terça-feira, 23 de outubro de 2007

Mães famosas e... sem filhos

A ideia de qualquer mãe perder os filhos por ordem do tribunal é assustadora. Em Portugal, a lei defende a mulher e favorece-a na maioria dos casos. Facto ou mito? De qualquer modo, nos puritanos Estados Unidos da América o cerco aperta-se a toda e qualquer mãe que – independentemente da fama – negligencie a sua prole.
Vem tudo isto a propósito de um tribunal ter retirado temporariamente a custódia dos filhos à cantora e bailarina Britney Spears. Para qualquer miúda, aos 25 anos, perder a custódia de dois filhos tão novos – Jayden James tem 1 ano e Sean Preston 2 – o cenário é devastador. Porque seria diferente para a cantora?
Irritam-me até à quinta casa todos aqueles que a condenam por tudo e por nada. Primeiro, o mundo rendeu-se ao corpo tonificado da Princesa da Pop. Agora, todos a marginalizam e razões não lhes faltam: é porque rapa o cabelo, ou porque mostra a lingerie ou mesmo mostra que não a usa, ou porque bebe álcool e consome drogas, ou porque está gorda e decadente, ou porque é uma louca por compras, etc. Antes da maternidade, os mesmos excessos num corpo de sereia não chocavam ninguém. Depois de ter parido dois filhos e de se ter divorciado de Kevin Federline tais comportamentos já não são aceitáveis. Ou seja, a uma miúda famosa e boazona perdoam-se os devaneios e até se fazem programas sobre as excentricidades dela. Mas depois de ser mãe, a censura lembra-se de carimbar-lhe a cara de negro. Não está certo.
Acredito que Britney Spears esteja a aprender a ser mãe. Não é tarefa fácil e ninguém nasce ensinada para a desempenhar. Os bebés dão montanhas de trabalho. Depois, Spears tem ainda de lidar com uma separação. Por acréscimo, o próprio corpo dela – outrora tão desejado – modificou-se. Ela engordou mas acredito que consiga emagrecer, assim como muitas outras celebridades que têm todos os meios para isso. Entretanto, esteve parada. A carreira dela sofreu com a opção família. Vai ser difícil arrancar, encontrar a disposição para o pontapé de saída. Mas enquanto ela luta por se reerguer é preciso desancarem-na a torto e a direito? Não será a inveja universal a funcionar?
“É uma criança a tomar conta de crianças”, disse um dia um dos seus guarda-costas. E que bela frase. Aceito-a como a mais acertada até agora. O que Spears precisa é de estímulo e de apoio, tanto dos seus amigos como dos seus familiares. Casou no auge da fama. Já alguém disse em público, numa cerimónia de entrega de prémios, que os seus dois filhos tinham sido os seus dois erros mais adoráveis… Calculo que seja duro ouvir isto e muito mais. Mas é fácil dar pontapés quando um pobre diabo está no chão…
Muitas outras mães famosas perderam temporariamente a custódia dos seus filhos por excesso de álcool ou drogas, entre elas Kim Delaney, Courtney Love, Paula Pounstone e Tantum O’Neal. Todas elas voltaram a ter a custódia total ou parcial dos filhos.
Não defendo que uma mulher – famosa ou não – que tenha condutas de risco, nomeadamente o conduzir embriagada ou consumir drogas, passeie os seus rebentos alegremente. Tanto ela como as crianças estarão em risco. Porém, não podemos acusar Britney de ter feito algo menos próprio com os filhos ao lado. E ninguém duvida que ela os adora. Tem os seus problemas, como todos nós, e desejo que os saiba ultrapassar.
Não me lembro de nenhuma mãe famosa ter morto os filhos mas lembro-me de mães que saem do anonimato por o fazer… E, às vezes, as coisas acontecem quando menos se espera. Isadora Duncan, por exemplo, essa bailarina doida perdeu os filhos quando a ama deles e o motorista afundaram o carro no Sena… Adorava que Britney calasse as más-línguas e voltasse a surpreender tudo e todos com um regresso magnífico. Mas, sobretudo, espero que consiga encontrar-se a si própria e saiba ser feliz. Por ela e pelos filhos.

domingo, 21 de outubro de 2007

That's what mothers do

Aruba é uma ilha nas Caraíbas, ao largo da costa da Venezuela. É território autónomo da Holanda, separado das Antilhas Holandesas. Como seria de esperar, o holandês é a língua oficial, embora, curiosamente, o dialecto local seja oriundo do português. Mas mais do que um cenário paradisíaco Aruba está marcada – desde o dia 30 de Maio de 2005 – como sendo o local de desaparecimento de Natalee Holloway. Mais de dois anos volvidos sem até à data se encontrar indícios da jovem estudante norte-americana, a mãe dela – Beth Holloway – dá à estampa o livro “Evidence of Faith – Loving Natalee: The True Story of The Aruba Kidnapping and its Aftermath”. Lançado este mês, o livro é o testemunho de esperança e fé de uma mãe que um dia deixou a filha partir numa viagem de finalistas de liceu para nunca mais a ver. Uma mãe que ainda grita a sua esperança não só porque esta é a última a morrer mas também porque como ela própria afirma: “I’m supposed to be Natalee’s ultimate protector. That’s what mothers do.”
Aos 18 anos, Natalee e 124 colegas de Mountain Brook High School, de Alabama, E.U.A., partiram numa viagem de cinco dias. Todos regressaram às suas casas e respectivas famílias menos ela. A última vez que a viram foi a sair de um bar – onde se comentava que era preciso beber com cuidado porque “metiam coisas nas bebidas” – à uma e meia da manhã, na companhia de três rapazes: Joran van der Sloot e os irmãos Deepak e Satish Kalpoe, tendo todos seguido no carro dos Kalpoe.
No quarto de hotel dela ficaram a mala, o passaporte, o telemóvel e a máquina fotográfica. Objectos sem dona, testemunhas esquecidas da jovem que não só perdeu o voo de regresso como, segundo crêem as autoridades da ilha e holandesas em investigações conjuntas que se arrastaram até o passado mês de Setembro, também terá perdido a própria vida.
Os três jovens suspeitos foram interrogados e contaram diferentes versões dos acontecimentos. A 9 de Junho de 2005 chegaram a ser presos por suspeita de rapto e assassínio de Natalee. Segundo a polícia, logo a partir do terceiro dia do desaparecimento da jovem, montaram um cerco apertado aos rapazes, espiando os seus passos, colocando escutas telefónicos e mesmo monitorizando os seus e-mails. Mas por pressão da família de Natalee viram-se obrigados a prendê-los antes que pudessem apanhar qualquer prova incriminatória.
A versão dos dois irmãos Kalpoe remetia a “culpa” para Van der Sloot e vice-versa. Entre três histórias diferentes, a polícia acredita naquela em que os Kalpoe deixaram Natalee e Van der Sloot numa praia. Isto, porque segundo a polícia, “uma jovem de Alabama não ia ficar no carro com dois miúdos pretos”.
Outros suspeitos foram presos, em parte devido aos testemunhos dos rapazes. Porém, tão depressa entravam como saiam. Também os irmãos Kalpoe foram libertados mas presos de novo a 26 de Agosto. Porém, a 3 de Setembro todos os suspeitos foram libertados e onze dias mais tarde foram-lhes retiradas por um juiz todas as acusações.
Joran Van der Sloot vive agora na Holanda, onde se encontra a tirar um curso. Em entrevistas posteriores reclama não ter dito a verdade antes por se ter sentido envergonhado ao ter deixado uma rapariga sozinha na praia, ainda que a pedido dela…
Os irmãos Kalpoe chegaram a ir ao famoso programa do Dr. Phil. Todos à solta e todos livres de qualquer acusação…
Para a mãe de Natalee, os três mentiram. Ela acredita que a filha foi violada e morta. Alguns colegas dela disseram que Natalee bebera o tempo todo e que viram Joran Van der Sloot lamber um shot entornado propositadamente na barriga dela. Dizem que Natalee também teria droga com ela, não se sabendo, contudo, se esta a terá usado. Mas mesmo que Natalee bebesse uns copos e fumasse erva seria esse comportamento tão diferente dos outros jovens americanos e holandeses num contexto de viagem de finalistas?
A mãe de Natalee é acusada de se centrar em demasia nos três jovens, descartando toda e qualquer outra teoria respeitante ao desaparecimento da filha. Para ela, Natalee foi violada pelos três e assassinada às mãos deles. Mesmo sem provas, acusa-os sempre que pode, em qualquer entrevista que lhe façam. Beth, que partiu logo para a ilha à procura da filha recorda: “I don’t have a stone that I didn´t turn over.”
Beth Holloway é fundadora do International Safe Travels Foundation que dá dicas a 15 mil estudantes de 20 estados: é preciso desenvolver um sistema de protecção, activar as chamadas para o estrangeiro no telemóvel – roaming – quando se parte em férias, nunca dizer a estranhos quando a viagem acaba, etc. “É necessário evitar que outra família passe pela mesma experiência”, declara entre a mágoa e a raiva.
Ainda em Abril deste ano, a casa dos pais de Joran van der Sloot em Aruba e a área à sua volta foi toda virada a pente fino pela polícia. Também em Abril, Van der Sloot publicou, com a ajuda de um repórter, o livro “The Case of Natalee Holloway”.
Pessoalmente, custa-me acreditar que se deixe sozinha na praia uma rapariga a quem se lambeu a barriga num bar… E também não creio que uma rapariga pedisse para ficar só numa praia desconhecida. Mas, uma vez mais, não temos cadáver.
Lembro-me das três jovens italianas na ilha do Sal, Cabo Verde. Foi em Fevereiro deste ano. Duas assassinadas e uma terceira – de 17 anos – que consegui fugir. Uma delas foi enterrada ainda com vida, cheia de terra e de areia nos pulmões, como revelou a autópsia. Se a terceira não tem fugido e levado as autoridades ao local do crime contando todo o horror daquela noite de violação e morte, até hoje jazeria ao lado das outras, silenciada pela areia. E os dois cabo-verdianos criminosos seguiriam as suas vidas alheios ao massacre cometido. Aliás, se fossem cultos talvez escrevessem um livro sobre o desaparecimento de turistas na ilha. Porém, perante as provas e testemunho da adolescente confessaram o crime. Giorgia Bussoto, de 28 anos, e Dalia Saiani, de 27 anos, foram agredidas na cabeça com facas e apedrejadas até à morte. A autópsia efectuada às amantes de windsurf detectou sémen na vagina das duas.
Não sei se Natalee Holloway também tinha um buraco escavado na praia à espera dela. Mas sei que a intuição de Beth não deve andar longe da verdade. Pena é que não se consiga provar que as meninas, adolescentes e mulheres não se evaporam à face da Terra…

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Meninas perdidas

Uma das minhas leituras de férias foi “A Estrela de Joana”, da autoria de um ex-inspector da PJ, Paulo Pereira Cristóvão. Como todos os portugueses sentia curiosidade em saber o que de facto teria acontecido à Joana. Por outro lado, o facto de o livro ter sido escrito por um dos polícias envolvidos na investigação tornava aliciante espreitar para a forma como a nossa polícia – tantas vezes criticada como elogiada – trabalhara neste caso. Sendo também eu mãe de uma bebé lindíssima de oito meses recentemente feitos foi mais outro motivo: se tenho uma menina e, se neste país, elas desaparecem deixa-me cá acautelar.
Sobre o funcionamento da PJ fiquei esclarecida. Não são profissionais a trabalhar antes se desenrrascam. Por exemplo, em vez de selarem a tempo e horas uma sala ou uma casa para a equipa forense trabalhar arrancam pernas de sofás e retalham colchões para estes serem analisados em laboratório. Disse equipa? Afinal parece que era só uma mulher munida de uma luz mágica… Têm boa vontade estes senhores. Mas só isso é insuficiente. A falta de coordenação entre uns e outros é total. A intromissão da senhora directora da prisão onde se encontrava detida Leonor Cipriano é disso exemplo. Como gerir interrogatórios e silêncios quando alguém não autorizado pretende descobrir o grande segredo estorvando o trabalho extenuante de outros? E uma pessoa que se tenta suicidar pelo vácuo do corrimão de umas escadas e falha fica com a cabeça cheia de hematomas porquê? Chegou a bater nalgum degrau? São célebres as tareias da PJ. Sobretudo quando os suspeitos são jovens ou pobres. Caem sempre numas escadas quaisquer… Leonor não acusou o autor do livro. Aliás, refere que o homem que vê alinhado com outros mais, a interrogou mas que não lhe bateu. Ninguém sabe se lhe bateram ou não. Mas o sistema acreditou na versão da presa e os polícias foram ouvidos. Hoje já não são polícias… Apesar da vontade insana de querermos sacudir alguém que sabemos nos está a mentir e a ocultar informação temos de usar outros recursos que não a força física. Se somos todos tão inteligentes e eles são pobres e básicos, de certeza que há outros métodos para extrair confissões… Ainda bem que a Kate Mccann não se quis atirar por umas escadas abaixo durante as 11 horas de interrogatório a que foi sujeita. Caso contrário, teríamos mais picardias entre a nossa e a polícia deles.
Sobre o conteúdo do livro acho-o puro, no sentido em que a PJ trabalha mesmo assim e ainda bem que pudemos confirmar aquilo de que há muito suspeitávamos: não são competentes mas fazem o que podem e com os meios que têm. Também com a Maddie as coisas não podiam ter sido diferentes. Ser a própria polícia a descurar os eventuais locais de crime é mau. Ser polícia para mostrar prepotência e andar com um revólver atrás do cu ainda é pior. Fiquei com a impressão de que precisamos de investigadores, de psicólogos, de detectives e inspectores que saibam trabalhar em equipa sem que o ego de uns atrapalhe o de outros. Fornadas de gente nova e pura, bem-intencionada. Não admira que haja tanto desemprego no país. Os cargos estão realmente vagos. A PJ precisa de um pulmão novo, de muito oxigénio para se libertar da gangrena que a corrói.
Não é isso que vai impedir que miúdas deste país sejam esquartejadas por mães e tios incestuosos e enviadas em pedaços colocados debaixo dos assentos de automóveis vermelhos para serem prensados em Espanha. Ou não é isso que vai impedir que uma miúda inglesa desapareça de um quarto onde foi abandonada pelos pais. Mas pode fazer com que se encontrem as provas dos homicídios admitidos sem cadáver. Ou fazer com que os homicídios se admitam E uma evidência é bem diferente de uma especulação.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Plantar uma árvore



Ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Por qualquer ordem serve. A mim faltava-me a parte da árvore e, por isso, arregacei mangas e com a ajuda do meu sogro plantei uma Golden Delicious no quintal dele. Gostei imenso. Era uma árvore muito fininha mas com ar de que ia sobreviver. Com a enxada na mão sentia-me radiante pelo meu feito. Até pincelei o tronco de cal e tudo! E reguei-a, claro. Sempre coordenada e auxiliada pelo meu sogro, que de árvores percebe e bem. É proprietário de castanheiros antigos de uma floresta mágica, cujo terreno pode ser feito de erva macia, a qual afunda sob os nossos pés ou emaranhados caminhos de fetos e amoras, silvas que picam e troncos grossos deixados ficar como homenagem a árvores inimagináveis de tão imensas que eram. Existem muros de pedras sobrepostas e muitos declives por onde nos podem espreitar abelhas assassinas. Uma delas veio directa aos meus lábios. Enxotei-a e corri, e ela sempre a dar em cima, até que se enfiou pela minha t-shirt. “Quando as abelhas atacam não devemos fazer gestos que as irritem”, disse-me, mais tarde, a minha mãe. É a lógica do ataque dos tubarões: não se mexam e tal que o tubarãozinho passa ao lado, uma vez que são os movimentos que o atraem. Muito bem: e quem é que consegue, num ataque, ficar PARADO? Quem? É dar ao slide e rezar para que todos os santos ajudem. E o de Compostela ainda se devia lembrar do meu abracinho apertado.
Consegui sair quase ilesa. Picou à superfície mas não deixou ferrão. Menos mal. Nada que uma pomada não atenuasse.
No meio de tantas árvores, a minha vai ser mais uma. Contudo, é a minha árvore. Sou mãe dela. Ajudei-a a nascer e vou velar por ela, mesmo que seja a quilómetros de distância por telepatia e boa vontade. Sinto que neste mundo sujo e poluído já fiz a diferença. Dei-lhe mais um pulmão. Pequenino mas bem intencionado. E as maçãs até podem revelar-se deliciosas como o nome sugere.
Um parto, dois livros publicados e uma macieira plantada. Posso morrer em paz. Isto é, como ser humano já fiz a minha parte. Não é que não quisesse publicar muitos mais livros. Oh, se queria! Ter mais rebentos é que não. E árvores, por mim, era uma floresta! Adoro o campo, o sussurrar das folhas, o silêncio da noite e a alegria dos grilos, sem esquecer o brilho das estrelas. Mas também não me vejo como camponesa. O meu lado trendy e citadino impede-me de deixar a civilização. E nenhum amor se sobrepõe ao MAR. Um dia gostava de ter a minha própria editora. É um sonho. Publicar os meus livros e todos aqueles que aprovássemos por serem originais e belos. Ou inquietantes. Porém, ainda não me saiu o euromilhões. Talvez um dia herde e possa realizar esse desejo. Até lá, vou continuar a fazer aquilo que gosto e sei. Escrever e ler até que os olhos me doam! E, de vez em quando, respirar uns ares marítimos ou campestres, dependendo da psicose do clã.

A sombra da outra

O ambiente já estava tenso mas algo veio ainda perturbar mais o cenário. O pai da bebé deixou o telemóvel na sala do andar de cima e quando por ele passei assinalava nova mensagem. Como o meu marido é muito dado a convívio alheio li algo que me deixou – até hoje – em Marte: “Não há nada para resolver. Vamos mas é fazer amor e tomar banho juntinhos.” Explodi… Imagine-se a cena: eu desvairada com o telemóvel dele na minha mão, trémula, a ler em voz alta aquele SMS nojento, ele que, entretanto, viera do andar de baixo a tentar apanhar-me – nessa altura já eu me escapara para o quarto e estava de pé, em cima da nossa cama, a brandir a prova – a mãe dele com a bebé ao colo a perseguir-nos e a gritar: “Não acredite nisso! Isso é tudo mentira! É mentira! Ele gosta é de si! Olha a sua bebé!”, e por último, o desgraçado do meu sogro – única pessoa que é lúcida e fenomenal naquela família – a exigir o “deixem-na em paz”.
Fechei-me na casa de banho e fiz o que nunca se deve fazer mas como não acredito em nada do que diz o pai da bebé telefonei à fulana. A colega de trabalho dele lá me disse o quanto estavam envolvidíssimos, o como ele não gostava de mim mas ficava comigo só por causa da bebé e que ela, coitada, nunca reparara sequer que ele era um homem casado e nunca se imaginara na pobre situação da amante, da outra. Enfim… Enquanto mantinha este estimulante diálogo em vésperas de fazer um ano de casada, o meu marido tentava arrombar a porta a pontapé, acto no qual foi bem sucedido, tendo partido a porta e ferido o calcanhar que o pai dele viria a cuidar e a desinfectar meticulosamente nos dias seguintes…
É interessante as pessoas tirarem férias porque precisam. E férias de férias destas… não se tiram? O enredo felliniano não podia ser mais perfeito… E depois? O que se faz numa situação destas? Chora-se, insulta-se, grita-se a palavra divórcio a plenos pulmões e percebe-se porque acontecem tantos crimes passionais no norte do país.
Peço ao meu sogro para me trazer de volta a Lisboa. Ele está muito triste. E até envergonhado. O filho tem sido uma surpresa desagradável. Mas é filho. Numa confissão desesperada diz-me que a vontade dele era desfazer-se de tudo e fechar-se num lar. Ignorar o mundo. Mas depois lembra-se que o filho sozinho desgraça-se mais depressa. Teme-lhe as companhias e os vícios. Olha para mim e entendemo-nos sem mais palavras. É duro ser pai. É duro ser mulher de um homem imaturo e desleal. Estamos no mesmo barco. Profundamente desapontados.
De regresso a casa, exijo que o pai da bebé esclareça a situação de uma vez por todas. Ele nega tudo. Fala de uma vingança feminina por não lhe dar o troco que ela queria. E eu faço o que todas as mulheres que têm uma filha de sete meses fazem: finjo acreditar. Ligo o automático e sigo viagem. Literal. Vamos passar uns dias a Santiago de Compostela. Fazemos amor, até. O que é tão raro em nós. Este homem vai conseguir apagar-me o desejo… Numa magnífica operação de charme ou compensação esmera-se em agradar-me. É um passeio simpático. Eu abraço o santo e peço PAZ. Ele pede mais um filho que não terá. Pelo menos, não serei eu a mãe. Não foi assim que imaginei o meu casamento. Estou descrente de tudo. Apetece-me morrer. Fechar-me e desaparecer. Só a minha bebé vale a pena. E eu amo-a perdidamente. Não sei se ela um dia irá ler este blogue. Sei que todas as acções provocam reacções. E que os gestos das pessoas ficam impressos na vida e no coração dos outros.

Isto ainda não é o Paquistão

Porque será apanágio masculino falar mal das sogras? Países como o Afeganistão e o Paquistão vêm-me à mente com alguma regularidade. Em particular quando - como mulher casada e mãe - passo duas semanas em casa dos meus sogros em Trás-os-Montes, sentindo-me uma propriedade da família do meu marido que ditam quando devo comer, descansar e passear, sem direitos nem vontade em relação à minha própria bebé. Haverá algo mais paquistanês? “Coma sossegada”, “durma descansada”, “vá tranquila” eram expressões repetidas com o único objectivo de me sacarem a miúda. Ora, uma mulher enerva-se. Uma mãe que se preze e saiba o que é ser mãe fica fora de si. Então tem alguma lógica eu ficar de braços cruzados durante quinze dias e esquecer-me de que sou mãe? Há alguém que o consiga fazer?
Uma coisa é nós, os pais, irmos para qualquer lado e a bebé ficar ao cuidado dos sogros. Outra totalmente diferente é estando com eles, partilhando a mesma casa sermos ignorados enquanto pais. Foi como se nos passassem um atestado de incapacidade. Alimentar, adormecer, passear a bebé passaram a ser tarefas que a minha sogra tomava a peito com exagerada gana. Aquilo foi de tal modo, que até para lhe limparmos o rabo ou sacar macacos do nariz exigia uma conversa diplomática de modo a não se ferirem susceptibilidades. A mesma sogra que não se dava com a dela e agora exerce este comportamento doentio. Tal como o Cato da Pantera Cor-de-Rosa atacava-me mal eu punha o pé no corredor. Como me sobressaltavam as suas investidas inesperadas: “Hoje está muito frio é melhor vestir-lhe um casaco”, ou “ela já bebeu o leite”, ou “vai dar-lhe banho?”. Sobressaltada e trémula devolvia-lhe um bom-dia irónico que acabou por desaparecer de tão saturada.
Claro que me queixei ao pai da bebé. Disse-lhe: “Ouve lá, a tua mãe tem uma psicose qualquer. Isto não é normal. Não me importo que tome conta da bebé e até agradeço toda a ajuda e tal mas agora, connosco aqui, tem de haver equilíbrio. Ela é a minha filha! Quero ser eu a dar-lhe banho e a vesti-la. Não vim carregada de roupas para a tua mãe andar a vestir-lhe as dela!”. E isso é outra estória… Os meus sogros fazem questão de comprar roupa para a neta e vesti-la à maneira deles, o que é mais uma cena inexplicável… Não sei quantos pais iriam tolerar isto.
O crescendo foi a proposta de numas próximas férias comprarem uma cama para ficar no quarto da bebé com a finalidade de a minha sogra dormir junto da pequena!!! Dá para acreditar em tamanho absurdo? Saltou-me a tampa e declarei bastante furiosa que isso nem pensar! Se tivesse de dormir com alguém dormia comigo! E aproveitei para lhes explicar que de futuro as coisas iam ser diferentes: eu trato da minha bebé e fico perto dela e ninguém mais me arranca a miúda dos braços ou se o fizerem rolam cabeças. Juro que fiquei atónita com tudo isto. E esse mal-estar profundo ainda não me abandonou sequer. Continuo em estado de choque. Pior: ganhei aversão. Nunca mais vou passar pelo mesmo. Quem quiser ser banana que fale por si. Mas à primeira todos caem e à segunda só cai quem quer.
Tensa e irritada com toda esta situação, os dias lá se passaram, comigo a contá-los com uma ansiedade há muito esquecida. Lembrava-me do meu colégio interno e de como marcava os dias com uma cruz na ânsia de regressar a casa. Foi mau. Muito mau. Arrasou-me psicologicamente. E depois uma pessoa tem de se conter para não dizer mesmo o que pensa e tal. Uma merda. As sogras, sendo mulheres, nunca são punidas e acabam por escapar a todas as censuras… Até quando?!?!?!?!