Maria tinha uma filha de quatro anos que amava apaixonadamente. Estava separada do pai da filha, um homem disfuncional a toda a prova. É muito triste conhecer um ser disfuncional. A palavra é deveras técnica. As pessoas normais apelidam-nos de loucos e falam da loucura mas os técnicos de saúde não aprovam a expressão e, daí, o termo disfuncional: uma pessoa que não funciona como as outras, que tem algo no seu mecanismo interior com falhas graves. Pode aparentar uma certa normalidade e, até, orgulhar-se dessa dissimulação mas quando o clique se dá destrambelha de todo. O que provoca o processo é um mistério da mente. Por isso, essas pessoas são confinadas a um espaço e estudadas para não agredirem as demais. Mas a grande maioria anda à solta e todos nós podemos ter o azar de as encontrarmos ou, pior, de nos apaixonarmos por elas.
Maria nunca conhecera outro homem para além do pai da filha. A violência e a instabilidade levaram-nos à separação. Maria arranjou um novo companheiro que a seduziu como continuaria a seduzir outras. E um dia, Maria perdeu a filha. Procurou-a debaixo de cada pedra e regato, enlouqueceu numa busca frenética e inútil. O corpo da criança apareceria sem vida, os pequenos pulmões cheios de água.
Todos os anos, dezenas de crianças morrem afogadas. É uma das principais causas de morte infantil. As crianças gostam de brincar e não têm, ao contrário dos adultos, noção de perigo.
O mundo de Maria desabou com a morte da filha. Enquanto a procurara sentira-se só. Telefonara para aqueles que a poderiam ter ajudado mas ninguém a atendera. No preciso momento, em que Maria corria e chamava pela filha, o companheiro dela partilhava droga e sexo com uma outra qualquer mulher que seduzira, tendo por isso ignorado a chamada no seu telemóvel.
Quando lhe disseram que já não tinha filha e Maria somou a ausência do namorado confrontou-o e expulsou-o de casa. Disse-lhe que estava farta de tratar dos outros e que, de ora em diante, passaria apenas a cuidar dela própria. Os homens são muito egoístas. Só pensam neles. E neles.
O pai da miúda estava proibido pelos tribunais de se aproximar de Maria. Mesmo assim fê-lo. Da primeira vez, para a culpar do acidente que vitimara a filha de ambos. Da segunda vez, para a assassinar com uma caçadeira e matar-se a ele próprio de seguida. E as últimas frases proferidas entre ambos foram: “Eu pari a nossa criança, seu monstro” e “Não, tu mataste-a. Ela morreu por tua causa.”
O azar de Maria não tem princípio nem fim: desde a escolha dos homens, à morte acidental da filha e ao seu próprio assassinato às mãos do ex-marido. A Maria teve mesmo muito azar. E quantos Marias não há por aí?...

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