Fúria em estado líquido
Quando penso no que aconteceu na Madeira no dia 20 deste mês associo o Titanic. Em particular, no quadro dos “ses”. Existem sempre muitos “ses” nos grandes acidentes e tragédias. Se não tivesse chovido tanto desde há três meses para cá as terras não estariam saturadas para aguentar uma tempestade; se a massa de ar frio vinda da Europa e a tropical por cima da ilha não tivessem embatido; se água do oceano não fosse tão quente não teria havido uma rápida condensação; se a ilha não tivesse declives tão angulosos as correntes não teriam acelerado tanto na sua fúria destruidora; se a chuva não tivesse derretido a neve no alto das montanhas não teria escorrido ainda mais água em direcção ao mar; se menos pessoas andassem nas ruas menos morreriam; se existisse um radar ou um sistema de alerta de chuvas intensas que possam causar inundações ou deslizamentos – como existe no Rio de Janeiro, Hong Kong e São Francisco, três cidades construídas em bossas de camelo; se mais arvoredo tivesse retido a água – a floresta laurissilva Património da Humanidade tem sido alegremente desbastada – se as ribeiras embora encanadas e com muros de suporte, muralhas ex-líbris da cidade, não tivessem estranguladas e abusivamente redireccionadas; se os pequenos cursos de água que vão dar às ribeiras não tivessem cheios de entulho que é mandado encosta a baixo durante a construção de estradas e se as pessoas deixassem de atirar para estes riachos toda a espécie de lixo desde frigoríficos, mesas, cadeiras; se os pobres – as maiores vítimas da fúria em estado líquido, tal como os passageiros da terceira classe do Titanic – não vivessem em casitas de fósforos incrustadas em encostas; se depois de se pagar um estudo de centenas de milhares de euros as recomendações não tivessem ficado numa gaveta; se, tão-somente, a água tivesse escoado…
Madeira II
Os nomes e as caras das vítimas
Somos frios perante as estatísticas mas o drama humano quando tem nome mexe connosco. Nomear é dar uma identidade e daí vem a afeição. Assim se perdeu aquele grande perito – o maior de sempre – que estudou e morreu às garras de um urso pardo. Quando começou a dar nomes aos ursinhos e a acampar junto deles como se fossem os seus melhores amigos perdeu a noção do perigo.
Na Madeira, sou obrigada a pensar: Como pode um rapaz de 18 anos, chamado FELIZ, ter perdido os pais, o irmão mais novo, os dois primos, a avó e a tia, correr cheio de sangue, talvez ainda tenha visto o pai a tentar salvar o pequeno Marcelino de 11 anos que chorava preso ao entulho, como pode Feliz Macedo saber – ele que está hospitalizado sem se lembrar do que aconteceu, num estranho processo em que a memória humana se auto apaga a fim de preservar a sanidade da mente – o que aconteceu à sua família que já não existe? Quem terá a coragem de devolver a memória e a dor a Feliz Macedo? Quem?
Quem dirá à senhora do Continente que passeava com a matrícula do carro dela na mão porque conseguira saltar e salvar-se qual o carro-caixão onde jazem o marido e o filho?
O que sentirá um homem quando encontra uma criança de 5 ou 6 anos com a cabeça debaixo da roda traseira de um carro?
Como se sentirão os que põem num site uma fotografia da pequena Francisca de três anos e, nesse mesmo dia, são informados de que o seu pequeno corpo foi encontrado, assim como o da sua avó?
Que sentirá o inglês George Gaines quando de volta a casa se lembrar que a sua mulher Pamela pereceu na fúria da água lamacenta?
Numa casa onde se abrigaram cinco pessoas caiu uma grua e todos morreram. Entre os cinco estava a mulher de Domingos Santana que se interroga: “Mas que vida vou arranjar agora sem a minha mulher? Estou desgraçado.”
Como é que uma menina de 9 anos que adorava o pai Francisco BELO irá aceitar que o heroísmo dele o tenha morto? O bombeiro pereceu ao tentar salvar uma idosa, que também apareceu morta. Deixou mulher e dois filhos. Como é que este homem de belo coração que irá ser oficialmente condecorado e que vivia para a família irá deixar todos os que o amavam, em particular, uma menina de 9 anos que o seguia para todo o lado?
Madeira III
Não lixem o João Jardim
Ser líder nunca foi tarefa fácil. É preciso um espírito especial. Aliás, é uma das características dos sobredotados: a capacidade de liderança. João Jardim é feito dessa fibra. Podemos gostar dele ou não mas nunca podemos questionar o amor deste homem pela Madeira. Com câmaras ou sem elas, o líder madeirense ouviu os seus conterrâneos, procurou acalmá-los, prometeu-lhes – quase como um pai – que tudo iria ficar bem. Teve o sangue frio do Marquês de Pombal quando proferiu as mesmas palavras ditas por Pombal em 1775, aquando do terramoto de Lisboa: “É preciso sepultar os mortos e cuidar dos vivos.” E se as proferiu com a voz embargada, quase gritou quando também declarou: “Vamos reconstruir tudo! O madeirense está habituado a defrontar a Natureza e a ganhar!”.
Se calhar, muitos – por oposição política – preferiam-no ver mais vulnerável, a assumir-se como vítima ou culpado. Pois bem, deve ser o ar da América. João Jardim tem o espírito americano: não se deixa intimidar ou vitimizar. Também os norte-americanos quiseram refazer as Torres Gémeas a quente. E depois pensaram melhor a frio. Deixemo-lo pensar. Por certo, terão de ser feitas alterações mas este líder terá o apoio de todos os elucidados que têm a atitude mental saudável de não se sentirem vítimas. Reconstruir exige força redobrada e votos de confiança.

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