terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma miúda de Barcelos na Rússia



Não há sentimento pior do que a dor de perder quem se ama. Quando é a morte que nos retira um ente querido nada podemos fazer para além de sofrer e chorar e sentirmo-nos impotentes e cada vez mais humildes perante todo o mistério da vida e da morte. Mas quando perdemos alguém que tanto amamos e essa pessoa continua viva sem a podermos ver, ouvir ou tocar a dor ainda é mais dilacerante porque é ferida aberta a sangrar todos os dias e nada a parece sarar… Eu que sou uma pessoa batalhadora e não gosto e perder nem a feijões fico desaustinada quando sou obrigada a desistir. E, por isso, raramente desisto…
Vem isto a propósito da Alexandra, uma menina de seis anos que as autoridades portuguesas decidiram entregar à mãe biológica russa. A Alexandra nasceu em Braga e tem pronúncia do Norte. Desde os 17 meses que foi acolhida por uma família portuguesa. Os pais dela afectivos/adoptivos são João Pinheiro e Florinda Vieira, residentes em Barcelos. A mãe biológica prostituía-se e drogava-se, não reunindo condições para a criar. Porém, visitava-a e, segundo os pais adoptivos, essas visitas até eram dolorosas para a criança porque alegadamente a mãe russa batia na menina, apesar de ter sido chamada à atenção várias vezes…
Por decisão dos tribunais portugueses a Alexandra vive agora em Pretchistoe – a 350 quilómetros de Moscovo – e dorme em cima de um forno. A mãe continua a bater-lhe e, desta vez, sem ninguém a interferir. A televisão russa capturou essa agressividade mas não me chocou tanto como a fotografia da criança a chorar quando arrancada do colo do pai. Nem como a frase que eu li numa das muitas reportagens que se fizeram e têm feito até a Alexandra ser notícia: “Com o tempo, olhará menos os outros: as crianças tristes desistem de olhar, devido ao vazio de afectos em que vivem.”
Custa acreditar que os tribunais continuem a decidir tão erradamente depois de tanta tragédia humana neste caso específico de crianças entregues à família biológica. Já se provou, com sangue, no nosso país que os pais biológicos não são os melhores. No entanto, existe esta cegueira do sangue do mesmo sangue até dar em banho de sangue uma vez mais… Em 2005 assassinaram a Vanessa, de cinco anos, numa banheira com água a ferver e depois atiraram o corpo ao rio. O pai e a avó. Foi preferível ter sido morta em família biológica do que ficar ao cuidado da mãe Rosa por quem tanto chorou e chamou até a silenciarem para sempre…
E agora vem o ministro disto e daquilo dizer que errar é humano. É pena não terem errado com a filha ou o filho dele. Ninguém tem o direito de lavar as mãos desta maneira. Ninguém devia dormir tranquilo quando uma criança é levada a ferro e fogo dos braços dos seus para um ambiente de horror, seja porque a alistam numa guerra – como fazem a tantas crianças africanas – ou porque a devolvem a uma família incompetente e desordeira e, pior ainda, quiçá criminosa.
Espanta-me que a gente do Norte tenha cruzado os braços, eles que são lutadores por excelência e orgulhosos de serem berço da Nação. Não a população, que essa está revoltada e tudo faz para trazer de volta a bebé que nasceu em Braga e que, para todos os efeitos, devia ser considerada portuguesa. Até existe um blogue fantástico, cuja petição, como é óbvio, já assinei - http://xaninhanossa.blogspot.com/2009/05/mae-da-menina-russa-critica-educacao.html.
Os portugueses normais fazem tudo o que podem para demonstrar o seu desagrado perante esta decisão judicial do Tribunal da Relação de Guimarães confirmada pelo Supremo Tribunal de Justiça. Mas o juiz Gouveia Barros e os técnicos que chegaram a este veredicto, esses sim, deviam ser repatriados. Não se provou que a mãe era alcoólica e prostituta? A família tinha condições de dar uma vida normal à criança? Mas o que é “normal” na mentalidade de uma mulher de má índole? Sovar e dormir em cima de um forno é normal?
Normal para o nosso amigo juiz é ver o mundo ruir aos seis anos. Isto deixa-o de consciência tranquila. Sabem porquê? Porque não são os olhos dele que estão tristes e desistem de olhar. Porque o buraco negro do vazio não se abriu nele mas num pequeno corpito. E quando, um dia, esse corpito aparecer ou não – o da Joana evaporou-se, devido aos “mimos” da mãe e do tio – o juiz Gouveia Barros do Tribunal da Relação de Guimarães vai continuar a estar de consciência tranquila e a não se arrepender.
Mas a Alexandra está tão deslocada na Rússia como o E.T. na Terra. E se o extraterrestre de Spielberg apontava o dedo e dizia “E.T. GO HOME”, a Alexandra faz o mesmo. Ela só quer regressar a casa. E a casa significa as pessoas que mais amamos, que nos dão carinho e amor. As que nos ficam na memória. Para sempre.

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