quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Opera House

Cresci familiarizada com a ópera. A minha avó paterna era fã e o meu pai cultivou-me nesse sentido. Aliás, em pequena queria ser cantora de ópera, intenção frustrada devido a uma entrada dramática do meu pai no quarto: “O que se passa aqui?”, perguntou alarmado, no tempo em que ainda ouvia bem. “Nada, pai. Estou a cantar ópera”, expliquei com um encolher de ombros juvenil. E levei um tapa na cara que mais pareceu uma festa: “Não quero essa berraria cá em casa! Pensei que te tivesse acontecido algo.” A partir daí, mais por embirração mimada do que por outra coisa, declarei guerra ao belo canto. Mas depois, a tentação regressou. E eu adorava ouvi-lo narrar-me os libretos em resumos acompanhados de trechos cantados pelo próprio.

O problema era que o pai se emocionava imenso e chorava sempre. Mas chorava tanto, que encharcava lenços. A sério, não estou a brincar. Até me arrependia de lhe pedir para me contar as histórias que as óperas encerram. Um dia, a minha mãe explicou-me que o vale de lágrimas se devia ao facto de o pai se recordar do amor da avó – sua mãe – pelas cantorias líricas. No tempo da avó, os dois iam assistir aos espectáculos no S. Carlos. Ela tinha uns binóculos giríssimos de madrepérola que herdei. Calculo que a emoção do pai redobrava quando estava comigo porque devia pensar no prazer sentido pela avó e na grande saudade que dela guardava.

A ópera preferida dos dois era a Aida, de Verdi. E a parte que o levava à loucura total era Ritorna vincitor! E dal mio labbro usci l’empia parola! Mas como tenho uma edição bilingue vou poupá-los ao italiano: “Volta vencedor! E dos meus lábios sai a ímpia palavra! Vencedor do meu pai, daquele que empunha armas por mim, para me devolver uma pátria, um reino e o ilustre nome que aqui me é forçoso ocultar. Vencedor dos meus irmãos. Talvez o veja tingido pelo sangue amado, triunfar entre o aplauso das multidões egípcias! E atrás do seu carro, um rei, meu pai, coberto de cadeias! Oh, deuses esquecei essa palavra insensata! Devolvei a filha ao seio de seu pai; destruí os esquadrões dos nossos opressores! Ah! Desventurada que disse? E o meu amor? Acaso posso esquecer este amor ardente que aqui, escrava e oprimida, como um raio de sol me tornou feliz? Desejar a morte a Ramadés, a ele que tanto amo! Ah, nunca na terra se viu um coração dilacerado por mais cruéis angústias. Os sagrados nomes de pai, de amante não posso proferir nem recordar. Por um e por outro, confusa e trémula quisera chorar, quisera rogar. Mas a minha prece em blasfémia se transforma. O pranto é para mim culpa e suspiro. Na noite escura se perde a minha mente e nesta angústia cruel quisera morrer. Deuses, tende piedade do meu sofrimento, a minha dor não tem esperança. Amor fatal, tremendo amor, despedaça-me o coração, faz-me morrer.”

Este trecho – venerado pela minha avó e pai – resume na perfeição o drama de Aida mas é muito mais do que isso. É talvez o mais belo pedaço de música arrancado ao talento de um homem. Ao ouvir Ritorna vincitor sentimos um calafrio pelo corpo todo. Música e letra beijam-se apaixonadamente. É um momento perfeito que podemos ouvir e ouvir sem nos cansarmos.

Hoje, mais do que nunca adoro a Aida de Verdi. E percebo que estou a ficar perigosamente igual ao meu pai: uma lamechas irrecuperável. Dizem que há todo um património genético que herdamos. No meu caso, não tenho a menor dúvida da origem desta sensibilidade exacerbada…

Aconteceu uma coisa extraordinária: chorei ao contar uma história para a Constança adormecer. A miúda a olhar para mim, e eu, toda trémula, a tentar ler até ao fim. Chama-se o conto “O Mosquito de Bom Coração” e é de Janine Gollier. Resumidamente, trata-se de um jovem mosquito – cuja mamã achava que um dia faria grandes coisas – que é apanhado numa teia de aranha. E quando ela vai para o devorar suplica-lhe: “Por favor, senhora aranha, tenha pena da minha mamã e do meu papá! Vão morrer de desgosto se souberem da minha infelicidade! Não tem aranhazinhas para criar e acarinhar? Então, pense nos meus pais e liberte-me!”.

A aranha compadeceu-se e libertou o seu prisioneiro. Pouco depois foi levada por uma andorinha e também ela se pôs a implorar: “Peço-vos, senhora andorinha liberte-me como eu libertei o mosquito da minha teia. Você, uma bela ave rápida como o vento, seria menos generosa que uma insignificante aranha?”.

Depois de reflectir, a ave disse: “A andorinha não será menos generosa que a aranha. Vai, és livre!”.

Uns dias depois, a andorinha é rapinada por uma águia que a leva nas suas fortes garras: “Oh, grande águia-real, a mais vigorosa e a mais nobre das aves, serás menos generosa que uma minúscula aranha ou que uma pobre andorinha? A aranha libertou o mosquito preso na sua teia e eu não comi a aranha.”

Ao ouvir o discurso, a águia libertou a andorinha que partiu feliz por ter escutado as súplicas da aranha. E a história termina assim: “Foi uma época, na qual todos os membros dos animais alados, do mais ínfimo insecto à águia-real viveram em paz graças ao bom coração de um mosquito pequenino, mais leve que um fio de pena ou que uma pétala de violeta.”

O que me emocionou na história infantil foi a cadeia de boas acções. Mentalmente, a característica que mais associo ao meu pai é, por certo, a bondade. Por isso, dediquei ao meu pai o meu último romance publicado. E, todos os dias, esforço-me por seguir esta sua lição de vida e minha maior herança.

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