A Sétima Arte já mostrou todo o tipo de mães possíveis e imaginárias. Curiosamente são poucas as actrizes que gostam de fazer este papel. O motivo deve-se ao facto de Hollywood rotular de uma forma demasiado óbvia quem faz o quê e, depois da mãe interpretada, o difícil é voltar a ter papéis de uma mulher sensual ou minimamente espevitada. Que o digam Kim Basinger, Kahtleen Turner e Debra Winger, entre tantas outras. Lá porque uma mulher é mãe não deixa de ser sexy, de ter charme e desejo de fazer mil e uma loucuras. No cinema e, mais importante, na vida real. Esta ideia de uma mãe estar acabada para o mundo erótico é no mínimo deprimente e no máximo uma grande falsidade. É claro que a maternidade acarreta novas responsabilidades mas nada disso impede que se goze a vida como muitos crêem e fazem crer. Um grande amigo meu disse-me: “Ser mãe deixou-te ainda mais bonita” e olhou-me daquele jeito que me fez corar até à ponta dos cabelos. “Desculpa os meus genes de lince”, gracejou, de seguida, mudando de assunto. E eu pensei: “Que querido. Nem sequer mencionou o meu excesso de peso – o tal que me massacra diariamente.”
De facto, ser mãe é uma experiência única mas não derradeira. Esclarecido este tema das mães de Hollywood, vi recentemente dois filmes, cujas mães por antagonismo e unicidade me intrigaram bastante: “Sonny” (2002), o primeiro filme realizado por Nicolas Cage e “The Pursuit of Happyness”, com Will Smith.
Nesta estreia de Cage como realizador, Sonny (James Franco, o belíssimo amigo do Homem Aranha) é um gigolo, um homem que foi ensinado pela mãe Jewel (Brenda Blethyn), uma prostituta de New Orleans a ser pago para dar prazer às mulheres quase desde criança, ou seja, um natural-born-whore. Nesta relação de interdependência mãe-filho, estão patentes vários aspectos, entre eles a chantagem psicológica da mãe que atinge o auge na frase: “Tu sabes que és a única pessoa que tenho. Diz que sabes”, o interesse pelo dinheiro que só é adquirido através do único investimento seguro que Jewel fez na vida: o próprio filho vendendo-se como prostituto/gigolo. E ele, Sonny, que tenta mudar de emprego e ser um square para depois desesperar e achar que o seu lugar é aquele e que não pode almejar mais nada ou sequer ninguém no destino que lhe foi traçado pela progenitora e que acabará por aceitar na dormência dos seus dias.
Jewel leva o filho a acreditar que sem ele não há vida possível para ela. E apesar dos apelos da jovem prostituta Carol (Mena Suvari) que foge à alçada de Jewel e tenta persuadir Sonny a também fazer o mesmo, este permanecerá ao lado da mãe, sem a qual, por sua vez, se sente demasiado só num mundo de squares. Sem julgamentos morais num filme hiper realista onde o charme e a ordinarice andam de mãos dadas esta é sem dúvida uma relação singular mãe-filho dada à luz na grande tela.
Já no “Pursuit of Happyness” (2006), o pai (Will Smith) fica logo com a custódia do filho (Jaden Smith, filho do actor na vida real). Enquanto que a mãe Linda (Thandie Newton), cansada de trabalhar turno após turno e de ver que o marido não consegue pagar a renda de casa nem vender a mercadoria dele acaba por partir. Neste filme que retrata a vida real de Chris Gardner, um vendedor que chega à Bolsa e vence – muito ao estilo dos filmes que Hollywood gosta de nos impingir a tresandar a sucesso – pouco se sabe sobre esta mãe. Linda apenas desaparece e deixa o filho para trás sem que Chris (Will Smith) se preocupe ou questione mais sobre o assunto. Chris brilha sozinho como profissional e pai irrepreensível.
Uma mãe manipuladora, interesseira e intragável no “Sonny” e uma mãe ausente, permissiva e quase invisível no “Pursuit of Happyness”. Lembrei-me agora de uma outra mãe: a do “8 Mile” (2003), onde Kim Basinger interpreta Stephanie, a mãe do rapper Eminem, o qual se representa a ele próprio na tela. Surge como uma mulher egocêntrica, que negligencia a filha de cinco anos, alcoólica e que passa a vida a discutir e a deitar os sonhos do filho – gravar um disco – por terra… Hum… Estou a precisar de ver filmes com mães heroínas e heróicas. E, já agora, consta que na vida real o rapper e a actriz que fez de mãe dele... andaram enrolados. Viva Édipo, viva!

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