terça-feira, 21 de agosto de 2007

Apesar dos golpes

Estou a ler uma biografia da minha escritora preferida. Já sabia que a relação dela com a mãe não era das melhores. Mas um trabalho aprofundado dá-nos uma outra riqueza de pormenores… sórdidos, até. Enfim, apesar de tudo, ela resume numa frase referindo-se à progenitora: “Mais je l’aime au-delà de cette connaissance que j’ai d’elle et qu’elle n’a pas d’elle-même.” E isto é assombroso. Gostar-se da mãe – que gritava, chorava, sofria comas melancólicos, batia-lhe, não a protegia do irmão mais velho que a agredia também física e verbalmente, da mãe que considerava obscena a ideia de ela se tornar escritora, da mãe que a vendeu a um amante chinês mas rico, da mãe… Continuo a achar extraordinário este laço inquebrantável que se tem com quem nos deu a vida.
Laços… Temo-los com quem amamos. Podem parecer fortes e eternos mas, quando menos esperamos partem-se e, com eles, parte-se o nosso coração, a maneira como vemos os outros e a nós mesmos.
É difícil falar sobre perdas mas pior é mesmo sentirmos essa angústia esmagar-nos os dias e toldar-nos o horizonte. Não há sensação mais atroz do que perdermos alguém quando ainda a amamos. “Perdermos” não porque morreu ainda que nos obrigue a uma espécie de luto em tudo semelhante ao autêntico. O tempo sara todas as feridas, dizem. Mas às vezes o tempo parece atrasar o passo…
Alguém que conheço perdeu a mulher para um outro homem e depois perdeu-o ela porque isto do coração e da tesão às vezes confunde…Foram dez anos de partilha feliz que acabaram em dois meses de cenário de guerra. Consta que se tratou do divórcio mais célere de Lisboa… Já lá vai quase um ano e ele confidenciou-me que quando está com uma mulher ainda sente que lhe está a ser infiel… à mulher desertora da história que antes era feliz. E a solidão continua imensa.
Eu acredito e valorizo todo este sofrimento. Há feridas que não se curam nunca ou então demoram séculos a cicatrizar. Existem pessoas mais sensíveis feitas de pó de estrelas que ousam sonhar quimeras. Fantasiam de olhos abertos, vêem a realidade cor-de-rosa e são felizes assim. Outras sabem que tudo é feio, porco e mau e preferem ver as coisas dessa maneira. Os realistas não têm qualquer tolerância versus os fantasistas. Acham-nos infantis e tristes. Esses curam a perda vingando-se nuns e noutros. Usam muletas como os sonhadores imaginam novas paisagens. Uns não estão para sofrer e outros sofrem em silêncio, com os amigos ou escondem a dor no orgulho que ainda lhes resta.
Triste é perdermos quem amamos. Porém, se soubermos passar por esse inferno uma coisa é certa: fica-se incólume, ou quase, a futuros desaires. A dor torna-nos mestres na vida. Mas que o coração nunca se nos enrijeça. Pois quem sonha e ama e sabe, apesar dos golpes, não desejar mal nenhum ao outro que os infligiu, esse é o mais sábio de entre nós. E o AMOR sabê-lo-á reencontrar.

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