domingo, 21 de outubro de 2007

That's what mothers do

Aruba é uma ilha nas Caraíbas, ao largo da costa da Venezuela. É território autónomo da Holanda, separado das Antilhas Holandesas. Como seria de esperar, o holandês é a língua oficial, embora, curiosamente, o dialecto local seja oriundo do português. Mas mais do que um cenário paradisíaco Aruba está marcada – desde o dia 30 de Maio de 2005 – como sendo o local de desaparecimento de Natalee Holloway. Mais de dois anos volvidos sem até à data se encontrar indícios da jovem estudante norte-americana, a mãe dela – Beth Holloway – dá à estampa o livro “Evidence of Faith – Loving Natalee: The True Story of The Aruba Kidnapping and its Aftermath”. Lançado este mês, o livro é o testemunho de esperança e fé de uma mãe que um dia deixou a filha partir numa viagem de finalistas de liceu para nunca mais a ver. Uma mãe que ainda grita a sua esperança não só porque esta é a última a morrer mas também porque como ela própria afirma: “I’m supposed to be Natalee’s ultimate protector. That’s what mothers do.”
Aos 18 anos, Natalee e 124 colegas de Mountain Brook High School, de Alabama, E.U.A., partiram numa viagem de cinco dias. Todos regressaram às suas casas e respectivas famílias menos ela. A última vez que a viram foi a sair de um bar – onde se comentava que era preciso beber com cuidado porque “metiam coisas nas bebidas” – à uma e meia da manhã, na companhia de três rapazes: Joran van der Sloot e os irmãos Deepak e Satish Kalpoe, tendo todos seguido no carro dos Kalpoe.
No quarto de hotel dela ficaram a mala, o passaporte, o telemóvel e a máquina fotográfica. Objectos sem dona, testemunhas esquecidas da jovem que não só perdeu o voo de regresso como, segundo crêem as autoridades da ilha e holandesas em investigações conjuntas que se arrastaram até o passado mês de Setembro, também terá perdido a própria vida.
Os três jovens suspeitos foram interrogados e contaram diferentes versões dos acontecimentos. A 9 de Junho de 2005 chegaram a ser presos por suspeita de rapto e assassínio de Natalee. Segundo a polícia, logo a partir do terceiro dia do desaparecimento da jovem, montaram um cerco apertado aos rapazes, espiando os seus passos, colocando escutas telefónicos e mesmo monitorizando os seus e-mails. Mas por pressão da família de Natalee viram-se obrigados a prendê-los antes que pudessem apanhar qualquer prova incriminatória.
A versão dos dois irmãos Kalpoe remetia a “culpa” para Van der Sloot e vice-versa. Entre três histórias diferentes, a polícia acredita naquela em que os Kalpoe deixaram Natalee e Van der Sloot numa praia. Isto, porque segundo a polícia, “uma jovem de Alabama não ia ficar no carro com dois miúdos pretos”.
Outros suspeitos foram presos, em parte devido aos testemunhos dos rapazes. Porém, tão depressa entravam como saiam. Também os irmãos Kalpoe foram libertados mas presos de novo a 26 de Agosto. Porém, a 3 de Setembro todos os suspeitos foram libertados e onze dias mais tarde foram-lhes retiradas por um juiz todas as acusações.
Joran Van der Sloot vive agora na Holanda, onde se encontra a tirar um curso. Em entrevistas posteriores reclama não ter dito a verdade antes por se ter sentido envergonhado ao ter deixado uma rapariga sozinha na praia, ainda que a pedido dela…
Os irmãos Kalpoe chegaram a ir ao famoso programa do Dr. Phil. Todos à solta e todos livres de qualquer acusação…
Para a mãe de Natalee, os três mentiram. Ela acredita que a filha foi violada e morta. Alguns colegas dela disseram que Natalee bebera o tempo todo e que viram Joran Van der Sloot lamber um shot entornado propositadamente na barriga dela. Dizem que Natalee também teria droga com ela, não se sabendo, contudo, se esta a terá usado. Mas mesmo que Natalee bebesse uns copos e fumasse erva seria esse comportamento tão diferente dos outros jovens americanos e holandeses num contexto de viagem de finalistas?
A mãe de Natalee é acusada de se centrar em demasia nos três jovens, descartando toda e qualquer outra teoria respeitante ao desaparecimento da filha. Para ela, Natalee foi violada pelos três e assassinada às mãos deles. Mesmo sem provas, acusa-os sempre que pode, em qualquer entrevista que lhe façam. Beth, que partiu logo para a ilha à procura da filha recorda: “I don’t have a stone that I didn´t turn over.”
Beth Holloway é fundadora do International Safe Travels Foundation que dá dicas a 15 mil estudantes de 20 estados: é preciso desenvolver um sistema de protecção, activar as chamadas para o estrangeiro no telemóvel – roaming – quando se parte em férias, nunca dizer a estranhos quando a viagem acaba, etc. “É necessário evitar que outra família passe pela mesma experiência”, declara entre a mágoa e a raiva.
Ainda em Abril deste ano, a casa dos pais de Joran van der Sloot em Aruba e a área à sua volta foi toda virada a pente fino pela polícia. Também em Abril, Van der Sloot publicou, com a ajuda de um repórter, o livro “The Case of Natalee Holloway”.
Pessoalmente, custa-me acreditar que se deixe sozinha na praia uma rapariga a quem se lambeu a barriga num bar… E também não creio que uma rapariga pedisse para ficar só numa praia desconhecida. Mas, uma vez mais, não temos cadáver.
Lembro-me das três jovens italianas na ilha do Sal, Cabo Verde. Foi em Fevereiro deste ano. Duas assassinadas e uma terceira – de 17 anos – que consegui fugir. Uma delas foi enterrada ainda com vida, cheia de terra e de areia nos pulmões, como revelou a autópsia. Se a terceira não tem fugido e levado as autoridades ao local do crime contando todo o horror daquela noite de violação e morte, até hoje jazeria ao lado das outras, silenciada pela areia. E os dois cabo-verdianos criminosos seguiriam as suas vidas alheios ao massacre cometido. Aliás, se fossem cultos talvez escrevessem um livro sobre o desaparecimento de turistas na ilha. Porém, perante as provas e testemunho da adolescente confessaram o crime. Giorgia Bussoto, de 28 anos, e Dalia Saiani, de 27 anos, foram agredidas na cabeça com facas e apedrejadas até à morte. A autópsia efectuada às amantes de windsurf detectou sémen na vagina das duas.
Não sei se Natalee Holloway também tinha um buraco escavado na praia à espera dela. Mas sei que a intuição de Beth não deve andar longe da verdade. Pena é que não se consiga provar que as meninas, adolescentes e mulheres não se evaporam à face da Terra…

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