quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Isto ainda não é o Paquistão

Porque será apanágio masculino falar mal das sogras? Países como o Afeganistão e o Paquistão vêm-me à mente com alguma regularidade. Em particular quando - como mulher casada e mãe - passo duas semanas em casa dos meus sogros em Trás-os-Montes, sentindo-me uma propriedade da família do meu marido que ditam quando devo comer, descansar e passear, sem direitos nem vontade em relação à minha própria bebé. Haverá algo mais paquistanês? “Coma sossegada”, “durma descansada”, “vá tranquila” eram expressões repetidas com o único objectivo de me sacarem a miúda. Ora, uma mulher enerva-se. Uma mãe que se preze e saiba o que é ser mãe fica fora de si. Então tem alguma lógica eu ficar de braços cruzados durante quinze dias e esquecer-me de que sou mãe? Há alguém que o consiga fazer?
Uma coisa é nós, os pais, irmos para qualquer lado e a bebé ficar ao cuidado dos sogros. Outra totalmente diferente é estando com eles, partilhando a mesma casa sermos ignorados enquanto pais. Foi como se nos passassem um atestado de incapacidade. Alimentar, adormecer, passear a bebé passaram a ser tarefas que a minha sogra tomava a peito com exagerada gana. Aquilo foi de tal modo, que até para lhe limparmos o rabo ou sacar macacos do nariz exigia uma conversa diplomática de modo a não se ferirem susceptibilidades. A mesma sogra que não se dava com a dela e agora exerce este comportamento doentio. Tal como o Cato da Pantera Cor-de-Rosa atacava-me mal eu punha o pé no corredor. Como me sobressaltavam as suas investidas inesperadas: “Hoje está muito frio é melhor vestir-lhe um casaco”, ou “ela já bebeu o leite”, ou “vai dar-lhe banho?”. Sobressaltada e trémula devolvia-lhe um bom-dia irónico que acabou por desaparecer de tão saturada.
Claro que me queixei ao pai da bebé. Disse-lhe: “Ouve lá, a tua mãe tem uma psicose qualquer. Isto não é normal. Não me importo que tome conta da bebé e até agradeço toda a ajuda e tal mas agora, connosco aqui, tem de haver equilíbrio. Ela é a minha filha! Quero ser eu a dar-lhe banho e a vesti-la. Não vim carregada de roupas para a tua mãe andar a vestir-lhe as dela!”. E isso é outra estória… Os meus sogros fazem questão de comprar roupa para a neta e vesti-la à maneira deles, o que é mais uma cena inexplicável… Não sei quantos pais iriam tolerar isto.
O crescendo foi a proposta de numas próximas férias comprarem uma cama para ficar no quarto da bebé com a finalidade de a minha sogra dormir junto da pequena!!! Dá para acreditar em tamanho absurdo? Saltou-me a tampa e declarei bastante furiosa que isso nem pensar! Se tivesse de dormir com alguém dormia comigo! E aproveitei para lhes explicar que de futuro as coisas iam ser diferentes: eu trato da minha bebé e fico perto dela e ninguém mais me arranca a miúda dos braços ou se o fizerem rolam cabeças. Juro que fiquei atónita com tudo isto. E esse mal-estar profundo ainda não me abandonou sequer. Continuo em estado de choque. Pior: ganhei aversão. Nunca mais vou passar pelo mesmo. Quem quiser ser banana que fale por si. Mas à primeira todos caem e à segunda só cai quem quer.
Tensa e irritada com toda esta situação, os dias lá se passaram, comigo a contá-los com uma ansiedade há muito esquecida. Lembrava-me do meu colégio interno e de como marcava os dias com uma cruz na ânsia de regressar a casa. Foi mau. Muito mau. Arrasou-me psicologicamente. E depois uma pessoa tem de se conter para não dizer mesmo o que pensa e tal. Uma merda. As sogras, sendo mulheres, nunca são punidas e acabam por escapar a todas as censuras… Até quando?!?!?!?!

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