quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Amor tumultuoso

A bebé nasceu de uma reconciliação – a primeira de muitas – entre os pais dela. Zangamo-nos com uma enorme facilidade e, depois, fazemos as pazes e… por acréscimo fizemos a bebé. Foi feita com muito amor é verdade. Com intenção também. Ambos a queríamos. Ele mais do que eu. Ele desde sempre, suponho. Ou desde que me beijou magnificamente numa noite junto ao rio. Disse-me que me desejava há muito. E é curioso porque se recordar um longínquo jantar de grupo recordo-me de ter comentado com o amigo que então me acompanhara apontando o pai da bebé: “Ele é o homem mais belo desta sala.” Ao que o meu amigo me respondeu: “Bem podes encolher as garras que, esse aí, já é comprometido.” Volvidos alguns anos voltámo-nos a encontrar e, desta vez, os dois livres. De novo, o achei o homem mais belo do café onde então se deu o nosso rendez-vous. E mais tarde, do bar. E depois percebi que a beleza dele iria acompanhar-me sempre e encher todos os espaços onde estivéssemos.
Namorámos três meses e casámos em seis, com a bebé já a rondar as 12 semanas… Pelo civil, na casa que sempre amei e onde desfrutei os melhores dias da minha vida. E depois começámos a nossa vida de casados. Não é fácil.
A nossa relação faz-me lembrar a de George Sand – a escritora francesa – com Alfred Musset, eleito aos 17 anos a estrela mais brilhante do cenáculo de Victor Hugo. Musset defendia que amava as mulheres apenas para as atormentar até à morte. Viciado em ópio, escalava a Notre-Dame para assistir ao pôr-do-sol sobre Paris. Cliente assíduo das prostitutas dizia: “On les caresse et on les insulte.”
Irritava-se com a escrita da amante, quase automática, preferindo refugiar-se junto das meretrizes. É ciumento, tão ciumento que, Sand, a fim de o reaver, opta por se afastar da sua corte de amigos... Mas a relação vive momentos selvagens, nos quais ele brande uma faca e ela fala no suicídio. Por fim, o mais forte dos dois põe fim a esta luta, terminando uma relação onde tudo era extâse, furor e literatura.
Às vezes, o pai da bebé grita-me que não é uma personagem e que a nossa vida não é um livro. Ou que odeia ser invisível para mim quando eu o ignoro. Sim, porque ignoro-o muitas vezes. Sempre que me ofende ou magoa faço de conta que ele deixa de existir. É um corpo que não me diz nada. E depois fazemos as pazes.
O pai da bebé queixa-se de ser humilhado quando é ele que traz terceiros para o nosso seio. Seja através do telemóvel ou da Internet. E é capaz de declarar: “Mas agora não tenho nada a esconder”, como se o que tivesse acontecido antes não contasse para nada… “O passado é passado” disse eu, “não se fala mais nisso”. E ele adorou a frase, claro. Todos gostam de finais felizes, perdões, reconciliações, pazes feitas. Afinal, temos uma bebé. Mesmo que não seja por ela, por nós. E se a bebé não existisse? Estaríamos juntos? Casaríamos outra vez? Ele pergunta-me muitas vezes isso: “Casavas comigo outra vez?”.
Às vezes, insultamo-nos e atiramos ou partimos objectos. Eu bebo e vomito. Ele também. Não sabemos gerir a nossa separação mas também tem sido uma dura aprendizagem a nossa união. Quando estamos bem, ele provoca. Diz algo só para magoar, ofender, ferir. Reajo com muita agressividade a essas provocações à toa e desnecessárias. Tenho ganas de partir. De deixar tudo para trás. De acabar com o mito da minha possessividade.
Há dias difíceis e há dias felizes. Hoje começa o meu mês preferido. Espero que feito dos dias de Beckett. Eu amo o pai da bebé. E casava com ele de novo. Mas quero PAZ.

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