domingo, 28 de fevereiro de 2010

A posse, a disfuncionalidade e o azar


Maria tinha uma filha de quatro anos que amava apaixonadamente. Estava separada do pai da filha, um homem disfuncional a toda a prova. É muito triste conhecer um ser disfuncional. A palavra é deveras técnica. As pessoas normais apelidam-nos de loucos e falam da loucura mas os técnicos de saúde não aprovam a expressão e, daí, o termo disfuncional: uma pessoa que não funciona como as outras, que tem algo no seu mecanismo interior com falhas graves. Pode aparentar uma certa normalidade e, até, orgulhar-se dessa dissimulação mas quando o clique se dá destrambelha de todo. O que provoca o processo é um mistério da mente. Por isso, essas pessoas são confinadas a um espaço e estudadas para não agredirem as demais. Mas a grande maioria anda à solta e todos nós podemos ter o azar de as encontrarmos ou, pior, de nos apaixonarmos por elas.

Maria nunca conhecera outro homem para além do pai da filha. A violência e a instabilidade levaram-nos à separação. Maria arranjou um novo companheiro que a seduziu como continuaria a seduzir outras. E um dia, Maria perdeu a filha. Procurou-a debaixo de cada pedra e regato, enlouqueceu numa busca frenética e inútil. O corpo da criança apareceria sem vida, os pequenos pulmões cheios de água.

Todos os anos, dezenas de crianças morrem afogadas. É uma das principais causas de morte infantil. As crianças gostam de brincar e não têm, ao contrário dos adultos, noção de perigo.

O mundo de Maria desabou com a morte da filha. Enquanto a procurara sentira-se só. Telefonara para aqueles que a poderiam ter ajudado mas ninguém a atendera. No preciso momento, em que Maria corria e chamava pela filha, o companheiro dela partilhava droga e sexo com uma outra qualquer mulher que seduzira, tendo por isso ignorado a chamada no seu telemóvel.

Quando lhe disseram que já não tinha filha e Maria somou a ausência do namorado confrontou-o e expulsou-o de casa. Disse-lhe que estava farta de tratar dos outros e que, de ora em diante, passaria apenas a cuidar dela própria. Os homens são muito egoístas. Só pensam neles. E neles.

O pai da miúda estava proibido pelos tribunais de se aproximar de Maria. Mesmo assim fê-lo. Da primeira vez, para a culpar do acidente que vitimara a filha de ambos. Da segunda vez, para a assassinar com uma caçadeira e matar-se a ele próprio de seguida. E as últimas frases proferidas entre ambos foram: “Eu pari a nossa criança, seu monstro” e “Não, tu mataste-a. Ela morreu por tua causa.”

O azar de Maria não tem princípio nem fim: desde a escolha dos homens, à morte acidental da filha e ao seu próprio assassinato às mãos do ex-marido. A Maria teve mesmo muito azar. E quantos Marias não há por aí?...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Madeira

Madeira I

Fúria em estado líquido



Quando penso no que aconteceu na Madeira no dia 20 deste mês associo o Titanic. Em particular, no quadro dos “ses”. Existem sempre muitos “ses” nos grandes acidentes e tragédias. Se não tivesse chovido tanto desde há três meses para cá as terras não estariam saturadas para aguentar uma tempestade; se a massa de ar frio vinda da Europa e a tropical por cima da ilha não tivessem embatido; se água do oceano não fosse tão quente não teria havido uma rápida condensação; se a ilha não tivesse declives tão angulosos as correntes não teriam acelerado tanto na sua fúria destruidora; se a chuva não tivesse derretido a neve no alto das montanhas não teria escorrido ainda mais água em direcção ao mar; se menos pessoas andassem nas ruas menos morreriam; se existisse um radar ou um sistema de alerta de chuvas intensas que possam causar inundações ou deslizamentos – como existe no Rio de Janeiro, Hong Kong e São Francisco, três cidades construídas em bossas de camelo; se mais arvoredo tivesse retido a água – a floresta laurissilva Património da Humanidade tem sido alegremente desbastada – se as ribeiras embora encanadas e com muros de suporte, muralhas ex-líbris da cidade, não tivessem estranguladas e abusivamente redireccionadas; se os pequenos cursos de água que vão dar às ribeiras não tivessem cheios de entulho que é mandado encosta a baixo durante a construção de estradas e se as pessoas deixassem de atirar para estes riachos toda a espécie de lixo desde frigoríficos, mesas, cadeiras; se os pobres – as maiores vítimas da fúria em estado líquido, tal como os passageiros da terceira classe do Titanic – não vivessem em casitas de fósforos incrustadas em encostas; se depois de se pagar um estudo de centenas de milhares de euros as recomendações não tivessem ficado numa gaveta; se, tão-somente, a água tivesse escoado…



Madeira II

Os nomes e as caras das vítimas



Somos frios perante as estatísticas mas o drama humano quando tem nome mexe connosco. Nomear é dar uma identidade e daí vem a afeição. Assim se perdeu aquele grande perito – o maior de sempre – que estudou e morreu às garras de um urso pardo. Quando começou a dar nomes aos ursinhos e a acampar junto deles como se fossem os seus melhores amigos perdeu a noção do perigo.

Na Madeira, sou obrigada a pensar: Como pode um rapaz de 18 anos, chamado FELIZ, ter perdido os pais, o irmão mais novo, os dois primos, a avó e a tia, correr cheio de sangue, talvez ainda tenha visto o pai a tentar salvar o pequeno Marcelino de 11 anos que chorava preso ao entulho, como pode Feliz Macedo saber – ele que está hospitalizado sem se lembrar do que aconteceu, num estranho processo em que a memória humana se auto apaga a fim de preservar a sanidade da mente – o que aconteceu à sua família que já não existe? Quem terá a coragem de devolver a memória e a dor a Feliz Macedo? Quem?

Quem dirá à senhora do Continente que passeava com a matrícula do carro dela na mão porque conseguira saltar e salvar-se qual o carro-caixão onde jazem o marido e o filho?

O que sentirá um homem quando encontra uma criança de 5 ou 6 anos com a cabeça debaixo da roda traseira de um carro?

Como se sentirão os que põem num site uma fotografia da pequena Francisca de três anos e, nesse mesmo dia, são informados de que o seu pequeno corpo foi encontrado, assim como o da sua avó?

Que sentirá o inglês George Gaines quando de volta a casa se lembrar que a sua mulher Pamela pereceu na fúria da água lamacenta?

Numa casa onde se abrigaram cinco pessoas caiu uma grua e todos morreram. Entre os cinco estava a mulher de Domingos Santana que se interroga: “Mas que vida vou arranjar agora sem a minha mulher? Estou desgraçado.”

Como é que uma menina de 9 anos que adorava o pai Francisco BELO irá aceitar que o heroísmo dele o tenha morto? O bombeiro pereceu ao tentar salvar uma idosa, que também apareceu morta. Deixou mulher e dois filhos. Como é que este homem de belo coração que irá ser oficialmente condecorado e que vivia para a família irá deixar todos os que o amavam, em particular, uma menina de 9 anos que o seguia para todo o lado?



Madeira III

Não lixem o João Jardim



Ser líder nunca foi tarefa fácil. É preciso um espírito especial. Aliás, é uma das características dos sobredotados: a capacidade de liderança. João Jardim é feito dessa fibra. Podemos gostar dele ou não mas nunca podemos questionar o amor deste homem pela Madeira. Com câmaras ou sem elas, o líder madeirense ouviu os seus conterrâneos, procurou acalmá-los, prometeu-lhes – quase como um pai – que tudo iria ficar bem. Teve o sangue frio do Marquês de Pombal quando proferiu as mesmas palavras ditas por Pombal em 1775, aquando do terramoto de Lisboa: “É preciso sepultar os mortos e cuidar dos vivos.” E se as proferiu com a voz embargada, quase gritou quando também declarou: “Vamos reconstruir tudo! O madeirense está habituado a defrontar a Natureza e a ganhar!”.

Se calhar, muitos – por oposição política – preferiam-no ver mais vulnerável, a assumir-se como vítima ou culpado. Pois bem, deve ser o ar da América. João Jardim tem o espírito americano: não se deixa intimidar ou vitimizar. Também os norte-americanos quiseram refazer as Torres Gémeas a quente. E depois pensaram melhor a frio. Deixemo-lo pensar. Por certo, terão de ser feitas alterações mas este líder terá o apoio de todos os elucidados que têm a atitude mental saudável de não se sentirem vítimas. Reconstruir exige força redobrada e votos de confiança.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Opera House

Cresci familiarizada com a ópera. A minha avó paterna era fã e o meu pai cultivou-me nesse sentido. Aliás, em pequena queria ser cantora de ópera, intenção frustrada devido a uma entrada dramática do meu pai no quarto: “O que se passa aqui?”, perguntou alarmado, no tempo em que ainda ouvia bem. “Nada, pai. Estou a cantar ópera”, expliquei com um encolher de ombros juvenil. E levei um tapa na cara que mais pareceu uma festa: “Não quero essa berraria cá em casa! Pensei que te tivesse acontecido algo.” A partir daí, mais por embirração mimada do que por outra coisa, declarei guerra ao belo canto. Mas depois, a tentação regressou. E eu adorava ouvi-lo narrar-me os libretos em resumos acompanhados de trechos cantados pelo próprio.

O problema era que o pai se emocionava imenso e chorava sempre. Mas chorava tanto, que encharcava lenços. A sério, não estou a brincar. Até me arrependia de lhe pedir para me contar as histórias que as óperas encerram. Um dia, a minha mãe explicou-me que o vale de lágrimas se devia ao facto de o pai se recordar do amor da avó – sua mãe – pelas cantorias líricas. No tempo da avó, os dois iam assistir aos espectáculos no S. Carlos. Ela tinha uns binóculos giríssimos de madrepérola que herdei. Calculo que a emoção do pai redobrava quando estava comigo porque devia pensar no prazer sentido pela avó e na grande saudade que dela guardava.

A ópera preferida dos dois era a Aida, de Verdi. E a parte que o levava à loucura total era Ritorna vincitor! E dal mio labbro usci l’empia parola! Mas como tenho uma edição bilingue vou poupá-los ao italiano: “Volta vencedor! E dos meus lábios sai a ímpia palavra! Vencedor do meu pai, daquele que empunha armas por mim, para me devolver uma pátria, um reino e o ilustre nome que aqui me é forçoso ocultar. Vencedor dos meus irmãos. Talvez o veja tingido pelo sangue amado, triunfar entre o aplauso das multidões egípcias! E atrás do seu carro, um rei, meu pai, coberto de cadeias! Oh, deuses esquecei essa palavra insensata! Devolvei a filha ao seio de seu pai; destruí os esquadrões dos nossos opressores! Ah! Desventurada que disse? E o meu amor? Acaso posso esquecer este amor ardente que aqui, escrava e oprimida, como um raio de sol me tornou feliz? Desejar a morte a Ramadés, a ele que tanto amo! Ah, nunca na terra se viu um coração dilacerado por mais cruéis angústias. Os sagrados nomes de pai, de amante não posso proferir nem recordar. Por um e por outro, confusa e trémula quisera chorar, quisera rogar. Mas a minha prece em blasfémia se transforma. O pranto é para mim culpa e suspiro. Na noite escura se perde a minha mente e nesta angústia cruel quisera morrer. Deuses, tende piedade do meu sofrimento, a minha dor não tem esperança. Amor fatal, tremendo amor, despedaça-me o coração, faz-me morrer.”

Este trecho – venerado pela minha avó e pai – resume na perfeição o drama de Aida mas é muito mais do que isso. É talvez o mais belo pedaço de música arrancado ao talento de um homem. Ao ouvir Ritorna vincitor sentimos um calafrio pelo corpo todo. Música e letra beijam-se apaixonadamente. É um momento perfeito que podemos ouvir e ouvir sem nos cansarmos.

Hoje, mais do que nunca adoro a Aida de Verdi. E percebo que estou a ficar perigosamente igual ao meu pai: uma lamechas irrecuperável. Dizem que há todo um património genético que herdamos. No meu caso, não tenho a menor dúvida da origem desta sensibilidade exacerbada…

Aconteceu uma coisa extraordinária: chorei ao contar uma história para a Constança adormecer. A miúda a olhar para mim, e eu, toda trémula, a tentar ler até ao fim. Chama-se o conto “O Mosquito de Bom Coração” e é de Janine Gollier. Resumidamente, trata-se de um jovem mosquito – cuja mamã achava que um dia faria grandes coisas – que é apanhado numa teia de aranha. E quando ela vai para o devorar suplica-lhe: “Por favor, senhora aranha, tenha pena da minha mamã e do meu papá! Vão morrer de desgosto se souberem da minha infelicidade! Não tem aranhazinhas para criar e acarinhar? Então, pense nos meus pais e liberte-me!”.

A aranha compadeceu-se e libertou o seu prisioneiro. Pouco depois foi levada por uma andorinha e também ela se pôs a implorar: “Peço-vos, senhora andorinha liberte-me como eu libertei o mosquito da minha teia. Você, uma bela ave rápida como o vento, seria menos generosa que uma insignificante aranha?”.

Depois de reflectir, a ave disse: “A andorinha não será menos generosa que a aranha. Vai, és livre!”.

Uns dias depois, a andorinha é rapinada por uma águia que a leva nas suas fortes garras: “Oh, grande águia-real, a mais vigorosa e a mais nobre das aves, serás menos generosa que uma minúscula aranha ou que uma pobre andorinha? A aranha libertou o mosquito preso na sua teia e eu não comi a aranha.”

Ao ouvir o discurso, a águia libertou a andorinha que partiu feliz por ter escutado as súplicas da aranha. E a história termina assim: “Foi uma época, na qual todos os membros dos animais alados, do mais ínfimo insecto à águia-real viveram em paz graças ao bom coração de um mosquito pequenino, mais leve que um fio de pena ou que uma pétala de violeta.”

O que me emocionou na história infantil foi a cadeia de boas acções. Mentalmente, a característica que mais associo ao meu pai é, por certo, a bondade. Por isso, dediquei ao meu pai o meu último romance publicado. E, todos os dias, esforço-me por seguir esta sua lição de vida e minha maior herança.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Parabéns Princesa!!!!!!!!!


Hoje, porque a Constança faz TRÊS ANINHOS, segue-se um apanhado das últimas declarações de uma criança que é absolutamente única, querida e excepcional:



- Vou comer as flores do teu vestido – brinco com ela. – Esta azul, talvez a amarela e, sem dúvida, a cor de laranja.

- Não, mamã! Tu não podes! – responde, visivelmente perturbada.

- Não posso porquê? – questiono-a, com irónica doçura, estilo eu sou mãe e posso tudo.

- Porque a mamã do Tambor não deixa.

E só viu o “Bambi” uma vez e nem sequer foi até ao fim…


***


- Quero um rebuçado da tosse.

- OK. Toma lá – concordo, passando-lhe um Dr. Bayard.

- Quem mandou dar este à Constança? Já disse que quero o da menina.

Isto, porque no pacote se vêem quatro diferentes personagens a tossir, incluindo uma menina mas no papel dos rebuçados figura invariavelmente o terceiro da série a contar de cima. Vou escrever à marca a reclamar…

***

- Onde é que estão as minhas bolas de cera? – pergunto danada, depois de as procurar em todas as gavetas da mesa-de-cabeceira, eu que as tinha deixado bem alinhadas no tampo.

- Não sei… Se calhar foi aquele monstro que eu vi entrar pela janela e as levou para casa dele.

***

Às vezes, é difícil falar do meu pai à Constança. Acabo sempre por não reter as lágrimas e a voz atraiçoa-me. Vai ela:

- Anima-te mamã. Eu estou contigo.

***

À noite, antes de adormecer:

- Tu és tão linda, mamã. Nunca vi uma mamã assim: nem mais nem menos.

E, desta forma, percebi que para a minha filha – haja alguém neste mundo cruel – eu sou perfeita!

***

No banho, olhando para as mãozitas engelhadas após um período de grande divertimento no meio da bonecada e dos baldes:

- Oh! As minhas mãos! A minha voz! É agora que o feitiço vai começar!

- Estás a imitar quem, amor? – pergunto, divertida com a excelente representação.

- A rainha má da Branca de Neve.


***

- Mamã, eu acredito em ti – diz repetidamente, por tudo e por nada e eu sinto-me grata.

***

- Eu também quero!

- Queres o quê? – pergunto, enquanto espalho a base e pinto os olhos.

- Usar o teu lápis – pedincha, olhando para o batom, de longe o seu cosmético preferido.

- Só um bocadinho – aquiesço. – Vá, fecha a boquinha e agora vê-te ao espelho.

- Uau! O Gui vai ficar maluco quando me vir. Não achas, mamã?

O Guilherme é a sua primeira e devotada paixão…

***

- Vês? É uma bonequinha de prata e mexe as pernas e os braços. É para o teu fio. Vai lá pôr nas tuas jóias, anda – incentivo-a, abrindo-lhe a caixinha.

- Posso ver as tuas? Posso?

- Vê lá – concordo, abrindo-lhe uma caixa de penduricalhos do Thomas Sabo.

Rapidamente, agarra num porco com sapatinhos e chapéu vermelho e corre a juntá-lo às dela e atira a caixa para o respectivo local de armazenagem.

- O que fizeste, minha atrevida? Tiraste o porquinho à mamã?

- Sim – risse, toda contente. – Agora está nas minhas e tu não podes tirar.

O saque já começou…

***

- Quero ver o filme do Príncipe Naveen e da princesa escurinha.

- Pela descrição, queres ver o filme A Princesa e o Sapo. E portas-te bem? Não choras?

- Eu porto-me bem, mamã.

E portou. Eu é que entornei um copázio de Coca-Cola…