quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Fazer as malas


Após o segundo mês de tratamentos perdi, segundo o BL, mais uns 17 centímetros. O peso manteve-se. Muito estranho este fenómeno de diminuir de volume mas não de peso… Na realidade, sinto os meus braços e pernas óptimos, apenas a barriga morta estraga tudo… Cada vez estou mais mentalizada para pôr em marcha o plano B, assim que vier de férias em finais de Setembro.
Partimos no próximo sábado e a ideia de mudar de ares começa a ganhar forma. Constato que cada vez mais me custa fazer malas. Antes, quando viajava muito por causa da profissão, até achava super divertido e comprava acessórios mil para os destinos que me esperavam. No entanto, nas minhas últimas viagens tenho sentido grande desmotivação para arrumar as minhas coisas. Uma vez no local adoro perder-me em compras e encher a bagagem de regresso. Mas é o fazer as malas para partir que me quebra por dentro. Afinal, descobri que é um suplício para a maioria das pessoas. Quase ninguém gosta dessa tarefa, assim como da viagem em si. Apenas a ideia das férias, do descanso e divertimento conforta e entusiasma quem parte.
Mas vejamos como simplificar o processo. Em primeiro lugar, tenho de consultar o boletim meteorológico para optar pelo calçado e roupa correctos. Ora bem, o meu sogro acende a lareira à noite e, segundo o telejornal, choveu granizo – do tamanho de ovos cozidos – em Trás-os-Montes. Hum… Um bom casaco, guarda-chuva, trench-coat e talvez um corta-vento. Mas céus! Já me parece roupa a mais. E nós vamos apenas de férias, não vamos mudar de casa! Quantas calças posso levar? Eu que neste momento só me sinto confortável com umas de ganga da Donaldson? Vestidos nem vê-los. Uma ou duas saias… É uma tarefa quase impossível porque tenho tantas peças lindíssimas num closet que é um sonho mas receio bem que só possa levar meia dúzia de insignificâncias…
A roupa é per si um problema. Se chegar amachucada já é outro. Não pode andar aos trambolhões na mala nem ficar demasiado apertada. Temos de acondicioná-la bem. Sempre tratei maravilhosamente os meus trapinhos. Mal chego penduro e arrumo tudo. Faz quase um ano parti em lua-de-mel e grávida de dois meses e meio. Neste momento, a minha semelhança física com o ano passado é notória. Podia estar grávida também. Maldita barriga e malditos genes, por que não sou uma magrinha, eu que com a minha altura e carinha laroca passava logo por modelo? Ai, que tristeza de vida…
Os sacos são bons para levar sapatos. De resto, os produtos de higiene devem ir nos sacos próprios e, por falar nisso, preciso urgentemente de comprar champô e creme amaciador! Uma regra de ouro é: pesados em baixo e leves em cima. As calças vão sempre no fundo da mala e por cima as t-shirts, blusas e tops.
Parece-me que pode ser boa ideia levar repelente de insectos e um canivete suíço. É que o campo oferece outras dificuldades distintas da praia. A questão é que não sei se vou saber usar um canivete suíço… Hum… E os medicamentos? Levar QUAIS? Dinheiro sim, telemóvel sim, máquina fotográfica obrigatória. Se não registo o momento excepcional do encontro do meu sogro e da neta dele é uma falha grave da minha parte. Eu ADORO que o meu sogro ame a minha filha. E por a mencionar… só a mala dela me faz tiritar de medo. E se me esquecer de algo muito importante? É que este bebé vive num império de bens materiais. Já estou a sentir suores frios… Enfim, portas trancadas e tudo desligado em casa, chave entregue à mulher-a-dias e seja o que Deus quiser. É neste sábado mas já estou a bater MAL…

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Totalista no Euromilhões

O pai da bebé tem o sonho de um dia se tornar milionário graças ao concurso do Euromilhões. Nessa fantasia dele – na qual, por lei, dividiria o prémio comigo… ainda que a muito custo – o pai da bebé vê-se ao volante de um Aston Martin DBS, o carro do James Bond, no Casino Royale. Depois, porque como me assegura a nossa vida mudaria radicalmente, contrataria para sua segurança pessoal três jovens russas: Olga, Yelena e Tatiana. É um mistério como já as nomeia mas lá me vai avisando que não me quer a interferir com o seu esquadrão protector… Compraria uma casa na marginal – a qual cobiça desde criança – e creio que muitas outras mais. Claro que lhe disse: “Se contratares três russas eu vou querer escolher um mordomo, um jardineiro e um massagista”. Ao que ele retorquiu que eu não tinha direito a essas escolhas, uma vez que ele controlaria todos os gastos da nossa conta milionária.
Por que o pai da bebé se considera o gajo mais giro que alguma vez respirou no planeta Terra nem quero imaginar o que faria se de facto lhe saísse uma exorbitância de dinheiro. A primeiríssima coisa que faria era deixar de trabalhar. Tal como o meu irmão mais novo também ele defende que as pessoas só trabalham por necessidade e que quem tem dinheiro não precisa de suar as estopinhas. Uma vez em casa… o que faria? Calculo que, se fosse milionário, todos os dias teria programas estimulantes: viagens à volta do mundo, praia grande parte do ano, o último grito de tudo o que fosse informática e aparelhagens várias, bolos e doces vindos das melhores casas e pastelarias internacionais, uma ou mais equipas de futebol, grades e grades de sumol de ananás, uma megastore da sua marca de surf preferida e todos os demais negócios que já lhe passaram pela cabeça mas que nunca pôde concretizar.
Chegou mesmo a anunciar: “Como não podíamos ser pessoas normais comprávamos uma propriedade enorme e tínhamos tudo o que precisássemos lá dentro.” E eu fiquei a pensar que Deus é grande e todo-poderoso e que ainda bem que há pessoas que não ganham o Euromilhões. Passar a minha vida fechada numa casa ou com medo de sair à rua ou impedir a minha bebé de ter uma infância normal não me parece nenhum sonho, antes um pesadelo e dos grandes.
Durante um tempo – não muito prolongado – o assunto Euromilhões fica esquecido. Mas quando o prémio acumula inicia-se o processo de loucura. Aposta de forma aleatória sem números fetiche. Já me fez comprar também dez euros umas duas ou três vezes e eu lá acedi, ainda que muito contrariada porque ABOMINO jogos. Quando penso que já se esqueceu da fantasia verifico com algum divertimento que a ideia está cada vez mais refinada e repleta de acrescentos fantásticos. Desconfio que as russas tenham surgido numa inspiração directa das miúdas que servem as bebidas no bar do Casino Estoril. Fomos lá recentemente e, apesar de criticar o bar afundado que as fazia dobrar mostrando o rabo já pouco protegido pela veste reduzida, a verdade é que veio de lá com as russas na cabeça.
Quando lhe disse que se o dinheiro me saísse dava uns milhões aos meus pais e irmãos saltou-lhe a tampa. Creio que não planeia partilhar a parte dele nem com a família que o educou e vestiu nem com instituição de solidariedade alguma. E mais uma vez, só tenho de agradecer a Deus por uma pessoa tão generosa não ser prendada com tal dádiva. Imagino-o a ler este post e a pensar: “Eis a prova como aquela mulher não me deseja sorte! Pois não hás-de ver um cêntimo!”. Mas… é óbvio que gostava muito de ter milhões de euros. É melhor deixar isto bem claro, não vá o diabo tecê-las… Só que eu administro a minha parte e não vou ficar fechada em palácio algum. Se quisesse gaiolas tinha nascido canário. E a bebé voa comigo: em LIBERDADE.






Mutter Courage und ihre kinder



Aprecio bastante a literatura alemã. Em particular, a poesia de Rainer Maria Rilke, assim como a sua prosa e epistolografia. As cartas dirigidas a Lou Andreas-Salomé são das mais belas que li. Quanto a Bertolt Brecht fascina-me a sua frieza e a forma tranquila e, ao mesmo tempo, perturbadora como escreve.
Mãe coragem é um título gasto pelos jornalistas de todo o mundo. É daqueles títulos fáceis e recorrentes. Legenda com duas palavras toda a dor contida numa fotografia de guerra ou numa notícia feroz. Mãe coragem porque se todas as mães a têm esta é talvez a característica mais saliente naquelas que, perdendo os filhos, têm de continuar a viver com todo o esforço inimaginável que essa mesma sobrevivência implica. Mãe coragem porque também perdendo o marido não deixam de ser mães e, apesar de na grande maioria dos casos, obterem facilmente a custódia dos filhos é feita de sacrifícios a vida das mães que ficam sós e que lutam contra toda a espécie de preconceitos e dificuldades.
Mutter Courage und ihre kinder (Mãe Coragem e os seus Filhos) é uma peça escrita por Brecht em 1939. Apesar da data nos lembrar logo o começo da II Grande Guerra, a acção da peça passa-se durante a Guerra dos Trinta Anos 1618-1648. Anna Fierling perde os três filhos nesse conflito. Esta peça permite-nos compreender melhor dois conceitos brechtinianos: o do teatro épico e o de distanciamento/estranhamento (em alemão este efeito de distanciamento ou efeito de algo que se torna estranho designa-se por verfremdungseffekt).
Às vezes, sinto no meu dia a dia esta sensação de verfremdungseffekt tão intraduzível quanto real e sentida. Ou seja, sinto avisos sobre os enredos antes das cenas começarem. Pequenas denúncias, tiques que já sei de cor e, apesar de me concentrar na negação e no desejo do não acontecimento – estilo “não, isto não vai, não pode acontecer” – a realidade logo encarrega-se de chegar à cena e ela desenrola-se sob a minha incredulidade.
Justaposição e mudança de papéis… conheço isso. Altero entre a ira e a calma. Tão depressa me insurjo como ignoro. Sou ao mesmo tempo mãe, mulher, filha e irmã. Uma única estrela pode representar o firmamento inteiro, um único gesto pode provocar uma catástrofe, os dias e as noites podem ser feitos da mesma cor. Não há tempo para desenvolver sentimentalismos ou empatias porque para tudo é preciso tempo e este escasseia ou passa a ser desperdiçado. A peça de Brecht diz-nos que a virtude não é conseguida em tempos difíceis. A mãe, vendedora ambulante, perde os filhos numa guerra em que lucra também. A ideia é levar o público a pensar mas sem se emocionar.
Deveríamos saber avaliar friamente até aqueles que amamos e rendermo-nos, sem fantasias ou quimeras nossas, àquilo de que eles são capazes de fazer ou não. Os adultos cuja personalidade, ao contrário dos adolescentes, já se encontra formada nunca mudam. Podem atenuar certos traços da mesma mas não mudam. E, às vezes, acreditar nas mudanças só nos traz dissabores. O pior cego é aquele que não quer ver…

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Mães no cinema


A Sétima Arte já mostrou todo o tipo de mães possíveis e imaginárias. Curiosamente são poucas as actrizes que gostam de fazer este papel. O motivo deve-se ao facto de Hollywood rotular de uma forma demasiado óbvia quem faz o quê e, depois da mãe interpretada, o difícil é voltar a ter papéis de uma mulher sensual ou minimamente espevitada. Que o digam Kim Basinger, Kahtleen Turner e Debra Winger, entre tantas outras. Lá porque uma mulher é mãe não deixa de ser sexy, de ter charme e desejo de fazer mil e uma loucuras. No cinema e, mais importante, na vida real. Esta ideia de uma mãe estar acabada para o mundo erótico é no mínimo deprimente e no máximo uma grande falsidade. É claro que a maternidade acarreta novas responsabilidades mas nada disso impede que se goze a vida como muitos crêem e fazem crer. Um grande amigo meu disse-me: “Ser mãe deixou-te ainda mais bonita” e olhou-me daquele jeito que me fez corar até à ponta dos cabelos. “Desculpa os meus genes de lince”, gracejou, de seguida, mudando de assunto. E eu pensei: “Que querido. Nem sequer mencionou o meu excesso de peso – o tal que me massacra diariamente.”
De facto, ser mãe é uma experiência única mas não derradeira. Esclarecido este tema das mães de Hollywood, vi recentemente dois filmes, cujas mães por antagonismo e unicidade me intrigaram bastante: “Sonny” (2002), o primeiro filme realizado por Nicolas Cage e “The Pursuit of Happyness”, com Will Smith.
Nesta estreia de Cage como realizador, Sonny (James Franco, o belíssimo amigo do Homem Aranha) é um gigolo, um homem que foi ensinado pela mãe Jewel (Brenda Blethyn), uma prostituta de New Orleans a ser pago para dar prazer às mulheres quase desde criança, ou seja, um natural-born-whore. Nesta relação de interdependência mãe-filho, estão patentes vários aspectos, entre eles a chantagem psicológica da mãe que atinge o auge na frase: “Tu sabes que és a única pessoa que tenho. Diz que sabes”, o interesse pelo dinheiro que só é adquirido através do único investimento seguro que Jewel fez na vida: o próprio filho vendendo-se como prostituto/gigolo. E ele, Sonny, que tenta mudar de emprego e ser um square para depois desesperar e achar que o seu lugar é aquele e que não pode almejar mais nada ou sequer ninguém no destino que lhe foi traçado pela progenitora e que acabará por aceitar na dormência dos seus dias.
Jewel leva o filho a acreditar que sem ele não há vida possível para ela. E apesar dos apelos da jovem prostituta Carol (Mena Suvari) que foge à alçada de Jewel e tenta persuadir Sonny a também fazer o mesmo, este permanecerá ao lado da mãe, sem a qual, por sua vez, se sente demasiado só num mundo de squares. Sem julgamentos morais num filme hiper realista onde o charme e a ordinarice andam de mãos dadas esta é sem dúvida uma relação singular mãe-filho dada à luz na grande tela.
Já no “Pursuit of Happyness” (2006), o pai (Will Smith) fica logo com a custódia do filho (Jaden Smith, filho do actor na vida real). Enquanto que a mãe Linda (Thandie Newton), cansada de trabalhar turno após turno e de ver que o marido não consegue pagar a renda de casa nem vender a mercadoria dele acaba por partir. Neste filme que retrata a vida real de Chris Gardner, um vendedor que chega à Bolsa e vence – muito ao estilo dos filmes que Hollywood gosta de nos impingir a tresandar a sucesso – pouco se sabe sobre esta mãe. Linda apenas desaparece e deixa o filho para trás sem que Chris (Will Smith) se preocupe ou questione mais sobre o assunto. Chris brilha sozinho como profissional e pai irrepreensível.
Uma mãe manipuladora, interesseira e intragável no “Sonny” e uma mãe ausente, permissiva e quase invisível no “Pursuit of Happyness”. Lembrei-me agora de uma outra mãe: a do “8 Mile” (2003), onde Kim Basinger interpreta Stephanie, a mãe do rapper Eminem, o qual se representa a ele próprio na tela. Surge como uma mulher egocêntrica, que negligencia a filha de cinco anos, alcoólica e que passa a vida a discutir e a deitar os sonhos do filho – gravar um disco – por terra… Hum… Estou a precisar de ver filmes com mães heroínas e heróicas. E, já agora, consta que na vida real o rapper e a actriz que fez de mãe dele... andaram enrolados. Viva Édipo, viva!

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Barriga morta

Hoje a minha barriga foi declarada oficialmente morta. Snif... Estava em pleno tratamento nas mãos do BL quando a miúda russa me pergunta: “Tens a certeza que não morreste?”. E eu: “Porquê?”. E ela: “És a primeira a suportar a carga 50 na electro-estimulação na barriga e nem sequer protestas. Só agora consigo ver algum trabalho do músculo.” Animador: primeiro dizem-me que tenho os músculos atrofiados e agora declaram-me a maior suportadora de carga eléctrica ao observarem o pobre abdómen a querer expressar-se através de uma intensa camada adiposa, calculo. Raios! Barriga atrofiada e morta dá que pensar…
E isto ainda me frustra mais dado que o peso na balança estagnou. Agora não engordo mais mas também não emagreço e ainda estou a uns bons seis quilos do meu peso. Estranhamente, o volume continua a diminuir e a minha cintura parece ter reaparecido. O mistério é por que fenómeno sobrenatural o peso não desaparece?
Cansada de massacrar todos com as minhas dietas e a angústia do peso decidi não falar mais sobre o assunto. Menos aqui, claro. Afinal, uma psicose partilha-se para não nos sentirmos tão abatidos e únicos. É óbvio que encontro mães recentes com muito mais peso do que eu e outras que nem parecem ter engravidado… A importância genética também ajuda e a minha família é assim para o cheiinho… Mas tenho um plano B em marcha e isso tranquiliza-me.
Morto também anda este meu mês de Agosto que tanto gosto. Gosto de Agosto. Agosto que gosto. Caramba! Soa bem. Na realidade, este vento que se faz sentir só massacra ainda mais. E a bebé anda meio constipada… Está rouca e isso preocupa-me. Febril. Mas come bem. É uma leoa a comer, como a descreve orgulhosamente o meu sogro. Para o mês que vem vamos ter com ele e passar uns dias de férias no Norte. Vai ser a primeira grande viagem da bebé. Eu também nunca estive por aquelas paragens mas ele já lá está, radiante com a perspectiva de nos ver chegar e de… lareira acesa devido ao frio nocturno! Em Agosto. Que desgosto…
Agora que penso nisso nem quero imaginar o que será fazer as malas da bebé… Ela precisa de tanta coisa! Produtos, roupas, acessórios, brinquedos, etc. Vamos ter de alugar uma camioneta! Mas eu adoro tratar dela: dar-lhe banho, massajar o creme, fazer-lhe o almoço que come cada vez melhor, vesti-la e embelezá-la. E quando alguém a elogia sinto-me mesmo envaidecida. Um dia destes, o pai da bebé comentou: “Nunca deves ter brincado tanto com os bonecos tipo Nenuco como brincas com ela.”
O que é verdade, até porque desde sempre preferi a Tucha, Sindy, Nancy, a Daisy da Mary Quant, entre outras, que se assemelhassem a pequenas mulheres. E, mais tarde, aderi à Barbie, claro, a minha favorita. Os bebés não eram o meu forte. Daí, também, a minha falta de prática no vestir e despir. Se ela tivesse os 29 cm de altura mudava-a à velocidade com que descasco camarões. Muito inveja o meu pai esta minha habilidade natural mas para o compensar também lhe descasco uns e ele lá se satisfaz. Se existisse um concurso televisivo talvez ganhasse umas coroas com esta minha velocidade manual no que toca à mariscada. Dons…
Esta da barriga matou-me o dia. E agora vou deitar-me porque estou a morrer de sono. Vou dormir com a minha barriga morta e pensar numa forma de a matar de vez.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Apesar dos golpes

Estou a ler uma biografia da minha escritora preferida. Já sabia que a relação dela com a mãe não era das melhores. Mas um trabalho aprofundado dá-nos uma outra riqueza de pormenores… sórdidos, até. Enfim, apesar de tudo, ela resume numa frase referindo-se à progenitora: “Mais je l’aime au-delà de cette connaissance que j’ai d’elle et qu’elle n’a pas d’elle-même.” E isto é assombroso. Gostar-se da mãe – que gritava, chorava, sofria comas melancólicos, batia-lhe, não a protegia do irmão mais velho que a agredia também física e verbalmente, da mãe que considerava obscena a ideia de ela se tornar escritora, da mãe que a vendeu a um amante chinês mas rico, da mãe… Continuo a achar extraordinário este laço inquebrantável que se tem com quem nos deu a vida.
Laços… Temo-los com quem amamos. Podem parecer fortes e eternos mas, quando menos esperamos partem-se e, com eles, parte-se o nosso coração, a maneira como vemos os outros e a nós mesmos.
É difícil falar sobre perdas mas pior é mesmo sentirmos essa angústia esmagar-nos os dias e toldar-nos o horizonte. Não há sensação mais atroz do que perdermos alguém quando ainda a amamos. “Perdermos” não porque morreu ainda que nos obrigue a uma espécie de luto em tudo semelhante ao autêntico. O tempo sara todas as feridas, dizem. Mas às vezes o tempo parece atrasar o passo…
Alguém que conheço perdeu a mulher para um outro homem e depois perdeu-o ela porque isto do coração e da tesão às vezes confunde…Foram dez anos de partilha feliz que acabaram em dois meses de cenário de guerra. Consta que se tratou do divórcio mais célere de Lisboa… Já lá vai quase um ano e ele confidenciou-me que quando está com uma mulher ainda sente que lhe está a ser infiel… à mulher desertora da história que antes era feliz. E a solidão continua imensa.
Eu acredito e valorizo todo este sofrimento. Há feridas que não se curam nunca ou então demoram séculos a cicatrizar. Existem pessoas mais sensíveis feitas de pó de estrelas que ousam sonhar quimeras. Fantasiam de olhos abertos, vêem a realidade cor-de-rosa e são felizes assim. Outras sabem que tudo é feio, porco e mau e preferem ver as coisas dessa maneira. Os realistas não têm qualquer tolerância versus os fantasistas. Acham-nos infantis e tristes. Esses curam a perda vingando-se nuns e noutros. Usam muletas como os sonhadores imaginam novas paisagens. Uns não estão para sofrer e outros sofrem em silêncio, com os amigos ou escondem a dor no orgulho que ainda lhes resta.
Triste é perdermos quem amamos. Porém, se soubermos passar por esse inferno uma coisa é certa: fica-se incólume, ou quase, a futuros desaires. A dor torna-nos mestres na vida. Mas que o coração nunca se nos enrijeça. Pois quem sonha e ama e sabe, apesar dos golpes, não desejar mal nenhum ao outro que os infligiu, esse é o mais sábio de entre nós. E o AMOR sabê-lo-á reencontrar.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

O poder das mães

Sempre me fascinou a devoção cega que uma pessoa normal – homem ou mulher – tem pela mãe. Crescemos a amar a mãe como se fosse algo tão natural como termos duas pernas ou respirarmos pelo nariz. Mas quando somos mães percebemos que esse amor é algo que não nasce connosco antes se constrói da relação diária entre mãe e filho. Assim, não admira que crianças criadas por pais não biológicos nutram por estes o afecto autêntico e, como tal, muitas vezes ouvimos: “Mãe é aquela que me criou e não a que me fez.”
Todos os dias acordo sobressaltada com os gritinhos ou gemidos da bebé. Agora ela já dorme no seu quartinho e os intercomunicadores tornam-se essenciais. Levanto-me estremunhada para ver o que se passa. Aconchego-a na cama e endireito-a, tapo-a com o lençol, coloco-lhe a chucha ou, em casos mais drásticos, pego-lhe ao colo e tento adormece-la. Aqueço-lhe o leite e dou-lhe o biberão, um gesto que já repeti milhares de vezes. Mudo-lhe a fralda. Encho-lhe as bochechas de beijos. Só adormeço quando ela dorme tranquila. Adquiri uma responsabilidade enorme com esta bebé: sou a mãe dela, a que vela por ela, aquela que a protege e alimenta. Mais tarde, serei responsável pela educação dela, terei que lhe transmitir os valores nos quais acredito, moldarei a minha filha para ser uma pessoa honesta, correcta e exemplar. Isso é o que eu quero.
Por vezes, quando lhe mudo a fralda ou a visto no seu quarto cor-de-rosa imagino-a adolescente, fechada nesse mesmo quarto, com um letreiro do género “Entrada Proibida” pespegado na porta. Talvez a música que ela oiça seja ensurdecedora, ou a roupa demasiado extravagante, o cabelo pintado de azul, os lábios escuros e no chão encontre mortalhas, erva, ou pequenos sacos de plástico com pó branco ao pé de notas enroladas e de CD’s que se misturam com cartões vários. Quando penso nisso, as minhas mãos tremem e sinto-me morrer. Não é assim que quero ver a minha filha mas, às vezes, estas imagens desoladoras saltam-me à mente.
Nós ouvimos tantas histórias e vemo-las desenrolarem-se todos os dias à frente dos nossos olhos. Basta estarmos atentos. Em cada hora que passa perdem-se mil almas, dizia a minha avó. Mas eu não pari esta filha única para a perder. Não a quero perder para nenhum vício nem para nenhum homem nem para nenhum culto ou cataclismo natural ou acidente de automóvel ou fatalidade ou seja o que for.
Vou ensinar tudo à minha bebé. Vou afastá-la do mal e das más companhias. Não a quero a fazer disparates ou ouvi-la a mentir. Quero que a minha filha não saiba o que é uma mentira. Eu cresci na crença de que a mentira é a mãe de todos os vícios. Curiosamente resultou. Ainda hoje não sou capaz de mentir. Posso ocultar informação para não magoar quem me é próximo mas não minto. E se me confrontarem eu digo e conto tudo. Aliás, é assim que os papagaios fazem. Contam tudo a todos na sua ilha tão colorida como a variedade de penas que os enfeita. Repetem. Não sabem falar. Imitam os sons. Não os deformam, contudo. São leais e divertidos, os pequenos papagaios.
Eu desejo o melhor dos mundos para a minha filha. Como mãe dela tudo farei para que ela possa ser uma mulher feliz e que Deus me conceda a graça de a ver mulher feita. Mas sei que apesar de a querer moldar saberei respeitar a sua liberdade. Chegará uma altura em que a minha bebé me vai virar costas e fazer-se à vida. É assim a lei das aves e, por isso, defendem os estudiosos da matéria, que não somos nós que nos temos de adaptar ao bebé mas o bebé a nós, uma vez que já cá estávamos quando eles chegaram. E, naturalmente, por cá ficaremos quando eles partirem, gratos ou ingratos por tudo aquilo que lhes demos. Regressarão com a graça de um neto e terão para connosco um carinho perene ou deixar-nos-ão cair na solidão de uma velhice amarga? Cada pessoa é um mistério, um livro único, uma aventura sem igual. Não há dois destinos gémeos. Gostava de a saber criar e de receber em troca o seu afecto que começa por ser tão naturalmente construído e absoluto e pode findar de mil e uma maneiras.
Enquanto ela for a minha bebé esse é o tempo sagrado. O mais belo momento. Recordar-me-ei do seu pequeno rosto de bebé para sempre ou terei de me socorrer das velhas fotografias? Depois, seguiremos caminhos separados. Mas espero que me guarde sempre no coração dela e que saiba amar como foi amada. E que não minta.


quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Amor tumultuoso

A bebé nasceu de uma reconciliação – a primeira de muitas – entre os pais dela. Zangamo-nos com uma enorme facilidade e, depois, fazemos as pazes e… por acréscimo fizemos a bebé. Foi feita com muito amor é verdade. Com intenção também. Ambos a queríamos. Ele mais do que eu. Ele desde sempre, suponho. Ou desde que me beijou magnificamente numa noite junto ao rio. Disse-me que me desejava há muito. E é curioso porque se recordar um longínquo jantar de grupo recordo-me de ter comentado com o amigo que então me acompanhara apontando o pai da bebé: “Ele é o homem mais belo desta sala.” Ao que o meu amigo me respondeu: “Bem podes encolher as garras que, esse aí, já é comprometido.” Volvidos alguns anos voltámo-nos a encontrar e, desta vez, os dois livres. De novo, o achei o homem mais belo do café onde então se deu o nosso rendez-vous. E mais tarde, do bar. E depois percebi que a beleza dele iria acompanhar-me sempre e encher todos os espaços onde estivéssemos.
Namorámos três meses e casámos em seis, com a bebé já a rondar as 12 semanas… Pelo civil, na casa que sempre amei e onde desfrutei os melhores dias da minha vida. E depois começámos a nossa vida de casados. Não é fácil.
A nossa relação faz-me lembrar a de George Sand – a escritora francesa – com Alfred Musset, eleito aos 17 anos a estrela mais brilhante do cenáculo de Victor Hugo. Musset defendia que amava as mulheres apenas para as atormentar até à morte. Viciado em ópio, escalava a Notre-Dame para assistir ao pôr-do-sol sobre Paris. Cliente assíduo das prostitutas dizia: “On les caresse et on les insulte.”
Irritava-se com a escrita da amante, quase automática, preferindo refugiar-se junto das meretrizes. É ciumento, tão ciumento que, Sand, a fim de o reaver, opta por se afastar da sua corte de amigos... Mas a relação vive momentos selvagens, nos quais ele brande uma faca e ela fala no suicídio. Por fim, o mais forte dos dois põe fim a esta luta, terminando uma relação onde tudo era extâse, furor e literatura.
Às vezes, o pai da bebé grita-me que não é uma personagem e que a nossa vida não é um livro. Ou que odeia ser invisível para mim quando eu o ignoro. Sim, porque ignoro-o muitas vezes. Sempre que me ofende ou magoa faço de conta que ele deixa de existir. É um corpo que não me diz nada. E depois fazemos as pazes.
O pai da bebé queixa-se de ser humilhado quando é ele que traz terceiros para o nosso seio. Seja através do telemóvel ou da Internet. E é capaz de declarar: “Mas agora não tenho nada a esconder”, como se o que tivesse acontecido antes não contasse para nada… “O passado é passado” disse eu, “não se fala mais nisso”. E ele adorou a frase, claro. Todos gostam de finais felizes, perdões, reconciliações, pazes feitas. Afinal, temos uma bebé. Mesmo que não seja por ela, por nós. E se a bebé não existisse? Estaríamos juntos? Casaríamos outra vez? Ele pergunta-me muitas vezes isso: “Casavas comigo outra vez?”.
Às vezes, insultamo-nos e atiramos ou partimos objectos. Eu bebo e vomito. Ele também. Não sabemos gerir a nossa separação mas também tem sido uma dura aprendizagem a nossa união. Quando estamos bem, ele provoca. Diz algo só para magoar, ofender, ferir. Reajo com muita agressividade a essas provocações à toa e desnecessárias. Tenho ganas de partir. De deixar tudo para trás. De acabar com o mito da minha possessividade.
Há dias difíceis e há dias felizes. Hoje começa o meu mês preferido. Espero que feito dos dias de Beckett. Eu amo o pai da bebé. E casava com ele de novo. Mas quero PAZ.