Ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Por qualquer ordem serve. A mim faltava-me a parte da árvore e, por isso, arregacei mangas e com a ajuda do meu sogro plantei uma Golden Delicious no quintal dele. Gostei imenso. Era uma árvore muito fininha mas com ar de que ia sobreviver. Com a enxada na mão sentia-me radiante pelo meu feito. Até pincelei o tronco de cal e tudo! E reguei-a, claro. Sempre coordenada e auxiliada pelo meu sogro, que de árvores percebe e bem. É proprietário de castanheiros antigos de uma floresta mágica, cujo terreno pode ser feito de erva macia, a qual afunda sob os nossos pés ou emaranhados caminhos de fetos e amoras, silvas que picam e troncos grossos deixados ficar como homenagem a árvores inimagináveis de tão imensas que eram. Existem muros de pedras sobrepostas e muitos declives por onde nos podem espreitar abelhas assassinas. Uma delas veio directa aos meus lábios. Enxotei-a e corri, e ela sempre a dar em cima, até que se enfiou pela minha t-shirt. “Quando as abelhas atacam não devemos fazer gestos que as irritem”, disse-me, mais tarde, a minha mãe. É a lógica do ataque dos tubarões: não se mexam e tal que o tubarãozinho passa ao lado, uma vez que são os movimentos que o atraem. Muito bem: e quem é que consegue, num ataque, ficar PARADO? Quem? É dar ao slide e rezar para que todos os santos ajudem. E o de Compostela ainda se devia lembrar do meu abracinho apertado.
Consegui sair quase ilesa. Picou à superfície mas não deixou ferrão. Menos mal. Nada que uma pomada não atenuasse.
No meio de tantas árvores, a minha vai ser mais uma. Contudo, é a minha árvore. Sou mãe dela. Ajudei-a a nascer e vou velar por ela, mesmo que seja a quilómetros de distância por telepatia e boa vontade. Sinto que neste mundo sujo e poluído já fiz a diferença. Dei-lhe mais um pulmão. Pequenino mas bem intencionado. E as maçãs até podem revelar-se deliciosas como o nome sugere.
Um parto, dois livros publicados e uma macieira plantada. Posso morrer em paz. Isto é, como ser humano já fiz a minha parte. Não é que não quisesse publicar muitos mais livros. Oh, se queria! Ter mais rebentos é que não. E árvores, por mim, era uma floresta! Adoro o campo, o sussurrar das folhas, o silêncio da noite e a alegria dos grilos, sem esquecer o brilho das estrelas. Mas também não me vejo como camponesa. O meu lado trendy e citadino impede-me de deixar a civilização. E nenhum amor se sobrepõe ao MAR. Um dia gostava de ter a minha própria editora. É um sonho. Publicar os meus livros e todos aqueles que aprovássemos por serem originais e belos. Ou inquietantes. Porém, ainda não me saiu o euromilhões. Talvez um dia herde e possa realizar esse desejo. Até lá, vou continuar a fazer aquilo que gosto e sei. Escrever e ler até que os olhos me doam! E, de vez em quando, respirar uns ares marítimos ou campestres, dependendo da psicose do clã.

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