segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Falar com ela


A bebé fez dez meses. A grande mudança que registo é o gatinhar aperfeiçoado, ou seja, já não arrasta a barriga no chão mas, apoiada nos joelhos faz as suas diabruras na pista dela, o tapete. Aliás, comprámos um de propósito para estas primeiras tentativas de evasão. E, claro, colocámos cantos de silicone nas esquinas, tapámos as tomadas eléctricas e forrámos as arestas da lareira com barras macias. Deliciada, a bebé percorre a nova área – muito mais enérgica e animada do que quando se encontra “enjaulada” no parque. Porém, abençoado parque que é de uma enorme segurança sempre que quero fazer qualquer coisa estilo um batido, um texto ou uma arrumação, desde que não muito demorados.
A mãozinha que acena é outra gracinha que se tem aprimorado. Este gesto tem tido interpretações várias, sendo a dos meus sogros a de que “ela quer chamar-nos”…
Também consegue levantar-se ao apoiar-se no sofá, no cesto de revistas ou nas nossas pernas quando nos deitamos com ela no tapete. Ri muito quando está de pé, contente da vida com as suas habilidades. E quando ri exibe quatro dentinhos: dois juntos em baixo – os primeiros a nascerem – e dois juntos em cima, um já bem saído e o outro a romper. E morde, o que é um encanto. Adoro sentir os dentinhos dela morderem o meu dedo que coloco provocadoramente na boquinha dela.
Li numa dessas bíblias de bebés que, aos dez meses, devemos começar a falar mais com eles. Mesmo que não entendam o significado das palavras começam a repeti-las. Até agora são monossílabos mas já ouvi o mã mã mã. E adorei, claro. O que ela diz desde sempre e com grande desenvoltura é “olá”. Às vezes, fica a cantarolar “olá” montanhas de tempo. Mas as cantarolices no estado de deitada perdem para os gritos de descoberta pela casa fora. Imagino quando andar mesmo e correr… Ainda assim, já tropecei num ou noutro brinquedo e vamos só no princípio.
Já tem um telemóvel e um computador para bebés de 12 meses. Adora luzes e sons, à excepção de um coelho de peluche que só de o ver sorri de imediato. Possui imensos brinquedos mas depois de esgotar um até à exaustão parece cansar-se dele para nunca mais. Acho que tem a quem sair mas não me apetece alongar sobre esse assunto.
Desisti de montar árvore de Natal. Ela é tão pequena que o pobre pinheiro só iria provocar mais uma preocupação. E não devem ficar bonitos forrados de silicone. Tenho a pedra da lareira com os ícones natalícios. Estão lá o Presépio, os bonecos de neve, as renas, o pai natal e, até, um boneco de gengibre caixa de música muito original. E chega. Quando for mais crescida terá a sua árvore com bolas e luzes a sério.
Pessoalmente sempre amei a quadra natalícia. Porém, este ano que deveria ser o melhor natal de todos os natais… sinto-me péssima. Perdi o espírito. Há pessoas assim: não descansam enquanto não estragam tudo de bom que nós temos. As ilusões são as primeiras a ir e sem magia não há Natal. Mas ela é tão querida que felizmente não vai saber desta minha tristeza. E eu sei que vou passar mais natais com ela e que, se Deus quiser, serão bem melhores.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O ar que se respira

Despedimo-nos de Novembro todos doentes cá em casa. Há duas semanas que andamos a espirrar, tomar mil e um comprimidos, gastar rolos e rolos de papel e a suar na cama que nem doidos. A bebé também ficou muito afectada por contágio nosso. Levei-a ao médico e como os pulmões dela estão cheios de secreções não houve outra alternativa senão fazer aerosolterapia. Como não tenho nenhuma máquina dessas e há três dias atrás não conhecia ninguém que tivesse uma aluguei à Gazin.
Vieram prontamente entregá-la – depois da burocracia de sempre ao telefone – e com os medicamentos já alinhados num tabuleiro preparei-me para a novidade. Sim, tudo é novo quando se é mãe pela primeira vez mas digamos que algumas coisas já as esperamos e estamos somente na expectativa de acontecerem estilo o nascimento dos dentes, enquanto outras apanham-nos totalmente de surpresa.
Assim, lá meti as gotas, ampolas e soro no aparelho e liguei a coisa. Começou a sair o vapor curativo para a bebé respirar. Inicialmente, o pai ainda lhe tentou colocar a máscara mas os gritos dela foram esclarecedores. Mais tarde, ele confirmou que os colegas no trabalho que faziam isto aos filhos também não usavam máscaras e que este processo era uma coisa muito normal e também nós devíamos comprar uma máquina para uso futuro porque os outros as estavam sempre a usar.
Como o meu marido foi asmático em pequeno e ainda hoje é alérgico a uma série de coisas talvez não o incomode tanto este cenário de nevoeiro londrino. Porém, faz-me imensa impressão administrar este tratamento à bebé. Não é que ela sofra. Fica aborrecida e protesta mas não gosto de a gasear com o maldito tubinho azul. E não posso acreditar que ela vá precisar de fazer isto muitas mais vezes. Fico com a terrível sensação de que não tenho uma filha saudável.
O médico disse que no primeiro ano de vida é cada vez mais normal os bebés terem toda a espécie de alergias mas que depois elas passam. A nossa já teve a pele numa autêntica desgraça e nem dois meses e meio tinha… Culpado o leite, lá passou a beber um Pepti danado de se encontrar nas farmácias – só por encomenda – e ainda agora três meses depois de findar o prazo para os bebés o beberem (diz na lata até aos seis meses) ela continua a bebê-lo porque o médico ainda não achou por bem mudar-lhe o leite...
Este Outono/Inverno em menos de dois meses a bebé já sofreu duas valentes maleitas. Também ele é encharcada em medicamentos e eu aspiro-lhe o nariz e trato bem de tudo e mais alguma coisa. Mas não posso acreditar que vá ser sempre assim.
Uma amiga minha contou-me como a filha dela foi sempre doente, teve o tímpano aberto e não pôde ser operada (em Portugal não o faziam antes dos 12 anos), as otites que apanhou no infantário, as operações em Londres, a ligeira surdez de que a miúda padece, embora tenha dado a volta por cima e hoje estude música na Áustria. E como a filha viveu sempre tantos problemas não sobrou tempo para lhe dar irmãos.
Penso como é complicado este processo de ser mãe. O fardo é maior quando os filhos exigem mais atenções e cuidados do que os outros. Sempre admirei as mães que superam todas as barreiras para cuidar dos filhos doentes. Mas o que quero é ter uma filha saudável e sem máquinas barulhentas à volta dela.

sábado, 24 de novembro de 2007

Por fim... MAGRA!!!!!!!!!!!!!



Depois de uma terrível luta contra a balança e os espelhos, eis que entro na minha antiga roupa, gosto de me ver reflectida e maquilhada, amo os meus acessórios e sinto-me ALIVE!!!!!!!!!!
Tudo isto graças a uma série de medidas fantásticas que mudaram mesmo as minhas curvas. Segura e confiante até parece que a vida é mais bela! Eu, pelo menos, voltei a agarrar a beleza e é uma sensação sublime. Regresso às roupas que agora me servem perfeitamente e assentam tão bem na minha nova cinturinha e inovei no penteado. Tirei volume, fiz umas madeixas giríssimas e pareço uma Barbie Hard Rock Café.
Todas as semanas tento andar o mais possível e qualquer dia começo a correr junto ao mar que é para atingir a versão Barbie Top Model. Agora a sério, eu assumo que colecciono estas bonecas e sou viciada nelas. Mas só aquelas mesmo especiais. O meu critério é: não as quero com vestidos de fadas, princesas, sereias e por aí fora.
Para mim, uma boneca Barbie só tem valor quando parecem mulheres reais em miniatura com todos os nossos mais belos apetrechos e roupas de cortar a respiração. Tenho várias lindíssimas e para este Natal já encomendei outras tantas. Fico ansiosa à espera delas. Como uma menina. Para mais, não consigo dissociar o Natal dos brinquedos. E a minha boneca preferida – a bebé, claro – vai dar o seu primeiro mergulho natalício, isto é, imagino-a a submergir no meio de tanto papel de embrulho espalhado pelo chão…
Ela adora mexer em papel. Por vezes, mastiga-o. Ou então, baba para cima dele e rasga-o todo. Já dizimou várias revistas antes de eu dar por isso e lhas tirar logo, claro. Sei bem que não deve brincar com elas mas não sou nenhum polvo com nove braços e agora a malvadinha ensaia os primeiros gatinhanços.
Só nesta temporada já apanhou duas valentes constipações. É muito duro vê-la com os olhinhos lacrimantes e ouvi-la protestar sempre que lhe aspiro o narizito. Não suporto ver a bebé doente… Fico com a sensação de que não estou a ser uma boa guardiã.
Mas sempre que estamos juntas sinto-me mesmo mais feliz. Ficamos bem porque somos as duas bonitas e eu adoro passeá-la sem complexos. E deliro quando encontro alguém que me diz: “Mas você não tem barriga” ou “emagreceu imenso”. Ah, como fico delirante!
Para uma mulher, a maternidade é sempre algo de belo e sagrado, contudo não devia deixar marcas. Eliminá-las é quase impossível. Li algures que quatro em cinco mulheres nunca perdem a gordura acumulada durante a gravidez. E é por causa dessa devastação física que a mulher/mãe se transforma em bicho-do-mato não querendo sair e conviver mais. Até a relação do casal sofre com isso. Porém, solucionado o problema físico renasce toda uma nova disposição e o nosso espírito irradia bem-estar. Daí que compreenda e seja a favor de todas as transformações que nos façam revestir a alma. Só quando nos sentimos bem connosco podemos olhar para os outros. É o chamado processo dor de dentes. Quando alguém tem uma dor de dentes só pensa nisso e em nada mais. Sarada a dor, a pessoa já volta a interessar-se por outros assuntos.
Ser mãe não tira a sensualidade a uma mulher. O que nos afecta é o corpo que demora a “sarar”, a falta de paciência e de tempo, o excesso de trabalho tripartido emprego-casa-bebé, as guerras familiares, as desilusões e a escassez do sexo. Tivéssemos todas uma vida tranquila e mimada – com baby-sitters, manicures, massagistas, motoristas, cabeleireira ao domicílio, depilação a laser, ginásio in-doors, piscina aquecida, acesso a compras ilimitado, festas giríssimas e férias em ilhas de sonho – que ser mãe não nos tiraria um grama de feminilidade.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Mães famosas e... sem filhos

A ideia de qualquer mãe perder os filhos por ordem do tribunal é assustadora. Em Portugal, a lei defende a mulher e favorece-a na maioria dos casos. Facto ou mito? De qualquer modo, nos puritanos Estados Unidos da América o cerco aperta-se a toda e qualquer mãe que – independentemente da fama – negligencie a sua prole.
Vem tudo isto a propósito de um tribunal ter retirado temporariamente a custódia dos filhos à cantora e bailarina Britney Spears. Para qualquer miúda, aos 25 anos, perder a custódia de dois filhos tão novos – Jayden James tem 1 ano e Sean Preston 2 – o cenário é devastador. Porque seria diferente para a cantora?
Irritam-me até à quinta casa todos aqueles que a condenam por tudo e por nada. Primeiro, o mundo rendeu-se ao corpo tonificado da Princesa da Pop. Agora, todos a marginalizam e razões não lhes faltam: é porque rapa o cabelo, ou porque mostra a lingerie ou mesmo mostra que não a usa, ou porque bebe álcool e consome drogas, ou porque está gorda e decadente, ou porque é uma louca por compras, etc. Antes da maternidade, os mesmos excessos num corpo de sereia não chocavam ninguém. Depois de ter parido dois filhos e de se ter divorciado de Kevin Federline tais comportamentos já não são aceitáveis. Ou seja, a uma miúda famosa e boazona perdoam-se os devaneios e até se fazem programas sobre as excentricidades dela. Mas depois de ser mãe, a censura lembra-se de carimbar-lhe a cara de negro. Não está certo.
Acredito que Britney Spears esteja a aprender a ser mãe. Não é tarefa fácil e ninguém nasce ensinada para a desempenhar. Os bebés dão montanhas de trabalho. Depois, Spears tem ainda de lidar com uma separação. Por acréscimo, o próprio corpo dela – outrora tão desejado – modificou-se. Ela engordou mas acredito que consiga emagrecer, assim como muitas outras celebridades que têm todos os meios para isso. Entretanto, esteve parada. A carreira dela sofreu com a opção família. Vai ser difícil arrancar, encontrar a disposição para o pontapé de saída. Mas enquanto ela luta por se reerguer é preciso desancarem-na a torto e a direito? Não será a inveja universal a funcionar?
“É uma criança a tomar conta de crianças”, disse um dia um dos seus guarda-costas. E que bela frase. Aceito-a como a mais acertada até agora. O que Spears precisa é de estímulo e de apoio, tanto dos seus amigos como dos seus familiares. Casou no auge da fama. Já alguém disse em público, numa cerimónia de entrega de prémios, que os seus dois filhos tinham sido os seus dois erros mais adoráveis… Calculo que seja duro ouvir isto e muito mais. Mas é fácil dar pontapés quando um pobre diabo está no chão…
Muitas outras mães famosas perderam temporariamente a custódia dos seus filhos por excesso de álcool ou drogas, entre elas Kim Delaney, Courtney Love, Paula Pounstone e Tantum O’Neal. Todas elas voltaram a ter a custódia total ou parcial dos filhos.
Não defendo que uma mulher – famosa ou não – que tenha condutas de risco, nomeadamente o conduzir embriagada ou consumir drogas, passeie os seus rebentos alegremente. Tanto ela como as crianças estarão em risco. Porém, não podemos acusar Britney de ter feito algo menos próprio com os filhos ao lado. E ninguém duvida que ela os adora. Tem os seus problemas, como todos nós, e desejo que os saiba ultrapassar.
Não me lembro de nenhuma mãe famosa ter morto os filhos mas lembro-me de mães que saem do anonimato por o fazer… E, às vezes, as coisas acontecem quando menos se espera. Isadora Duncan, por exemplo, essa bailarina doida perdeu os filhos quando a ama deles e o motorista afundaram o carro no Sena… Adorava que Britney calasse as más-línguas e voltasse a surpreender tudo e todos com um regresso magnífico. Mas, sobretudo, espero que consiga encontrar-se a si própria e saiba ser feliz. Por ela e pelos filhos.

domingo, 21 de outubro de 2007

That's what mothers do

Aruba é uma ilha nas Caraíbas, ao largo da costa da Venezuela. É território autónomo da Holanda, separado das Antilhas Holandesas. Como seria de esperar, o holandês é a língua oficial, embora, curiosamente, o dialecto local seja oriundo do português. Mas mais do que um cenário paradisíaco Aruba está marcada – desde o dia 30 de Maio de 2005 – como sendo o local de desaparecimento de Natalee Holloway. Mais de dois anos volvidos sem até à data se encontrar indícios da jovem estudante norte-americana, a mãe dela – Beth Holloway – dá à estampa o livro “Evidence of Faith – Loving Natalee: The True Story of The Aruba Kidnapping and its Aftermath”. Lançado este mês, o livro é o testemunho de esperança e fé de uma mãe que um dia deixou a filha partir numa viagem de finalistas de liceu para nunca mais a ver. Uma mãe que ainda grita a sua esperança não só porque esta é a última a morrer mas também porque como ela própria afirma: “I’m supposed to be Natalee’s ultimate protector. That’s what mothers do.”
Aos 18 anos, Natalee e 124 colegas de Mountain Brook High School, de Alabama, E.U.A., partiram numa viagem de cinco dias. Todos regressaram às suas casas e respectivas famílias menos ela. A última vez que a viram foi a sair de um bar – onde se comentava que era preciso beber com cuidado porque “metiam coisas nas bebidas” – à uma e meia da manhã, na companhia de três rapazes: Joran van der Sloot e os irmãos Deepak e Satish Kalpoe, tendo todos seguido no carro dos Kalpoe.
No quarto de hotel dela ficaram a mala, o passaporte, o telemóvel e a máquina fotográfica. Objectos sem dona, testemunhas esquecidas da jovem que não só perdeu o voo de regresso como, segundo crêem as autoridades da ilha e holandesas em investigações conjuntas que se arrastaram até o passado mês de Setembro, também terá perdido a própria vida.
Os três jovens suspeitos foram interrogados e contaram diferentes versões dos acontecimentos. A 9 de Junho de 2005 chegaram a ser presos por suspeita de rapto e assassínio de Natalee. Segundo a polícia, logo a partir do terceiro dia do desaparecimento da jovem, montaram um cerco apertado aos rapazes, espiando os seus passos, colocando escutas telefónicos e mesmo monitorizando os seus e-mails. Mas por pressão da família de Natalee viram-se obrigados a prendê-los antes que pudessem apanhar qualquer prova incriminatória.
A versão dos dois irmãos Kalpoe remetia a “culpa” para Van der Sloot e vice-versa. Entre três histórias diferentes, a polícia acredita naquela em que os Kalpoe deixaram Natalee e Van der Sloot numa praia. Isto, porque segundo a polícia, “uma jovem de Alabama não ia ficar no carro com dois miúdos pretos”.
Outros suspeitos foram presos, em parte devido aos testemunhos dos rapazes. Porém, tão depressa entravam como saiam. Também os irmãos Kalpoe foram libertados mas presos de novo a 26 de Agosto. Porém, a 3 de Setembro todos os suspeitos foram libertados e onze dias mais tarde foram-lhes retiradas por um juiz todas as acusações.
Joran Van der Sloot vive agora na Holanda, onde se encontra a tirar um curso. Em entrevistas posteriores reclama não ter dito a verdade antes por se ter sentido envergonhado ao ter deixado uma rapariga sozinha na praia, ainda que a pedido dela…
Os irmãos Kalpoe chegaram a ir ao famoso programa do Dr. Phil. Todos à solta e todos livres de qualquer acusação…
Para a mãe de Natalee, os três mentiram. Ela acredita que a filha foi violada e morta. Alguns colegas dela disseram que Natalee bebera o tempo todo e que viram Joran Van der Sloot lamber um shot entornado propositadamente na barriga dela. Dizem que Natalee também teria droga com ela, não se sabendo, contudo, se esta a terá usado. Mas mesmo que Natalee bebesse uns copos e fumasse erva seria esse comportamento tão diferente dos outros jovens americanos e holandeses num contexto de viagem de finalistas?
A mãe de Natalee é acusada de se centrar em demasia nos três jovens, descartando toda e qualquer outra teoria respeitante ao desaparecimento da filha. Para ela, Natalee foi violada pelos três e assassinada às mãos deles. Mesmo sem provas, acusa-os sempre que pode, em qualquer entrevista que lhe façam. Beth, que partiu logo para a ilha à procura da filha recorda: “I don’t have a stone that I didn´t turn over.”
Beth Holloway é fundadora do International Safe Travels Foundation que dá dicas a 15 mil estudantes de 20 estados: é preciso desenvolver um sistema de protecção, activar as chamadas para o estrangeiro no telemóvel – roaming – quando se parte em férias, nunca dizer a estranhos quando a viagem acaba, etc. “É necessário evitar que outra família passe pela mesma experiência”, declara entre a mágoa e a raiva.
Ainda em Abril deste ano, a casa dos pais de Joran van der Sloot em Aruba e a área à sua volta foi toda virada a pente fino pela polícia. Também em Abril, Van der Sloot publicou, com a ajuda de um repórter, o livro “The Case of Natalee Holloway”.
Pessoalmente, custa-me acreditar que se deixe sozinha na praia uma rapariga a quem se lambeu a barriga num bar… E também não creio que uma rapariga pedisse para ficar só numa praia desconhecida. Mas, uma vez mais, não temos cadáver.
Lembro-me das três jovens italianas na ilha do Sal, Cabo Verde. Foi em Fevereiro deste ano. Duas assassinadas e uma terceira – de 17 anos – que consegui fugir. Uma delas foi enterrada ainda com vida, cheia de terra e de areia nos pulmões, como revelou a autópsia. Se a terceira não tem fugido e levado as autoridades ao local do crime contando todo o horror daquela noite de violação e morte, até hoje jazeria ao lado das outras, silenciada pela areia. E os dois cabo-verdianos criminosos seguiriam as suas vidas alheios ao massacre cometido. Aliás, se fossem cultos talvez escrevessem um livro sobre o desaparecimento de turistas na ilha. Porém, perante as provas e testemunho da adolescente confessaram o crime. Giorgia Bussoto, de 28 anos, e Dalia Saiani, de 27 anos, foram agredidas na cabeça com facas e apedrejadas até à morte. A autópsia efectuada às amantes de windsurf detectou sémen na vagina das duas.
Não sei se Natalee Holloway também tinha um buraco escavado na praia à espera dela. Mas sei que a intuição de Beth não deve andar longe da verdade. Pena é que não se consiga provar que as meninas, adolescentes e mulheres não se evaporam à face da Terra…

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Meninas perdidas

Uma das minhas leituras de férias foi “A Estrela de Joana”, da autoria de um ex-inspector da PJ, Paulo Pereira Cristóvão. Como todos os portugueses sentia curiosidade em saber o que de facto teria acontecido à Joana. Por outro lado, o facto de o livro ter sido escrito por um dos polícias envolvidos na investigação tornava aliciante espreitar para a forma como a nossa polícia – tantas vezes criticada como elogiada – trabalhara neste caso. Sendo também eu mãe de uma bebé lindíssima de oito meses recentemente feitos foi mais outro motivo: se tenho uma menina e, se neste país, elas desaparecem deixa-me cá acautelar.
Sobre o funcionamento da PJ fiquei esclarecida. Não são profissionais a trabalhar antes se desenrrascam. Por exemplo, em vez de selarem a tempo e horas uma sala ou uma casa para a equipa forense trabalhar arrancam pernas de sofás e retalham colchões para estes serem analisados em laboratório. Disse equipa? Afinal parece que era só uma mulher munida de uma luz mágica… Têm boa vontade estes senhores. Mas só isso é insuficiente. A falta de coordenação entre uns e outros é total. A intromissão da senhora directora da prisão onde se encontrava detida Leonor Cipriano é disso exemplo. Como gerir interrogatórios e silêncios quando alguém não autorizado pretende descobrir o grande segredo estorvando o trabalho extenuante de outros? E uma pessoa que se tenta suicidar pelo vácuo do corrimão de umas escadas e falha fica com a cabeça cheia de hematomas porquê? Chegou a bater nalgum degrau? São célebres as tareias da PJ. Sobretudo quando os suspeitos são jovens ou pobres. Caem sempre numas escadas quaisquer… Leonor não acusou o autor do livro. Aliás, refere que o homem que vê alinhado com outros mais, a interrogou mas que não lhe bateu. Ninguém sabe se lhe bateram ou não. Mas o sistema acreditou na versão da presa e os polícias foram ouvidos. Hoje já não são polícias… Apesar da vontade insana de querermos sacudir alguém que sabemos nos está a mentir e a ocultar informação temos de usar outros recursos que não a força física. Se somos todos tão inteligentes e eles são pobres e básicos, de certeza que há outros métodos para extrair confissões… Ainda bem que a Kate Mccann não se quis atirar por umas escadas abaixo durante as 11 horas de interrogatório a que foi sujeita. Caso contrário, teríamos mais picardias entre a nossa e a polícia deles.
Sobre o conteúdo do livro acho-o puro, no sentido em que a PJ trabalha mesmo assim e ainda bem que pudemos confirmar aquilo de que há muito suspeitávamos: não são competentes mas fazem o que podem e com os meios que têm. Também com a Maddie as coisas não podiam ter sido diferentes. Ser a própria polícia a descurar os eventuais locais de crime é mau. Ser polícia para mostrar prepotência e andar com um revólver atrás do cu ainda é pior. Fiquei com a impressão de que precisamos de investigadores, de psicólogos, de detectives e inspectores que saibam trabalhar em equipa sem que o ego de uns atrapalhe o de outros. Fornadas de gente nova e pura, bem-intencionada. Não admira que haja tanto desemprego no país. Os cargos estão realmente vagos. A PJ precisa de um pulmão novo, de muito oxigénio para se libertar da gangrena que a corrói.
Não é isso que vai impedir que miúdas deste país sejam esquartejadas por mães e tios incestuosos e enviadas em pedaços colocados debaixo dos assentos de automóveis vermelhos para serem prensados em Espanha. Ou não é isso que vai impedir que uma miúda inglesa desapareça de um quarto onde foi abandonada pelos pais. Mas pode fazer com que se encontrem as provas dos homicídios admitidos sem cadáver. Ou fazer com que os homicídios se admitam E uma evidência é bem diferente de uma especulação.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Plantar uma árvore



Ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Por qualquer ordem serve. A mim faltava-me a parte da árvore e, por isso, arregacei mangas e com a ajuda do meu sogro plantei uma Golden Delicious no quintal dele. Gostei imenso. Era uma árvore muito fininha mas com ar de que ia sobreviver. Com a enxada na mão sentia-me radiante pelo meu feito. Até pincelei o tronco de cal e tudo! E reguei-a, claro. Sempre coordenada e auxiliada pelo meu sogro, que de árvores percebe e bem. É proprietário de castanheiros antigos de uma floresta mágica, cujo terreno pode ser feito de erva macia, a qual afunda sob os nossos pés ou emaranhados caminhos de fetos e amoras, silvas que picam e troncos grossos deixados ficar como homenagem a árvores inimagináveis de tão imensas que eram. Existem muros de pedras sobrepostas e muitos declives por onde nos podem espreitar abelhas assassinas. Uma delas veio directa aos meus lábios. Enxotei-a e corri, e ela sempre a dar em cima, até que se enfiou pela minha t-shirt. “Quando as abelhas atacam não devemos fazer gestos que as irritem”, disse-me, mais tarde, a minha mãe. É a lógica do ataque dos tubarões: não se mexam e tal que o tubarãozinho passa ao lado, uma vez que são os movimentos que o atraem. Muito bem: e quem é que consegue, num ataque, ficar PARADO? Quem? É dar ao slide e rezar para que todos os santos ajudem. E o de Compostela ainda se devia lembrar do meu abracinho apertado.
Consegui sair quase ilesa. Picou à superfície mas não deixou ferrão. Menos mal. Nada que uma pomada não atenuasse.
No meio de tantas árvores, a minha vai ser mais uma. Contudo, é a minha árvore. Sou mãe dela. Ajudei-a a nascer e vou velar por ela, mesmo que seja a quilómetros de distância por telepatia e boa vontade. Sinto que neste mundo sujo e poluído já fiz a diferença. Dei-lhe mais um pulmão. Pequenino mas bem intencionado. E as maçãs até podem revelar-se deliciosas como o nome sugere.
Um parto, dois livros publicados e uma macieira plantada. Posso morrer em paz. Isto é, como ser humano já fiz a minha parte. Não é que não quisesse publicar muitos mais livros. Oh, se queria! Ter mais rebentos é que não. E árvores, por mim, era uma floresta! Adoro o campo, o sussurrar das folhas, o silêncio da noite e a alegria dos grilos, sem esquecer o brilho das estrelas. Mas também não me vejo como camponesa. O meu lado trendy e citadino impede-me de deixar a civilização. E nenhum amor se sobrepõe ao MAR. Um dia gostava de ter a minha própria editora. É um sonho. Publicar os meus livros e todos aqueles que aprovássemos por serem originais e belos. Ou inquietantes. Porém, ainda não me saiu o euromilhões. Talvez um dia herde e possa realizar esse desejo. Até lá, vou continuar a fazer aquilo que gosto e sei. Escrever e ler até que os olhos me doam! E, de vez em quando, respirar uns ares marítimos ou campestres, dependendo da psicose do clã.