que agradável é estar do lado de cá, onde nada destas farpas nos podem atingir. Mas o mundo não é só o meu país. Posso ficar neutra quando as minhas irmãs sofrem? Cruzo os braços só porque já estou dentro do bote e os outros que se afundem? Cabe a todos nós fazermos algo dentro das nossas possibilidades. Não podemos fingir que nada disto não nos afecta. Eu tenho uma filha e é neste planeta que ela vai viver. Gostava tanto que o mundo fosse um sítio melhor.

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