Aprecio bastante a literatura alemã. Em particular, a poesia de Rainer Maria Rilke, assim como a sua prosa e epistolografia. As cartas dirigidas a Lou Andreas-Salomé são das mais belas que li. Quanto a Bertolt Brecht fascina-me a sua frieza e a forma tranquila e, ao mesmo tempo, perturbadora como escreve.
Mãe coragem é um título gasto pelos jornalistas de todo o mundo. É daqueles títulos fáceis e recorrentes. Legenda com duas palavras toda a dor contida numa fotografia de guerra ou numa notícia feroz. Mãe coragem porque se todas as mães a têm esta é talvez a característica mais saliente naquelas que, perdendo os filhos, têm de continuar a viver com todo o esforço inimaginável que essa mesma sobrevivência implica. Mãe coragem porque também perdendo o marido não deixam de ser mães e, apesar de na grande maioria dos casos, obterem facilmente a custódia dos filhos é feita de sacrifícios a vida das mães que ficam sós e que lutam contra toda a espécie de preconceitos e dificuldades.
Mutter Courage und ihre kinder (Mãe Coragem e os seus Filhos) é uma peça escrita por Brecht em 1939. Apesar da data nos lembrar logo o começo da II Grande Guerra, a acção da peça passa-se durante a Guerra dos Trinta Anos 1618-1648. Anna Fierling perde os três filhos nesse conflito. Esta peça permite-nos compreender melhor dois conceitos brechtinianos: o do teatro épico e o de distanciamento/estranhamento (em alemão este efeito de distanciamento ou efeito de algo que se torna estranho designa-se por verfremdungseffekt).
Às vezes, sinto no meu dia a dia esta sensação de verfremdungseffekt tão intraduzível quanto real e sentida. Ou seja, sinto avisos sobre os enredos antes das cenas começarem. Pequenas denúncias, tiques que já sei de cor e, apesar de me concentrar na negação e no desejo do não acontecimento – estilo “não, isto não vai, não pode acontecer” – a realidade logo encarrega-se de chegar à cena e ela desenrola-se sob a minha incredulidade.
Justaposição e mudança de papéis… conheço isso. Altero entre a ira e a calma. Tão depressa me insurjo como ignoro. Sou ao mesmo tempo mãe, mulher, filha e irmã. Uma única estrela pode representar o firmamento inteiro, um único gesto pode provocar uma catástrofe, os dias e as noites podem ser feitos da mesma cor. Não há tempo para desenvolver sentimentalismos ou empatias porque para tudo é preciso tempo e este escasseia ou passa a ser desperdiçado. A peça de Brecht diz-nos que a virtude não é conseguida em tempos difíceis. A mãe, vendedora ambulante, perde os filhos numa guerra em que lucra também. A ideia é levar o público a pensar mas sem se emocionar.
Deveríamos saber avaliar friamente até aqueles que amamos e rendermo-nos, sem fantasias ou quimeras nossas, àquilo de que eles são capazes de fazer ou não. Os adultos cuja personalidade, ao contrário dos adolescentes, já se encontra formada nunca mudam. Podem atenuar certos traços da mesma mas não mudam. E, às vezes, acreditar nas mudanças só nos traz dissabores. O pior cego é aquele que não quer ver…

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