Sempre me fascinou a devoção cega que uma pessoa normal – homem ou mulher – tem pela mãe. Crescemos a amar a mãe como se fosse algo tão natural como termos duas pernas ou respirarmos pelo nariz. Mas quando somos mães percebemos que esse amor é algo que não nasce connosco antes se constrói da relação diária entre mãe e filho. Assim, não admira que crianças criadas por pais não biológicos nutram por estes o afecto autêntico e, como tal, muitas vezes ouvimos: “Mãe é aquela que me criou e não a que me fez.”
Todos os dias acordo sobressaltada com os gritinhos ou gemidos da bebé. Agora ela já dorme no seu quartinho e os intercomunicadores tornam-se essenciais. Levanto-me estremunhada para ver o que se passa. Aconchego-a na cama e endireito-a, tapo-a com o lençol, coloco-lhe a chucha ou, em casos mais drásticos, pego-lhe ao colo e tento adormece-la. Aqueço-lhe o leite e dou-lhe o biberão, um gesto que já repeti milhares de vezes. Mudo-lhe a fralda. Encho-lhe as bochechas de beijos. Só adormeço quando ela dorme tranquila. Adquiri uma responsabilidade enorme com esta bebé: sou a mãe dela, a que vela por ela, aquela que a protege e alimenta. Mais tarde, serei responsável pela educação dela, terei que lhe transmitir os valores nos quais acredito, moldarei a minha filha para ser uma pessoa honesta, correcta e exemplar. Isso é o que eu quero.
Por vezes, quando lhe mudo a fralda ou a visto no seu quarto cor-de-rosa imagino-a adolescente, fechada nesse mesmo quarto, com um letreiro do género “Entrada Proibida” pespegado na porta. Talvez a música que ela oiça seja ensurdecedora, ou a roupa demasiado extravagante, o cabelo pintado de azul, os lábios escuros e no chão encontre mortalhas, erva, ou pequenos sacos de plástico com pó branco ao pé de notas enroladas e de CD’s que se misturam com cartões vários. Quando penso nisso, as minhas mãos tremem e sinto-me morrer. Não é assim que quero ver a minha filha mas, às vezes, estas imagens desoladoras saltam-me à mente.
Nós ouvimos tantas histórias e vemo-las desenrolarem-se todos os dias à frente dos nossos olhos. Basta estarmos atentos. Em cada hora que passa perdem-se mil almas, dizia a minha avó. Mas eu não pari esta filha única para a perder. Não a quero perder para nenhum vício nem para nenhum homem nem para nenhum culto ou cataclismo natural ou acidente de automóvel ou fatalidade ou seja o que for.
Vou ensinar tudo à minha bebé. Vou afastá-la do mal e das más companhias. Não a quero a fazer disparates ou ouvi-la a mentir. Quero que a minha filha não saiba o que é uma mentira. Eu cresci na crença de que a mentira é a mãe de todos os vícios. Curiosamente resultou. Ainda hoje não sou capaz de mentir. Posso ocultar informação para não magoar quem me é próximo mas não minto. E se me confrontarem eu digo e conto tudo. Aliás, é assim que os papagaios fazem. Contam tudo a todos na sua ilha tão colorida como a variedade de penas que os enfeita. Repetem. Não sabem falar. Imitam os sons. Não os deformam, contudo. São leais e divertidos, os pequenos papagaios.
Eu desejo o melhor dos mundos para a minha filha. Como mãe dela tudo farei para que ela possa ser uma mulher feliz e que Deus me conceda a graça de a ver mulher feita. Mas sei que apesar de a querer moldar saberei respeitar a sua liberdade. Chegará uma altura em que a minha bebé me vai virar costas e fazer-se à vida. É assim a lei das aves e, por isso, defendem os estudiosos da matéria, que não somos nós que nos temos de adaptar ao bebé mas o bebé a nós, uma vez que já cá estávamos quando eles chegaram. E, naturalmente, por cá ficaremos quando eles partirem, gratos ou ingratos por tudo aquilo que lhes demos. Regressarão com a graça de um neto e terão para connosco um carinho perene ou deixar-nos-ão cair na solidão de uma velhice amarga? Cada pessoa é um mistério, um livro único, uma aventura sem igual. Não há dois destinos gémeos. Gostava de a saber criar e de receber em troca o seu afecto que começa por ser tão naturalmente construído e absoluto e pode findar de mil e uma maneiras.
Enquanto ela for a minha bebé esse é o tempo sagrado. O mais belo momento. Recordar-me-ei do seu pequeno rosto de bebé para sempre ou terei de me socorrer das velhas fotografias? Depois, seguiremos caminhos separados. Mas espero que me guarde sempre no coração dela e que saiba amar como foi amada. E que não minta.
Todos os dias acordo sobressaltada com os gritinhos ou gemidos da bebé. Agora ela já dorme no seu quartinho e os intercomunicadores tornam-se essenciais. Levanto-me estremunhada para ver o que se passa. Aconchego-a na cama e endireito-a, tapo-a com o lençol, coloco-lhe a chucha ou, em casos mais drásticos, pego-lhe ao colo e tento adormece-la. Aqueço-lhe o leite e dou-lhe o biberão, um gesto que já repeti milhares de vezes. Mudo-lhe a fralda. Encho-lhe as bochechas de beijos. Só adormeço quando ela dorme tranquila. Adquiri uma responsabilidade enorme com esta bebé: sou a mãe dela, a que vela por ela, aquela que a protege e alimenta. Mais tarde, serei responsável pela educação dela, terei que lhe transmitir os valores nos quais acredito, moldarei a minha filha para ser uma pessoa honesta, correcta e exemplar. Isso é o que eu quero.
Por vezes, quando lhe mudo a fralda ou a visto no seu quarto cor-de-rosa imagino-a adolescente, fechada nesse mesmo quarto, com um letreiro do género “Entrada Proibida” pespegado na porta. Talvez a música que ela oiça seja ensurdecedora, ou a roupa demasiado extravagante, o cabelo pintado de azul, os lábios escuros e no chão encontre mortalhas, erva, ou pequenos sacos de plástico com pó branco ao pé de notas enroladas e de CD’s que se misturam com cartões vários. Quando penso nisso, as minhas mãos tremem e sinto-me morrer. Não é assim que quero ver a minha filha mas, às vezes, estas imagens desoladoras saltam-me à mente.
Nós ouvimos tantas histórias e vemo-las desenrolarem-se todos os dias à frente dos nossos olhos. Basta estarmos atentos. Em cada hora que passa perdem-se mil almas, dizia a minha avó. Mas eu não pari esta filha única para a perder. Não a quero perder para nenhum vício nem para nenhum homem nem para nenhum culto ou cataclismo natural ou acidente de automóvel ou fatalidade ou seja o que for.
Vou ensinar tudo à minha bebé. Vou afastá-la do mal e das más companhias. Não a quero a fazer disparates ou ouvi-la a mentir. Quero que a minha filha não saiba o que é uma mentira. Eu cresci na crença de que a mentira é a mãe de todos os vícios. Curiosamente resultou. Ainda hoje não sou capaz de mentir. Posso ocultar informação para não magoar quem me é próximo mas não minto. E se me confrontarem eu digo e conto tudo. Aliás, é assim que os papagaios fazem. Contam tudo a todos na sua ilha tão colorida como a variedade de penas que os enfeita. Repetem. Não sabem falar. Imitam os sons. Não os deformam, contudo. São leais e divertidos, os pequenos papagaios.
Eu desejo o melhor dos mundos para a minha filha. Como mãe dela tudo farei para que ela possa ser uma mulher feliz e que Deus me conceda a graça de a ver mulher feita. Mas sei que apesar de a querer moldar saberei respeitar a sua liberdade. Chegará uma altura em que a minha bebé me vai virar costas e fazer-se à vida. É assim a lei das aves e, por isso, defendem os estudiosos da matéria, que não somos nós que nos temos de adaptar ao bebé mas o bebé a nós, uma vez que já cá estávamos quando eles chegaram. E, naturalmente, por cá ficaremos quando eles partirem, gratos ou ingratos por tudo aquilo que lhes demos. Regressarão com a graça de um neto e terão para connosco um carinho perene ou deixar-nos-ão cair na solidão de uma velhice amarga? Cada pessoa é um mistério, um livro único, uma aventura sem igual. Não há dois destinos gémeos. Gostava de a saber criar e de receber em troca o seu afecto que começa por ser tão naturalmente construído e absoluto e pode findar de mil e uma maneiras.
Enquanto ela for a minha bebé esse é o tempo sagrado. O mais belo momento. Recordar-me-ei do seu pequeno rosto de bebé para sempre ou terei de me socorrer das velhas fotografias? Depois, seguiremos caminhos separados. Mas espero que me guarde sempre no coração dela e que saiba amar como foi amada. E que não minta.

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