quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A sombra da outra

O ambiente já estava tenso mas algo veio ainda perturbar mais o cenário. O pai da bebé deixou o telemóvel na sala do andar de cima e quando por ele passei assinalava nova mensagem. Como o meu marido é muito dado a convívio alheio li algo que me deixou – até hoje – em Marte: “Não há nada para resolver. Vamos mas é fazer amor e tomar banho juntinhos.” Explodi… Imagine-se a cena: eu desvairada com o telemóvel dele na minha mão, trémula, a ler em voz alta aquele SMS nojento, ele que, entretanto, viera do andar de baixo a tentar apanhar-me – nessa altura já eu me escapara para o quarto e estava de pé, em cima da nossa cama, a brandir a prova – a mãe dele com a bebé ao colo a perseguir-nos e a gritar: “Não acredite nisso! Isso é tudo mentira! É mentira! Ele gosta é de si! Olha a sua bebé!”, e por último, o desgraçado do meu sogro – única pessoa que é lúcida e fenomenal naquela família – a exigir o “deixem-na em paz”.
Fechei-me na casa de banho e fiz o que nunca se deve fazer mas como não acredito em nada do que diz o pai da bebé telefonei à fulana. A colega de trabalho dele lá me disse o quanto estavam envolvidíssimos, o como ele não gostava de mim mas ficava comigo só por causa da bebé e que ela, coitada, nunca reparara sequer que ele era um homem casado e nunca se imaginara na pobre situação da amante, da outra. Enfim… Enquanto mantinha este estimulante diálogo em vésperas de fazer um ano de casada, o meu marido tentava arrombar a porta a pontapé, acto no qual foi bem sucedido, tendo partido a porta e ferido o calcanhar que o pai dele viria a cuidar e a desinfectar meticulosamente nos dias seguintes…
É interessante as pessoas tirarem férias porque precisam. E férias de férias destas… não se tiram? O enredo felliniano não podia ser mais perfeito… E depois? O que se faz numa situação destas? Chora-se, insulta-se, grita-se a palavra divórcio a plenos pulmões e percebe-se porque acontecem tantos crimes passionais no norte do país.
Peço ao meu sogro para me trazer de volta a Lisboa. Ele está muito triste. E até envergonhado. O filho tem sido uma surpresa desagradável. Mas é filho. Numa confissão desesperada diz-me que a vontade dele era desfazer-se de tudo e fechar-se num lar. Ignorar o mundo. Mas depois lembra-se que o filho sozinho desgraça-se mais depressa. Teme-lhe as companhias e os vícios. Olha para mim e entendemo-nos sem mais palavras. É duro ser pai. É duro ser mulher de um homem imaturo e desleal. Estamos no mesmo barco. Profundamente desapontados.
De regresso a casa, exijo que o pai da bebé esclareça a situação de uma vez por todas. Ele nega tudo. Fala de uma vingança feminina por não lhe dar o troco que ela queria. E eu faço o que todas as mulheres que têm uma filha de sete meses fazem: finjo acreditar. Ligo o automático e sigo viagem. Literal. Vamos passar uns dias a Santiago de Compostela. Fazemos amor, até. O que é tão raro em nós. Este homem vai conseguir apagar-me o desejo… Numa magnífica operação de charme ou compensação esmera-se em agradar-me. É um passeio simpático. Eu abraço o santo e peço PAZ. Ele pede mais um filho que não terá. Pelo menos, não serei eu a mãe. Não foi assim que imaginei o meu casamento. Estou descrente de tudo. Apetece-me morrer. Fechar-me e desaparecer. Só a minha bebé vale a pena. E eu amo-a perdidamente. Não sei se ela um dia irá ler este blogue. Sei que todas as acções provocam reacções. E que os gestos das pessoas ficam impressos na vida e no coração dos outros.

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